Romantismo no Brasil: o guia completo sobre características, gerações, autores e obras

Romantismo no Brasil: o guia completo sobre características, gerações, autores e obras. Contexto histórico, as três gerações poéticas, José de Alencar, Álvar...

Por Sebastião Victor Diniz | Categoria: Todos, Educacional, Curiosidades
Romantismo no Brasil: o guia completo sobre características, gerações, autores e obras

Se alguém perguntar o que foi o Romantismo no Brasil e você tiver dez segundos para responder, diga isto: foi o movimento literário que, entre 1836 e 1881, tentou dar a um país recém-independente uma literatura com cara própria, com paisagem, heróis, amores e conflitos brasileiros. Serve como resposta de bolso, mas deixa de fora quase tudo o que torna o assunto interessante.

Fica de fora, por exemplo, o motivo de o índio ter virado herói nacional num país que escravizava africanos. Fica de fora a razão de tantos poetas terem morrido aos vinte e poucos anos, e o que a tuberculose tinha a ver com isso. Não aparece como um romance publicado no rodapé de jornal, capítulo por capítulo, ajudou a formar leitores num país em que a maioria nem sabia ler. E some também um rapaz baiano de pouco mais de vinte anos que pegou a retórica mais empolada da época e a apontou contra o tráfico de escravos.

Este guia percorre tudo isso sem pressa. Você vai encontrar as ideias que chegaram da Europa, o Brasil que as recebeu, as características do movimento, as três gerações poéticas, a prosa de Alencar e companhia, o teatro, as vozes que o cânone demorou a reconhecer, a passagem para o Realismo e o jeito como a crítica foi mudando de opinião ao longo do tempo. No final há um guia prático para reconhecer o estilo romântico em um texto, útil para quem estuda para o Enem e para os vestibulares.

Resumo rápido

  • Período: de 1836 (Suspiros Poéticos e Saudades) a 1881 (Memórias Póstumas de Brás Cubas).
  • Projeto: criar uma literatura nacional depois da Independência de 1822.
  • Marcas principais: nacionalismo, subjetivismo, idealização, natureza, sentimentalismo.
  • Gerações: a primeira é nacionalista e indianista, a segunda é ultrarromântica (o "mal do século") e a terceira é condoreira e social.
  • Nomes de referência: Gonçalves Dias, José de Alencar, Álvares de Azevedo e Castro Alves.
  • Contradição central: o discurso falava de liberdade e pátria enquanto a escravidão seguia de pé.

Sumário

  1. 1. O que foi o Romantismo no Brasil
  2. 2. Antes de 1836: as ideias que atravessaram o Atlântico
  3. 3. O Brasil que recebeu o movimento: contexto histórico
  4. 4. 1836: o marco inicial
  5. 5. Características do Romantismo brasileiro
  6. 6. Forma e linguagem: como os românticos escreviam
  7. 7. As três gerações em um quadro
  8. 8. Primeira geração: nacionalismo e Indianismo
  9. 9. Segunda geração: ultrarromantismo e mal do século
  10. 10. Terceira geração: poesia social e condoreirismo
  11. 11. A prosa romântica
  12. 12. O teatro romântico
  13. 13. A contradição central: liberdade no discurso, escravidão na realidade
  14. 14. Vozes que o cânone demorou a ouvir
  15. 15. Do Romantismo ao Realismo
  16. 16. Como a crítica leu o Romantismo
  17. 17. O legado do Romantismo brasileiro
  18. 18. Como reconhecer o Romantismo em um texto
  19. 19. Fichas das obras principais
  20. 20. Linha do tempo
  21. 21. Perguntas frequentes

1. O que foi o Romantismo no Brasil (e o que ele não foi)

Romantismo é o nome de uma corrente artística e intelectual que dominou o Ocidente entre o fim do século XVIII e meados do XIX. Ela alcançou a literatura, a música, a pintura, o teatro, a filosofia e até a política. O Romantismo brasileiro é a versão dessa corrente que se desenvolveu aqui, já misturada com assuntos e problemas locais. Pela convenção escolar, ele vai de 1836, ano de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, a 1881, ano de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que inaugura o Realismo.

Três palavras andam trocadas por aí, e vale arrumar isso logo. Romantismo, com R maiúsculo, é o movimento histórico, com data, escritores e obras. "Romântico", no uso do dia a dia, descreve quem gosta de jantar à luz de velas e de flores no aniversário de namoro. Tem algum parentesco com o movimento, mas é outra coisa. E "romance" é um gênero narrativo muito anterior (Dom Quixote é de 1605) que encontrou no século XIX o seu grande momento. O Romantismo popularizou o romance, mas não o inventou.

Uma ressalva sobre as datas: nenhum movimento literário começa numa terça-feira e termina numa sexta. Havia poemas de sensibilidade romântica antes de 1836, e escritores de alma romântica continuaram publicando depois de 1881. As datas funcionam como balizas didáticas, e é assim que aparecem nos livros e nas provas. Use-as como mapa, não como lei.

O mesmo vale para a divisão em três gerações, que veremos adiante. Ela foi consolidada pelos manuais e pelas histórias da literatura, e não por escritores que se enxergassem como "primeira" ou "segunda" geração. Álvares de Azevedo não acordava de manhã pensando "sou ultrarromântico". As gerações ajudam a organizar temas e atitudes, mas na vida real elas se sobrepõem, e um mesmo autor pode transitar entre fases.

2. Antes de 1836: as ideias que atravessaram o Atlântico

A matriz europeia

O Romantismo nasceu como contestação. O século XVIII, o do Iluminismo, tinha apostado na razão, na ciência, na ordem e em modelos de beleza herdados da Antiguidade clássica. Depois vieram a Revolução Francesa (1789), as guerras napoleônicas e a Revolução Industrial, e muita gente passou a desconfiar de que a razão sozinha não dava conta nem da felicidade nem da justiça. Rousseau, que já na década de 1760 elogiava o sentimento e a natureza contra a vida de salão, virou uma espécie de avô do movimento.

Na Alemanha, o Sturm und Drang ("tempestade e ímpeto") e o sucesso de Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), de Goethe, fixaram o tipo do rapaz sensível, apaixonado e incompreendido que faria escola em toda parte. Herder defendia que cada povo tem uma alma própria, expressa em suas canções, lendas e língua, e os irmãos Grimm saíram recolhendo contos populares. Na Inglaterra, Lyrical Ballads (1798), de Wordsworth e Coleridge, abriu caminho para uma poesia de linguagem simples. No prefácio da segunda edição, de 1800, Wordsworth define a poesia como o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos. Byron virou lenda: aristocrata, rebelde, de vida escandalosa, morreu em 1824 na Grécia, apoiando a guerra de independência grega. Walter Scott, por sua vez, popularizou o romance histórico, com castelos, batalhas e passado nacional.

A França chegou mais tarde, mas fez mais barulho. Madame de Staël apresentou a Alemanha romântica aos franceses, Chateaubriand publicou Atala (1801), um romance de amor e morte entre indígenas da América do Norte, e Victor Hugo declarou guerra aos clássicos no prefácio de Cromwell (1827). Em 1830, a estreia de Hernani provocou tumulto no teatro entre defensores das velhas regras e jovens românticos. Em Portugal, o poema Camões (1825), de Almeida Garrett, costuma ser apontado como ponto de partida do movimento, e Alexandre Herculano é outro nome central.

Dois traços europeus importam especialmente para o caso brasileiro. O primeiro é o nacionalismo cultural: perguntar "o que torna esta nação única?" virou assunto de poesia, e a resposta vinha do folclore, das paisagens e das línguas locais. O segundo é a busca de um passado heroico, que os românticos europeus encontraram na Idade Média. Um país sem Idade Média teria de arranjar outro passado.

Os caminhos até o Brasil

As ideias chegaram por vários canais. Um foi o francês Ferdinand Denis, que viveu no Brasil entre 1816 e 1819 e publicou, em 1826, um resumo da história literária de Portugal e do Brasil. Nele, aconselhava os brasileiros a largar a mitologia greco-latina e a buscar inspiração na natureza e nos povos nativos da própria terra. O conselho foi ouvido com atenção. Outro canal foi o prefácio de Garrett a uma antologia de poesia portuguesa, de 1826, que também circulou por aqui. E houve o canal humano: jovens brasileiros que foram estudar ou trabalhar em Paris, convivendo com a efervescência intelectual da cidade, e que voltaram carregando Lamartine e Hugo na bagagem.

Os próprios brasileiros, aliás, já tinham posto índios em versos antes do Romantismo. O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, e Caramuru (1781), de Santa Rita Durão, são poemas épicos com personagens indígenas, mas escritos em moldes neoclássicos, com a estrutura e o vocabulário herdados de Camões. A novidade romântica não foi a presença do índio, e sim o modo de olhá-lo: com sentimento, com orgulho nacional e como símbolo de origem.

3. O Brasil que recebeu o movimento: contexto histórico

O Brasil que recebeu o movimento: contexto histórico do Romantismo

1808: a corte muda de endereço

Em 1808, fugindo das tropas de Napoleão, a família real portuguesa atravessou o Atlântico e se instalou no Rio de Janeiro. De uma hora para outra, uma cidade colonial de ruas estreitas virou capital de um império. Os portos foram abertos às nações amigas, e surgiram o Banco do Brasil, a Imprensa Régia, a Biblioteca Real (origem da atual Biblioteca Nacional), escolas e teatros. Até então, imprimir livros e jornais na colônia era proibido.

Parece detalhe, mas não é. Sem tipografia, biblioteca e leitores não há literatura que se sustente.

1822: e agora, quem somos nós?

A Independência, proclamada em 7 de setembro de 1822, resolveu a questão do governo e abriu outra, bem mais difícil: o que é, culturalmente, ser brasileiro? O país mantinha a língua, a religião e boa parte das leis herdadas de Portugal, e sua elite se formava em Coimbra. Para os intelectuais da época, independência política sem independência cultural ficava pela metade.

É aí que a literatura ganha uma função que hoje nos soa estranha: ajudar a inventar a nação. O escritor romântico raramente escrevia só por prazer ou desabafo. Quase sempre carregava a missão de mostrar o Brasil a si mesmo.

Antonio Candido, autor de Formação da Literatura Brasileira (1959), lembra que esse nacionalismo não surgiu do nada. Vinha do velho nativismo colonial, o orgulho pela terra e suas riquezas, e ganhou fôlego novo com a Independência. No Romantismo, deixou de ser um tema entre outros e passou a organizar boa parte do que se escrevia.

A Regência: um país em chamas

O período regencial (1831–1840), em que o Império foi governado em nome de um herdeiro ainda criança, foi uma época turbulenta. Estouraram a Cabanagem no Pará, a Farroupilha no Rio Grande do Sul, a Sabinada e a revolta dos Malês na Bahia e a Balaiada no Maranhão. Em outras palavras, o Romantismo brasileiro nasce em 1836 com o país rachando em vários pontos. Isso ajuda a entender a urgência de certos discursos sobre unidade nacional: a literatura, nesse contexto, também era uma tentativa de dar coesão a um território enorme e dividido.

O jovem imperador e o mecenato

Em 1840, D. Pedro II assumiu o trono aos 14 anos, num golpe parlamentar que antecipou sua maioridade. Cresceu como um monarca letrado, curioso e vaidoso de suas relações culturais, e fez do Estado um dos poucos mecenas da época. Em 1838 já havia sido fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), sob proteção imperial, com a tarefa de escrever a história oficial do país. No mesmo ano em que o jovem imperador subiu ao trono, o Colégio Pedro II, criado em 1837, já formava a elite do Rio.

Isso explica o tom patriótico de boa parte da produção. Quem pagava as contas, em muitos casos, era o governo, e o governo gostava de ver a pátria bem tratada nos versos. Poetas e romancistas eram também funcionários, professores, diplomatas e deputados. Gonçalves de Magalhães e Porto-Alegre seguiram carreira diplomática, Gonçalves Dias lecionou no Pedro II, José de Alencar foi deputado e ministro da Justiça, e Joaquim Manuel de Macedo foi professor do mesmo colégio e preceptor dos filhos da princesa Isabel.

Em meados da década de 1840, o IHGB promoveu um concurso sobre como se deveria escrever a história do Brasil. O vencedor, o naturalista alemão Karl von Martius, defendeu que a história do país era a convergência de três raças: a branca, a indígena e a negra. Na teoria, os três entravam na conta. Na literatura romântica, o protagonismo heroico ficou com o português e o indígena. O africano escravizado, que sustentava a economia, quase não aparecia.

O Rio de Janeiro, a imprensa e o público leitor

Convém não imaginar multidões lendo poesia. No censo de 1872, o primeiro do país, mais de 80% dos brasileiros não sabiam ler nem escrever. O público de livros e jornais era uma minoria urbana: profissionais liberais, funcionários, comerciantes, estudantes e algumas moças de famílias abastadas. Era pouco, mas era mais do que jamais houvera, e crescia junto com a imprensa e com a economia do café.

O Rio de Janeiro concentrava essa vida. Era a capital do Império, o porto por onde saía o café e uma cidade de teatros, livrarias e redações. Alguns endereços ficaram famosos. A livraria e tipografia de Francisco de Paula Brito, homem de origem humilde e ascendência africana, reunia escritores numa roda informal e chegou a empregar o jovem Machado de Assis. Mais tarde, a casa editorial de Baptiste-Louis Garnier, francês que chegou ao Rio em 1844, passou a publicar boa parte da literatura de prestígio.

O principal motor de leitura foi o folhetim, o romance publicado em capítulos no rodapé dos jornais, modelo importado da França. Costuma-se apontar O Capitão Paulo, de Alexandre Dumas, publicado no Jornal do Commercio em 1838, como um dos primeiros exemplos no país. O leitor comprava o jornal para saber o que acontecera com o herói, e só depois, se a história fizesse sucesso, ela virava livro. Esse formato deixou marcas no estilo: suspense no fim de capítulo, reviravoltas, coincidências, personagens que se reencontram. E há registros de leituras em voz alta, em família ou em grupo, o que ampliava o alcance real de cada exemplar.

As faculdades: fábrica de poetas

Em 1827 foram criados os cursos jurídicos de São Paulo e de Olinda (este transferido para o Recife em 1854). Eram escolas de elite e também fábricas de poetas: rapazes de 17 ou 18 anos, longe da família, com biblioteca, jornal acadêmico, boemia e muita vontade de ser Byron. Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Castro Alves, Tobias Barreto e o próprio José de Alencar passaram por essas faculdades. A segunda geração romântica, com sua dor teatral e sua juventude eterna, tem muito de cultura estudantil.

Um país escravista

Tudo isso acontecia numa sociedade escravista. No censo de 1872, cerca de 15% da população, algo como um milhão e meio de pessoas, era formada por escravizados. O tráfico transatlântico foi proibido em 1850, a Lei do Ventre Livre é de 1871, e a Lei Áurea, de 1888, fez do Brasil o último país das Américas a abolir a escravidão. O Romantismo inteiro, de 1836 a 1881, aconteceu com a escravidão em pleno funcionamento. Guarde essa informação, porque ela volta várias vezes ao longo do texto.

4. 1836: o marco inicial e o papel de Gonçalves de Magalhães

Em 1836, em Paris, Domingos José Gonçalves de Magalhães publicou Suspiros Poéticos e Saudades. No mesmo ano, ele e amigos como Manuel de Araújo Porto-Alegre e Francisco de Sales Torres Homem lançaram a revista Niterói, também em Paris. Saíram só dois números, mas foram suficientes para fazer barulho. Ali apareceu o ensaio de Magalhães sobre a história da literatura do Brasil, que defendia a necessidade de uma literatura própria, e ali se apresentaram ideias românticas com a natureza e a religião em posição central.

Magalhães era discípulo do frei Francisco de Monte Alverne, grande orador sacro, e isso se nota: sua poesia é religiosa, moralizante e solene. Os historiadores usam Suspiros Poéticos e Saudades como marco porque é um livro-programa. Magalhães diz o que a poesia brasileira deveria ser (patriótica, espiritual, útil à formação do país) mais do que consegue realizá-lo. Dito sem rodeios, hoje pouca gente lê Magalhães por prazer. Os versos soam empolados, e quem veio logo depois, Gonçalves Dias em especial, cumpriu o mesmo projeto com muito mais talento. Mas importância histórica e qualidade estética são coisas diferentes, e o livro importa porque abriu a porta.

5. Características do Romantismo brasileiro

Características do Romantismo Brasileiro: nacionalismo, emoção, natureza e muito mais

O Romantismo brasileiro herdou muito do europeu, mas ganhou traços próprios. Estas são as marcas mais recorrentes.

Nacionalismo

É a marca mais forte e a que mais distingue o movimento daqui. Paisagem, história, tipos humanos e linguagem viram matéria de afirmação nacional. A natureza tropical, que viajantes estrangeiros descreviam como exótica, passa a ser tratada como motivo de orgulho. Palmeiras, sabiás, florestas e rios aparecem na poesia como atestado de que o Brasil tinha belezas à altura das europeias.

Subjetivismo e emoção

O "eu" vai para o centro. Em vez de falar do mundo em termos gerais e equilibrados, como pedia a tradição clássica, o poeta fala do que sente: saudade, desejo, tédio, dor, êxtase. O artista deixa de ser um artesão que aplica regras e vira um gênio de sensibilidade especial, o que explica a pose de poeta incompreendido que domina a segunda geração.

Idealização

A mulher amada é frágil, pura e quase etérea, um anjo de pele pálida. O amor é impossível, interrompido ou sofrido. Os heróis não têm manchas: Peri, de Alencar, é leal até o sacrifício. A infância aparece como paraíso perdido. O resultado são personagens e situações que lembram vitrais, belos e distantes. O Realismo vai criticar justamente isso.

Natureza como cenário e como espelho

A natureza serve de moldura, mas também reflete o estado de espírito: a tempestade acompanha a aflição do herói, o luar acompanha a melancolia. No Brasil, ela é também prova de identidade, na forma da floresta, do rio, do mar e do sertão.

Escapismo e sentimentalismo

Passado, sonho, noite, infância e morte funcionam como rotas de fuga de um presente tido por medíocre. O sentimentalismo faz do sofrimento amoroso, da saudade e do luto matéria constante de poemas e romances.

Liberdade de forma

Os românticos se afastam das regras rígidas do Classicismo e do Arcadismo. Variam os metros, misturam gêneros e abrem espaço para uma linguagem mais próxima da fala. Alencar chegou a defender, em prefácios e notas, o uso de palavras e construções brasileiras, o que irritou críticos portugueses.

O cavaleiro vira índio

Os românticos europeus tinham a Idade Média, com seus cavaleiros e castelos, como passado fundador. O Brasil não tinha nada parecido, e a saída foi procurar um equivalente. O indígena ocupou o lugar do cavaleiro, a mata tropical o lugar da floresta feudal, e o território brasileiro o lugar do reino medieval. Em O Sertanejo, de Alencar, o vaqueiro faz as vezes do cavaleiro, e a vaquejada, as do torneio. Foi uma troca de peças, e o jogo continuou o mesmo. Por isso não dá para dizer que o Romantismo brasileiro apenas copiou a Europa: ele adaptou o molde às peças que tinha.

Característica Em uma frase Onde aparece
Nacionalismo Exaltação da pátria, da paisagem e da história Gonçalves Dias, Alencar
Subjetivismo O "eu" e seus sentimentos no centro Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu
Idealização Amor, mulher e herói apresentados como perfeitos Alencar, Macedo
Natureza Cenário, símbolo e prova de identidade Todas as gerações
Escapismo Fuga pelo sonho, pelo passado ou pela morte Segunda geração
Engajamento Poesia como denúncia e causa pública Castro Alves

6. Forma e linguagem: como os românticos escreviam

Quem estuda o Romantismo só pelo conteúdo perde metade da história. O jeito de escrever também mudou, e dá para reconhecê-lo com algum treino.

Na poesia

Os poetas românticos abandonaram a rigidez do Arcadismo, mas não jogaram a métrica fora. Usavam com frequência a redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas, como na "Canção do Exílio"), o decassílabo (dez sílabas) e, em momentos solenes, o alexandrino (doze sílabas). Gonçalves Dias escreveu Os Timbiras em decassílabos brancos, ou seja, sem rima, e em "I-Juca-Pirama" alternou metros ao longo dos cantos, para acompanhar a mudança de tom da narrativa. Essa variação, chamada de polimetria, é um dos sinais de liberdade formal do período.

No vocabulário, a poesia romântica gosta de adjetivos intensos, de exclamações, de reticências e de invocações diretas (a apóstrofe, quando o poeta fala com a Pátria, com o mar, com a noite ou com o próprio leitor). A hipérbole, a antítese (luz contra trevas, vida contra morte) e a personificação da natureza aparecem o tempo todo. Em Castro Alves, essas figuras ganham escala cósmica: o mar, a tempestade, o condor.

Na prosa

O narrador romântico quase nunca some. Conversa com o "leitor" e com a "leitora", comenta a ação, pede paciência e anuncia o que vem depois. As descrições de paisagem são longas, a linguagem é elegante e as tramas se apoiam em acasos, reconhecimentos tardios e finais morais, em que o bem tende a ser premiado e a falsidade, punida. A estrutura em capítulos curtos, com ganchos, é herança direta do folhetim.

A questão da língua

Havia ainda um debate de fundo: em que português escrever? Alencar defendeu abertamente que o brasileiro tinha direito a palavras, ritmos e construções próprias, e escreveu em prefácios e notas que a língua daqui estava se transformando, como acontece com qualquer língua viva. Críticos portugueses reclamaram, e Alencar respondeu à altura. O tema ressurgiria com força no Modernismo.

7. As três gerações em um quadro

Aspecto 1ª geração 2ª geração 3ª geração
Período usual 1836–1852 1853–1870 1870–1881
Nomes Nacionalista ou indianista Ultrarromântica ou do "mal do século" Condoreira, social ou libertária
Tema central Pátria, natureza, índio Angústia, amor, morte Liberdade, abolição, justiça
Figura central O índio herói O jovem poeta melancólico O oprimido e o coletivo
Tom Patriótico e idealizador Noturno, doloroso, fantasioso Grandioso, retórico, indignado
Autores Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Porto-Alegre Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire Castro Alves, Tobias Barreto, Sousândrade

Iracema, por exemplo, é de 1865 e pertence ao projeto indianista da primeira geração, embora tenha sido publicada quando a segunda estava a pleno vapor. Lembre-se: as gerações ordenam sobretudo temas e atitudes.

8. Primeira geração (1836–1852): nacionalismo e Indianismo

A primeira geração é também chamada de nacionalista ou indianista. Seu projeto cabe numa pergunta: como criar uma literatura brasileira autêntica num país recém-independente, de tradição colonial portuguesa e sem um público leitor consolidado? A resposta foi voltar-se para a natureza, para a pátria e para o indígena.

Por que o índio?

O indígena oferecia o que o Brasil não tinha: um passado heroico anterior à colonização portuguesa, capaz de funcionar como origem mítica. Era uma figura "limpa" para um projeto nacional, ligada à terra, corajosa, livre. Mais conveniente, convenhamos, do que o escravizado africano, cuja presença lembrava diretamente a violência sobre a qual a economia se apoiava.

Gonçalves Dias, o grande poeta da fase

Antônio Gonçalves Dias (1823–1864) nasceu em Caxias, no Maranhão, filho de um comerciante português com uma mulher mestiça. Estudou Direito em Coimbra, onde escreveu, em 1843, a "Canção do Exílio". Voltou ao Brasil, deu aulas no Colégio Pedro II, estudou línguas e culturas indígenas (publicou um dicionário de tupi em 1858) e foi enviado à Europa pelo governo para estudar a instrução pública. A tradição biográfica conta que seu amor por Ana Amélia Ferreira Vale, que inspirou "Ainda uma Vez — Adeus!", foi barrado pela família dela, em parte por preconceito contra sua origem. Morreu em 1864, num naufrágio na costa do Maranhão, quando voltava da Europa, doente.

Seus livros principais são Primeiros Cantos (1846), Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848), Últimos Cantos (1851) e o poema épico inacabado Os Timbiras (publicado em 1857). Também escreveu teatro, como o drama Leonor de Mendonça.

A "Canção do Exílio" talvez seja o poema mais famoso da literatura brasileira. Escrito na saudade de um jovem em Portugal, contrapõe o "lá" e o "cá" e enumera palmeiras, sabiás, céu, estrelas e flores, em versos de sete sílabas. O poema vem com uma epígrafe de Goethe, sobre a terra onde florescem os limoeiros, e isso diz muito: a saudade da pátria brasileira está embalada num gesto literário europeu. A simplicidade é a força, e o poema ganhou tantas releituras que virou quase um gênero. Oswald de Andrade e Murilo Mendes fizeram suas paródias, Chico Buarque e Tom Jobim dialogaram com ele em "Sabiá" (1968), e o Hino Nacional brasileiro cita, entre aspas, versos de Gonçalves Dias.

"I-Juca-Pirama", publicado em Últimos Cantos, é a obra-prima do Indianismo poético. O título, segundo o próprio autor, significa "o que há de ser morto, e que é digno de ser morto". O poema conta a história de um jovem guerreiro tupi capturado pelos timbiras. Ele chora diante da morte e explica que precisa viver para cuidar do pai velho e cego. Os captores, por considerarem a súplica covarde, o libertam com desprezo. Quando o pai descobre o que aconteceu, amaldiçoa o filho, que retorna à luta e prova sua coragem. Honra, vergonha, tragédia e dever filial se misturam, e o poema é famoso pela variedade de ritmos, que acompanha as mudanças de emoção.

Gonçalves Dias mostra que o nacionalismo romântico não era só ufanismo. Havia nele melancolia, senso de perda e uma consciência de que o mundo indígena que ele cantava estava desaparecendo.

Os outros nomes da primeira fase

Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806–1879) foi pintor, arquiteto, caricaturista, diplomata e poeta, autor de Brasilianas (1863) e do épico Colombo (1866), mais lembrado por seu papel de articulador do que por seus versos. Gonçalves de Magalhães, como vimos, é mais importante pelo papel histórico. E há uma geração de prosadores que consolidou o romance, de que falaremos na seção sobre prosa.

José de Alencar entra em cena

José de Alencar (1829–1877), o maior romancista do período, aparece com força em 1856, na polêmica em torno de A Confederação dos Tamoios, poema épico de Magalhães. Sob o pseudônimo "Ig", publicou no Diário do Rio de Janeiro cartas que criticavam o poema: seus indígenas falavam e agiam como europeus de roupa trocada, e faltava força poética. A discussão teve peso político porque o poema era apadrinhado por D. Pedro II. Em 1857, Alencar respondeu com o romance O Guarani, em que tentava mostrar na prática o que defendia.

O Indianismo: herói ou fantasia?

Hoje o Indianismo é lido com duas lentes ao mesmo tempo. De um lado, foi histórico, influente e simbolicamente poderoso: colocou o indígena no centro da literatura nacional e criou imagens que atravessaram gerações. De outro, foi uma construção idealizadora. Povos muito diferentes entre si (tupis, guaranis, timbiras, tamoios) foram reduzidos a uma figura genérica de "bom selvagem", nobre, corajosa e silenciosa. O índio romântico fala como herói clássico, ama segundo convenções europeias e encarna valores do Império.

Além disso, o Indianismo tende a apagar a violência colonial, a escravização indígena, as epidemias e as guerras de conquista. Cria uma origem poética para o Brasil, mas não uma história social dos povos originários. Gonçalves Dias, que pesquisava língua e costumes indígenas, tem um indianismo mais denso que o de muitos contemporâneos, mas ainda se move dentro dessa moldura. O fenômeno também não foi só brasileiro: por toda a América Latina, escritores românticos como Esteban Echeverría, na Argentina, e Juan León Mera, no Equador, buscaram no indígena e na paisagem local uma matéria nacional.

9. Segunda geração (1853–1870): ultrarromantismo e mal do século

Na segunda geração, o foco sai da pátria e vai para dentro do poeta. O índio perde espaço, e ganham espaço a angústia, o tédio, o amor idealizado e impossível, a noite, o sonho e a morte. Por isso a fase é chamada de ultrarromântica: o sentimento é levado ao exagero. Tradicionalmente, o marco de início é a publicação póstuma, em 1853, da Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, que morrera no ano anterior.

O que é o mal do século

"Mal do século" é a expressão para um estado de espírito feito de tédio, melancolia, desencanto, solidão e sensação de não pertencer ao mundo. Tem raízes na literatura europeia, em autores como Chateaubriand (cujo René já descrevia esse vazio), Lamartine, Musset (cuja Confissão de um Filho do Século, de 1836, deu nome à ideia), Leopardi e, principalmente, Byron. O poeta ultrarromântico se apresenta como jovem genial, doentio, noturno, rebelde e condenado a uma vida curta. Aparecem o culto da infância, o fascínio pela morte, o gosto por cenários góticos e, às vezes, uma pitada de satanismo literário.

Há ainda um ingrediente nada poético: a tuberculose, doença que matava muita gente jovem na época. Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Castro Alves morreram dela. A palidez, a magreza e a tosse viraram quase um figurino estético, e a morte precoce tornou-se um destino que o poeta esperava e, às vezes, encenava.

Um aviso que a literatura da época não dava: a morte glamourosa era convenção de papel, uma máscara estética. Tristeza persistente na vida real merece conversa e apoio, e não pose de poeta maldito. Se este assunto toca você de perto, procurar ajuda é sempre uma boa decisão.

Álvares de Azevedo

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831–1852) é o grande nome da fase. Estudou na Faculdade de Direito de São Paulo e morreu aos 20 anos, de tuberculose agravada por um tumor. A morte precoce alimentou a lenda do gênio interrompido.

A Lira dos Vinte Anos (1853), organizada por amigos depois de sua morte, tem duas faces, e o próprio autor as explica no prefácio. De um lado, a poesia idealizadora, de jovens pálidas, saudade e amores puros, como em "Lembrança de Morrer" e "Se Eu Morresse Amanhã". De outro, uma faceta irônica, boêmia e desabusada, em que o poeta zomba do próprio sentimentalismo, como em "Namoro a Cavalo". É esse humor, aliás, que o salva de ser só um poeta de pose.

Ele escreveu também em prosa e para o teatro. Noite na Taverna, publicado depois de sua morte, é um livro de contos góticos contados por jovens bêbados numa taverna, com histórias de vingança, orgia e assassinato. Macário é uma peça de teatro de caráter fantástico e filosófico, com um jovem poeta e um personagem de ares diabólicos. Esses dois não são poemas, embora costumem aparecer misturados com a poesia nas listas escolares.

Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu (1839–1860) representa uma vertente mais simples, musical e nostálgica. Foi estudar em Portugal ainda adolescente, e dessa distância nasceu a saudade que marca As Primaveras (1859). O poema "Meus Oito Anos" é o exemplo mais conhecido: o eu lírico lembra a infância como um tempo de pureza, de colo de mãe, de brincadeira ao ar livre, irreversivelmente perdido. Morreu de tuberculose aos 21 anos. A facilidade dos versos explica a enorme popularidade, e também por que a crítica mais exigente nem sempre o trata com a mesma seriedade que dedica a Álvares de Azevedo.

Fagundes Varela e Junqueira Freire

Luís Nicolau Fagundes Varela (1841–1875) é mais variado que seus colegas. Escreveu sobre natureza, religiosidade, patriotismo e amor, e deixou livros como Noturnas (1861), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meridionais e Cantos do Ermo e da Cidade (ambos de 1869). Em Cantos e Fantasias está o "Cântico do Calvário", comovente poema sobre a morte de seu filho pequeno. Sua obra já anuncia alguma abertura para temas sociais, o que o aproxima da geração seguinte. Morreu aos 33 anos.

Luís José Junqueira Freire (1832–1855) foi frade beneditino na Bahia, deixou o mosteiro e escreveu Inspirações do Claustro (1855), em que o conflito entre vocação religiosa e desejos terrenos aparece de forma tensa e confessional. Morreu aos 22 anos.

Biografia ou fórmula?

Seria fácil ler a segunda geração como biografia pura: poetas que morreram jovens e escreveram sobre a morte. Mas a questão é mais complexa. A morte virou convenção estética, máscara e recurso de autoidealização. Esses rapazes liam Byron, viviam num ambiente acadêmico que cultuava a pose do gênio atormentado e escreviam dentro de um repertório compartilhado. Isso não torna a dor falsa, mas lembra que o sofrimento romântico também era um papel social, com figurino, cenário e fala marcada.

10. Terceira geração (1870–1881): poesia social e condoreirismo

A terceira geração costuma ser chamada de condoreira, social ou libertária. Seu marco é Espumas Flutuantes, de Castro Alves, publicado em 1870. O nome vem do condor, ave de grande envergadura que simboliza a altura do voo poético, a liberdade e a força retórica, imagem associada à tradição poética andina e hispano-americana. A influência de Victor Hugo, especialmente o Hugo político e republicano, também é central no tom.

O que muda

O contexto era outro. A Guerra do Paraguai (1864–1870) tinha exposto as fragilidades do país, o abolicionismo ganhava força e as ideias republicanas circulavam nas faculdades. A pergunta já não era como inventar uma nação, mas como encarar seus problemas. O poeta deixa de falar apenas de si e passa a falar em nome de uma causa. O tom muda também: em vez da melancolia murmurada, uma retórica de tribuna, feita para ser declamada em praça, teatro e comício.

Castro Alves

Antônio Frederico de Castro Alves (1847–1871) nasceu na Bahia e estudou Direito em Recife, onde foi aclamado como poeta e viveu uma paixão pela atriz portuguesa Eugênia Câmara. Em 1868 mudou-se para São Paulo. Naquele ano, um acidente de caça feriu seu pé, que teve de ser amputado. Voltou à Bahia doente e morreu de tuberculose em 1871, aos 24 anos. Em vida publicou apenas Espumas Flutuantes, em 1870. Os Escravos, que reúne seus poemas abolicionistas, só saiu em 1883.

Ficar só no "poeta dos escravos" é simplificar. Castro Alves escreveu também poemas de amor muito sensuais, como "Adormecida" e "Boa-Noite", versos de exaltação à ciência e ao progresso, como "O Livro e a América", e um poema em que o jovem fala da juventude e da morte como se antecipasse o próprio destino, "Mocidade e Morte". Mas sua fama histórica vem da poesia social.

Em "O Navio Negreiro", escrito em 1868, o poeta começa diante de um mar sereno e, aos poucos, o poema desce ao porão de um navio de tráfico, onde homens, mulheres e crianças são mostrados em condições de horror. O texto é dividido em seis partes, com tom e ritmo que mudam de uma a outra, do lirismo ao grito. No final, o poeta se dirige à bandeira brasileira e pede que ela deixe de cobrir tamanha infâmia. "Vozes d'África" dá voz ao próprio continente, que se queixa do abandono, da violência e da indiferença dos povos que lucravam com o tráfico. Em A Cachoeira de Paulo Afonso, longo poema narrativo, a paisagem e o drama de escravizados se misturam.

A grandiloquência de Castro Alves, com imagens de escala cósmica (mar, tempestade, sol, montanha, condor), não é puro enfeite. Ela serve ao propósito de criar um efeito público, quase um discurso de palanque. Isso explica por que seus versos foram, e ainda são, declamados em eventos e comícios.

Outros nomes

Tobias Barreto (1839–1889) foi poeta, filósofo e jurista, líder da chamada Escola do Recife, que trouxe ao Brasil o pensamento alemão. Seus versos de Dias e Noites (1881) têm sentido social e filosófico. Sousândrade (Joaquim de Sousa Andrade, 1832–1902) é um caso à parte. Seu longo poema O Guesa, com trechos como o "Inferno de Wall Street", escrito a partir de sua experiência em Nova York, mistura referências indígenas, políticas e modernas de um jeito tão estranho para a época que só foi redescoberto nos anos 1960, pelos poetas concretistas Augusto e Haroldo de Campos. Em certas leituras, ele está mais para precursor do que para membro da terceira geração.

11. A prosa romântica

A Prosa Romântica: romances, autores e mundos que ajudaram a inventar o Brasil

A prosa foi decisiva para a formação do romance brasileiro. Com mais leitores, mais jornais e o sucesso do folhetim, os escritores encontraram uma maneira de viver (às vezes mal) da escrita. A prosa romântica não é homogênea e se divide em vertentes: indianista, urbana, histórica, regionalista e de costumes.

Os primeiros passos

O Filho do Pescador (1843), de Teixeira e Sousa, costuma ser apontado como o primeiro romance romântico brasileiro, embora tenha tido pouca repercussão. O sucesso de verdade veio no ano seguinte, com A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo (1820–1882). A história se passa na ilha de Paquetá e acompanha um estudante de medicina, Augusto, que garante a seus amigos que jamais amará a mesma moça por mais de quinze dias, e uma garota, Carolina, que o desmente. Um colar-amuleto e uma promessa de infância amarram as pontas da trama. É leve, cheia de convenções românticas e bem-humorada. Macedo retratou a elite carioca com seus namoros, festas e etiquetas, e ajudou a criar um modelo de romance urbano para o público brasileiro, em boa parte feminino.

José de Alencar e seus quatro Brasis

José de Alencar nasceu no Ceará, estudou Direito em São Paulo, foi editor do Diário do Rio de Janeiro, deputado e ministro da Justiça, e guardou mágoa do imperador por não ter sido nomeado senador. Morreu em 1877, vítima de tuberculose. Escreveu romances de praticamente todos os tipos e, quase como quem monta um mapa, tentou cobrir o país inteiro. Em um texto autobiográfico, contou que se formou lendo, entre outros, Chateaubriand, Walter Scott e James Fenimore Cooper, o autor de O Último dos Moicanos. Vale olhar cada frente separadamente.

O romance indianista: a invenção das origens. O Guarani (1857) saiu em folhetim e é uma história de aventura e amor passada em 1604, nas montanhas do Rio de Janeiro. O indígena Peri se devota à jovem Cecília (Ceci), filha de um fidalgo português, e faz de tudo para protegê-la, enfrentando a ameaça de um aventureiro italiano, o ataque dos aimorés e a destruição da casa da família. No clímax, uma enchente leva Peri a arrancar uma palmeira e navegar com Ceci sobre as águas, em cena que lembra um mito de recomeço. Iracema (1865), "lenda do Ceará" em prosa poética, conta o amor entre a índia tabajara Iracema e o colonizador português Martim. O nome é um anagrama de "América", e o filho do casal, Moacir, nasce como o símbolo do primeiro brasileiro. Iracema morre, e o romance tem o tom de uma fundação feita de sacrifício. Ubirajara (1874) se passa por inteiro no mundo indígena, antes da chegada dos europeus.

O romance urbano: crítica da sociedade. Em Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875), Alencar olha para o Rio de Janeiro burguês. Lucíola trata de uma cortesã de aparência pura e alma dividida. Senhora é considerado por muitos o seu melhor romance. Aurélia Camargo, pobre, é abandonada pelo noivo, Fernando Seixas, que prefere casar por dinheiro. Quando herda uma fortuna, ela o "compra" em um casamento arranjado e passa a tratá-lo como mercadoria. A obra tem quatro partes, cujos títulos ("O Preço", "Quitação", "Posse" e "Resgate") já expõem a lógica de negócio que contamina o amor. Aurélia é idealizada, mas também é uma mulher que usa dinheiro para inverter, ainda que de modo limitado, a lógica do casamento burguês. Por isso o livro é lido hoje como uma crítica sofisticada às relações entre afeto, dinheiro e poder.

O romance regionalista: o Brasil além da capital. O Gaúcho (1870) se passa no Rio Grande do Sul, O Tronco do Ipê (1871) numa fazenda fluminense, Til (1872) no interior paulista e O Sertanejo (1875) no sertão do Ceará. Alencar amplia o mapa literário do país, mostrando vaqueiros, gaúchos, fazendeiros e paisagens diversas. Seu olhar ainda é idealizador, mas ele deixa um repertório que seria aproveitado por autores posteriores.

O romance histórico: o passado como legitimação. As Minas de Prata, publicado na década de 1860, transforma o Brasil colonial em matéria de aventura e memória nacional. A seleção e a recriação do passado também faziam parte do projeto de dar continuidade histórica à nação.

Manuel Antônio de Almeida: o romance fora da linha

Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1831–1861), saiu em folhetim entre 1852 e 1853 e é um caso curioso. Embora pertença cronologicamente ao Romantismo, desmonta várias de suas convenções. O protagonista, Leonardo, não tem nada de herói idealizado: é esperto, preguiçoso, trapaceiro e se safa de tudo com jeitinho. O cenário é o Rio de Janeiro do tempo de D. João VI, e o foco está em barbeiros, comadres, ciganos, meirinhos e o temido major Vidigal, chefe de polícia. O tom é de humor e ironia, e o romance se apoia no cotidiano popular.

Antonio Candido leu o livro como um retrato de um mundo em que a ordem e a desordem se confundem, no ensaio "Dialética da Malandragem" (1970), que virou referência. O romance mostra que o Romantismo nunca foi um bloco único. Manuel Antônio de Almeida morreu aos 30 anos, num naufrágio, e nunca soube do prestígio que a obra ganharia.

Bernardo Guimarães, Taunay e outros

Bernardo Guimarães (1825–1884) escreveu romances regionalistas e de costumes, como O Seminarista (1872), e é autor de A Escrava Isaura (1875), que teve enorme popularidade. O livro denuncia a escravidão, mas a protagonista é uma escrava de pele clara, o que facilitava a identificação do leitor branco e é tema de debate crítico até hoje. Mais de um século depois, a adaptação para a televisão, de 1976, foi exportada para dezenas de países. O Visconde de Taunay, neto do pintor francês Nicolas-Antoine Taunay, publicou Inocência (1872), história de amor trágico passada no sertão de Mato Grosso, com descrições detalhadas da paisagem e dos costumes locais. Franklin Távora, com O Cabeleira (1876), reivindicava uma literatura própria do Norte.

O jovem Machado

Machado de Assis (1839–1908) também teve uma fase de romances de estilo romântico: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Neles já aparece certo olhar sobre as relações sociais e as ambiguidades dos personagens, que se afinariam em seus livros posteriores. Os historiadores usam Memórias Póstumas de Brás Cubas para marcar a virada porque ali o estilo muda de vez.

12. O teatro romântico

O teatro também foi parte do projeto. Em 1838, a peça Antônio José, ou O Poeta e a Inquisição, de Magalhães, encenada pelo grande ator João Caetano, é tida como marco do teatro romântico brasileiro. No mesmo ano, estreou O Juiz de Paz da Roça, de Martins Pena, que fundou a comédia de costumes nacional, com tipos populares e crítica leve. Gonçalves Dias escreveu Leonor de Mendonça, e Castro Alves, o drama Gonzaga ou A Revolução de Minas, sobre a Inconfidência.

José de Alencar escreveu para o palco peças como O Demônio Familiar (1857), As Asas de um Anjo (1858, proibida pela censura) e Mãe (1860). Esta última trata de uma mulher escravizada que sofre calada para não revelar ao filho livre, que a trata como serva, que é sua mãe. Muitas dessas peças estrearam no Ginásio Dramático, casa que apostava no chamado "teatro realista", com temas da vida burguesa. O drama romântico gostava de conflitos entre amor, honra, família, religião e dever social, com personagens excepcionais e finais comoventes.

13. A contradição central: liberdade no discurso, escravidão na realidade

Não há como falar do Romantismo brasileiro sem encarar este ponto. A Lei Áurea só foi assinada em 1888, sete anos depois do fim convencional do movimento e dezessete anos depois da morte de Castro Alves. Enquanto os poetas da primeira geração exaltavam a liberdade, a pátria e um passado indígena idealizado, milhões de africanos e descendentes estavam escravizados.

Na primeira geração, a escravidão africana é omitida ou minimizada, enquanto o indígena sobe ao pedestal de símbolo nacional. A ausência não é um detalhe: faz parte da maneira como o Romantismo construiu uma imagem harmônica e heroica do Brasil.

O caso de Alencar é emblemático. O mesmo escritor que criou Peri e Iracema defendeu a manutenção da escravidão em textos políticos dos anos 1860 e se opôs, no Parlamento, à Lei do Ventre Livre, de 1871. Ao mesmo tempo, escreveu a peça Mãe, que humaniza uma mulher escravizada. Isso mostra que escritores e obras raramente são coerentes, e que ler literatura histórica exige separar o que o texto faz do que o autor pensava.

É preciso evitar duas simplificações. Dizer que todo o Romantismo brasileiro era abolicionista é falso: boa parte do movimento ignorou ou naturalizou a escravidão. Dizer que o Romantismo não teve nenhuma dimensão crítica também é falso, pois autores como Castro Alves, Fagundes Varela, Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis participaram, de formas diferentes, dos debates antiescravistas.

14. Vozes que o cânone demorou a ouvir

Durante muito tempo, os livros escolares apresentaram o Romantismo como um clube de homens brancos, formados em Direito, escrevendo sobre mulheres e índios. A pesquisa mais recente tem resgatado outras vozes.

Luiz Gama (1830–1882) nasceu livre, mas foi vendido como escravo pelo próprio pai aos dez anos. Aprendeu a ler já adolescente, conseguiu provar que fora ilegalmente escravizado e se tornou jornalista, poeta e advogado autodidata (rábula). Publicou Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1859), com sátiras ferinas, colaborou com a imprensa satírica paulista e atuou nos tribunais pela libertação de centenas de pessoas escravizadas. É uma figura essencial para entender os limites das narrativas dominantes da época.

Maria Firmina dos Reis (1822–1917), professora maranhense e mulher negra, publicou em 1859, sob o pseudônimo "Uma Maranhense", o romance Úrsula, considerado por muitos pesquisadores o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher no Brasil. Nele, personagens escravizados têm voz, memória e dignidade, algo raro na ficção da época. O capítulo em que Susana, uma mulher escravizada, relata sua captura na África e a travessia no navio negreiro é um dos momentos mais fortes da literatura do período, e dialoga com "O Navio Negreiro" de Castro Alves, escrito quase uma década depois.

Nísia Floresta (1810–1885), educadora e escritora potiguar, publicou em 1832 Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, texto pioneiro na defesa da educação e dos direitos femininos no país. Narcisa Amália (1852–1924), poeta e jornalista, publicou Nebulosas em 1872 e defendeu em sua obra e imprensa a abolição e a república.

Acrescentar essas vozes não diminui Alencar, Gonçalves Dias ou Castro Alves. Dá uma imagem mais fiel de um período em que a literatura brasileira era feita, de fato, por muito mais gente do que os antigos manuais admitiam.

15. Do Romantismo ao Realismo

A passagem para o Realismo não foi um corte brusco. Em 1881, saíram Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e O Mulato, de Aluísio Azevedo, este de inspiração naturalista. Esses livros reagem à idealização romântica com ironia, observação social, pessimismo e análise psicológica. Em vez de heróis sem mácula e amores perfeitos, aparecem pessoas contraditórias, interesses econômicos, hipocrisia e vaidade.

Mas o Realismo não "substitui" o Romantismo de forma simples. Muita coisa continua: o sentimentalismo, o interesse pela nação, o folhetim e o romance como gênero central. Machado era cronista, crítico e poeta desde os anos 1850 e 1860, ou seja, dentro do próprio período romântico. O Realismo desmonta idealismos românticos, mas é feito, em boa parte, com as ferramentas que o Romantismo deixou. Na poesia, a mudança vem logo em seguida, com a estética parnasiana, que a partir dos anos 1880 troca a emoção derramada por forma rigorosa e contenção.

16. Como a crítica leu o Romantismo

O Romantismo se leu a si mesmo muito cedo. Antologistas como Varnhagen, com o Florilégio da Poesia Brasileira (1850–1853), reuniram poetas coloniais para provar que havia uma tradição brasileira. A História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero, publicada em 1888, tratou de organizar o conjunto como um desenvolvimento histórico e como expressão do povo.

No século XX, a leitura mais influente foi a de Antonio Candido. Em Formação da Literatura Brasileira (1959), ele propôs entender a literatura como um sistema, com autores, público e uma linguagem que os liga, e viu no Romantismo o momento em que esse sistema se consolidou no Brasil. Para Candido, o nacionalismo é o princípio organizador do período, e o Indianismo é o seu símbolo mais visível. Alfredo Bosi, na História Concisa da Literatura Brasileira (1970), ofereceu uma síntese mais curta, muito usada em escolas e universidades.

As leituras recentes acrescentaram outras perguntas. Quem ficou de fora do cânone? O que a idealização do índio escondeu? Que papel tiveram as mulheres e os autores negros? Como ler a escravidão em obras que a ignoram? Essas perguntas não destroem o valor dos clássicos, mas mudam o jeito de lê-los.

17. O legado do Romantismo brasileiro

O Legado do Romantismo Brasileiro: literatura, arte, música e ideias que ainda nos formam

O Romantismo deixou marcas profundas. Criou os primeiros grandes nomes da poesia e da ficção nacionais, consolidou o romance como gênero de grande alcance e estabeleceu o indígena como símbolo literário da nação. Valorizou a paisagem tropical e a diversidade regional e deixou uma tradição de poesia sentimental, patriótica e política.

A influência foi além dos livros. Na música, a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, baseada no romance de Alencar, estreou em 1870 no Teatro alla Scala, em Milão, e fez do compositor um nome internacional. A abertura da ópera ainda é ouvida todos os dias no Brasil, como tema do programa de rádio A Voz do Brasil. Na pintura, a Primeira Missa no Brasil (1861), de Victor Meirelles, ajudou a moldar a imagem visual da origem do país.

Os modernistas do século XX divertiram-se desmontando o Romantismo. A paródia da "Canção do Exílio" virou quase esporte, e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, com seu "herói sem nenhum caráter", pode ser lido como o oposto de Peri, o herói sem mancha. Os temas indígenas foram retomados com outro olhar.

As contradições também permanecem. O indígena idealizado conviveu com o apagamento dos povos reais, o discurso de liberdade conviveu com a escravidão, e a exaltação da nação conviveu com profundas desigualdades. Boa parte dos debates atuais sobre identidade, memória e representação já estava em jogo naquelas páginas, ainda que de forma torta.

18. Como reconhecer o Romantismo em um texto

Para provas e para a leitura em geral, vale ter um roteiro. Diante de um trecho, pergunte:

  1. Quem fala? Um "eu" íntimo e sofredor sugere segunda geração. Uma voz que se dirige a uma multidão, à Pátria ou ao Brasil sugere terceira. Um narrador que descreve uma floresta ou uma lenda sugere primeira geração ou prosa indianista.
  2. Para onde o texto olha? Para a pátria e a natureza, para dentro do poeta ou para a injustiça social?
  3. Qual é a emoção dominante? Orgulho patriótico, saudade, tédio e angústia, ou indignação?
  4. Como é a natureza? Cenário de beleza e identidade, espelho de dor, ou palco de grandes forças (mar, tempestade, condor)?
  5. Como é o amor? Puro e idealizado, impossível, ou envolto em sensualidade e culpa?

A tabela abaixo ajuda a ligar pistas a gerações e obras.

Se o texto traz... Pense em...
Exaltação da pátria, natureza tropical, índio heroico 1ª geração (Gonçalves Dias, Alencar)
Saudade da terra natal vista de longe 1ª geração ("Canção do Exílio")
Tédio, noite, morte, amor impossível, "eu" atormentado 2ª geração (Álvares de Azevedo)
Saudade da infância, simplicidade, musicalidade 2ª geração (Casimiro de Abreu)
Denúncia da escravidão, tom de discurso, condor 3ª geração (Castro Alves)
Casamento como negócio, crítica à sociedade burguesa Alencar urbano (Senhora)
Anti-herói malandro, humor, cotidiano popular Manuel Antônio de Almeida

Algumas armadilhas comuns em prova:

  • Índio não é sinônimo de Romantismo. O Arcadismo, que o antecede, já tinha índios em O Uraguai e Caramuru. O que muda é o tratamento: no Romantismo, o índio é herói nacional e símbolo de origem.
  • Romantismo não é só amor. Nacionalismo, política e crítica social fazem parte do pacote.
  • Indianismo é movimento literário, não retrato fiel dos povos indígenas. As provas gostam de pedir leitura crítica da idealização.
  • Cuidado com a data. Textos de 1870 em diante podem ser terceira geração, mas também podem anunciar o Realismo ou o Parnasianismo.

19. Fichas das obras principais

Obra Autor Ano Gênero Em uma linha
Suspiros Poéticos e Saudades Gonçalves de Magalhães 1836 Poesia O livro-programa que abre o Romantismo
A Moreninha J. M. de Macedo 1844 Romance Aposta, amor e juventude carioca em Paquetá
Primeiros Cantos Gonçalves Dias 1846 Poesia Traz a "Canção do Exílio"
Últimos Cantos Gonçalves Dias 1851 Poesia Contém "I-Juca-Pirama"
Memórias de um Sargento de Milícias Manuel A. de Almeida 1852–53 Romance Anti-herói malandro no Rio de D. João VI
Lira dos Vinte Anos Álvares de Azevedo 1853 Poesia Lirismo idealizado e ironia boêmia
O Guarani José de Alencar 1857 Romance Peri, Ceci e o mito de origem
As Primaveras Casimiro de Abreu 1859 Poesia Saudade da infância e da terra
Úrsula Maria Firmina dos Reis 1859 Romance Romance abolicionista com vozes negras
Iracema José de Alencar 1865 Romance Lenda de fundação em prosa poética
Espumas Flutuantes Castro Alves 1870 Poesia Amor e poesia social em transição
Inocência Visconde de Taunay 1872 Romance Amor trágico no sertão
Senhora José de Alencar 1875 Romance Casamento como negócio
A Escrava Isaura Bernardo Guimarães 1875 Romance Escravidão e comoção popular
Os Escravos Castro Alves 1883 Poesia Poemas abolicionistas, publicados depois de sua morte

20. Linha do tempo

Ano Acontecimento
1808 Chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro; imprensa e instituições
1822 Independência do Brasil
1827 Criação dos cursos jurídicos de São Paulo e Olinda
1836 Suspiros Poéticos e Saudades e a revista Niterói, em Paris
1838 Fundação do IHGB; estreia de Antônio José e de O Juiz de Paz da Roça
1843 O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa
1844 A Moreninha, de Macedo
1846 Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias
1851 Últimos Cantos, com "I-Juca-Pirama"
1852–1853 Memórias de um Sargento de Milícias em folhetim
1853 Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo (póstuma)
1856 Polêmica de Alencar sobre A Confederação dos Tamoios
1857 O Guarani
1859 As Primaveras; Úrsula
1865 Iracema
1870 Espumas Flutuantes; estreia de Il Guarany, de Carlos Gomes
1871 Lei do Ventre Livre; morte de Castro Alves
1875 Senhora; A Escrava Isaura
1881 Memórias Póstumas de Brás Cubas; início do Realismo
1888 Lei Áurea

21. Perguntas frequentes

Quando começou e terminou o Romantismo no Brasil?

Pela convenção mais usada, começou em 1836, com Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, e terminou em 1881, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. As datas são marcos didáticos, não cortes absolutos.

Quais são as principais características do Romantismo brasileiro?

Nacionalismo, subjetivismo, idealização da mulher, do amor e do herói, valorização da natureza, sentimentalismo, escapismo (passado, sonho, morte) e liberdade formal. O Indianismo é a característica mais típica do movimento no Brasil.

Quais são as três gerações do Romantismo no Brasil?

A primeira (1836–1852) é nacionalista e indianista, com Gonçalves Dias e José de Alencar. A segunda (1853–1870) é ultrarromântica, ou do "mal do século", com Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. A terceira (1870–1881) é condoreira ou social, com Castro Alves.

Quem foram os principais autores do Romantismo brasileiro?

Gonçalves de Magalhães (marco inicial), Gonçalves Dias, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire e Castro Alves. Também merecem atenção Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis.

O que foi o Indianismo?

Foi a corrente do Romantismo que tomou o indígena como herói e símbolo da nacionalidade brasileira. Idealizava o índio como corajoso, nobre e ligado à terra, mas apagava a diversidade e a realidade histórica dos povos originários.

O que é o "mal do século"?

É um estado de espírito de tédio, melancolia, desencanto e fascínio pela morte que marcou os poetas da segunda geração romântica, influenciados por Byron e outros europeus. Na literatura, funcionava também como convenção estética.

O que é condoreirismo?

É a tendência da terceira geração romântica, de estilo grandioso e retórico, que usava a imagem do condor como símbolo de liberdade e de altura poética. Seu maior representante é Castro Alves.

Por que Castro Alves é chamado de "poeta dos escravos"?

Porque sua poesia abolicionista, em poemas como "O Navio Negreiro" e "Vozes d'África", denunciou a escravidão e o tráfico com uma força pública inédita na literatura brasileira. Mas ele também escreveu poemas de amor e de exaltação ao progresso.

Qual a diferença entre Romantismo e Arcadismo?

O Arcadismo (século XVIII) valorizava a razão, o equilíbrio e a imitação dos clássicos, com pastores e vida simples como cenário. O Romantismo valoriza a emoção, a subjetividade, a liberdade formal e o nacionalismo.

Qual a diferença entre Romantismo e Realismo?

O Romantismo idealiza, valoriza a emoção, a subjetividade e a nação. O Realismo observa a sociedade com ironia, análise psicológica e crítica, e trata de personagens contraditórios em vez de heróis perfeitos.

Conclusão

Leitora lendo livro com atenção

O Romantismo brasileiro foi uma literatura de invenção nacional. Transformou a Independência em símbolos, a natureza em paisagem literária, o indígena em herói fundador e, na reta final, a liberdade em denúncia da escravidão. Foi grandioso e limitado, generoso e excludente. Mudou de cara a cada geração: projeto de fundação com Gonçalves Dias e Alencar, projeto de interioridade com Álvares de Azevedo, projeto de crítica com Castro Alves.

Ler esses autores hoje exige dois movimentos ao mesmo tempo. Um é deixar-se levar pela força das imagens, do ritmo e das histórias, que ainda funcionam. O outro é perguntar o que está sendo mostrado e o que está sendo escondido. Quem faz as duas coisas entende por que esses livros continuam na escola, no teatro, na música e na conversa, quase 150 anos depois.

Para ir além

  • Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira.
  • Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira.
  • Antonio Candido, "Dialética da Malandragem", sobre Memórias de um Sargento de Milícias.
  • Verbetes sobre Romantismo na Enciclopédia Itaú Cultural.
  • As obras originais: Primeiros Cantos e Últimos Cantos (Gonçalves Dias), O Guarani, Iracema e Senhora (Alencar), Lira dos Vinte Anos (Álvares de Azevedo), As Primaveras (Casimiro de Abreu), Úrsula (Maria Firmina dos Reis) e Espumas Flutuantes (Castro Alves).
Tópicos e Palavras-chave:
#ROMANTISMO #ROMANTISMO NO BRASIL #LITERATURA BRASILEIRA #PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA #SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA #TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA #GONÇALVES DIAS #ÁLVARES DE AZEVEDO #CASTRO ALVES #JOSÉ DE ALENCAR #INDIANISMO #MAL DO SÉCULO #CONDOREIRISMO #ENEM #VESTIBULAR #EDUCACIONAL