Por que a mais recente tentativa de reformar a gramática portuguesa por decreto continua tropeçando — no Brasil e em todos os lugares onde já foi tentada.
Sumário
- Uma língua não se reforma por Instagram
- O que é, afinal, esse "pronome neutro"
- A origem: uma invenção de ativismo, não um fenômeno da língua
- As raízes: por que o neutro morreu — e por que não volta por decreto
- O caos prático: concordância, pronúncia e a Torre de Babel do "elu"
- A literatura em xeque: tradução, poesia e prosódia
- Do nicho ao palanque: o exagero da militância
- A inclusão que exclui: cegos, surdos e disléxicos
- O que o STF decidiu — e o que ele nunca decidiu
- O mundo já tentou: Suécia, França, Argentina e Espanha
- O outro lado da trincheira
- Por que a implementação continua sendo impossível
- Conclusão: entre o respeito e a clareza
- Perguntas frequentes
- Fontes e leitura complementar
I. Uma língua não se reforma por Instagram
Em algum momento da última década, um grupo relativamente pequeno de pessoas decidiu que o português tinha um defeito de fábrica — e que esse defeito podia ser corrigido com uma vogal nova. Trocar o "o" e o "a" por um "e" no fim das palavras, inventar um pronome que ninguém jamais falou em casa, com a avó, no trabalho ou na fila do banco, e chamar isso de evolução da língua.
Não é. E este texto vai explicar, com calma e com fontes, por que não é.
O termo "pseudointelectual" do título não é um adjetivo solto, escolhido para provocar por provocar. Ele descreve um padrão bem específico: o de tratar uma postura política — legítima, discutível, mas política — como se fosse um avanço técnico da linguística, um "próximo passo natural" do idioma, quando na verdade é uma proposta deliberada, de origem identificável, promovida por um grupo específico, em um momento histórico específico, sem qualquer precedente equivalente na história documentada da língua portuguesa. Chamar isso de evolução espontânea da língua é o tipo de argumento que soa erudito na superfície e desmorona no primeiro parágrafo de qualquer boa gramática histórica.
Este texto não nasceu de um impulso reacionário contra pessoas trans ou não binárias — e é importante deixar isso claro logo de início, porque a discussão sobre linguagem neutra tem o hábito de deslizar rapidamente para acusações mútuas. A crítica aqui não é às pessoas que se sentem mal representadas pelo binarismo de gênero, nem ao desejo legítimo de serem tratadas com respeito. A crítica é a uma estratégia linguística específica — a de tentar reformar a morfologia de uma língua de 260 milhões de falantes por meio do ativismo de nicho — e à retórica que a apresenta como fato consumado, como se discordar dela fosse, em si, um ato de intolerância.
Vamos percorrer a origem teórica dessa proposta, as incompatibilidades que ela carrega desde a raiz latina da língua, o exagero retórico de uma militância que tenta empurrar como consenso aquilo que nunca foi sequer debatido pela maioria da população, e, por fim, os motivos estruturais — não apenas políticos, mas linguísticos, cognitivos e legais — que tornam a implementação dessa linguagem, em escala nacional, uma tarefa praticamente impossível. No caminho, vamos ver o que decisões judiciais recentes realmente disseram (e o que a imprensa, de ambos os lados, exagerou), o que aconteceu em países que já tentaram algo parecido, o que essa reforma faria com séculos de poesia e prosa escritos em português, e o que os próprios linguistas favoráveis à causa reconhecem sobre as dificuldades da proposta.
Um aviso sobre o método antes de começar: cada afirmação factual deste texto — leis, decisões judiciais, declarações atribuídas a pessoas específicas, dados internacionais — foi conferida em fontes jornalísticas, acadêmicas ou oficiais publicamente disponíveis, e está referenciada ao final. Não é um texto de opinião solto no vazio; é opinião construída sobre uma base de fatos que qualquer leitor pode conferir por conta própria. Essa é, aliás, uma escolha deliberada: um dos problemas que este próprio ensaio denuncia é o de posições políticas travestidas de consenso técnico, e a melhor forma de não cometer o mesmo pecado é mostrar o trabalho.
II. O que é, afinal, esse "pronome neutro"
Antes de criticar algo, vale defini-lo com precisão — é a primeira regra de qualquer debate sério, e é exatamente a regra que boa parte do debate público brasileiro sobre este tema ignora.
Chama-se "linguagem neutra", "linguagem não binária" ou "linguagem inclusiva" ao conjunto de propostas que buscam retirar a marcação de gênero masculino/feminino de pronomes, artigos, substantivos e adjetivos do português. A ideia é permitir que pessoas que não se identificam nem como homens nem como mulheres — ou que preferem não declarar um gênero — tenham uma forma de se referir a si mesmas e de serem referidas por terceiros sem cair no "ele" ou na "ela".
Vale, aliás, uma distinção que o debate público costuma borrar, mas que é tecnicamente relevante: "linguagem neutra" e "linguagem inclusiva" não são sinônimos perfeitos, embora apareçam misturados na cobertura jornalística e nas redes sociais. A linguagem inclusiva, em sentido estrito, é mais antiga e mais modesta — trata-se de duplicar formas para nomear explicitamente os dois gêneros já existentes na língua ("todos e todas", "os alunos e as alunas"), sem inventar categoria gramatical nova. É essa a prática que a França chama de écriture inclusive e que a Real Academia Espanhola analisou em seu relatório de 2020. Já a linguagem neutra, no sentido mais estrito e mais radical que este ensaio examina, vai além: propõe uma terceira categoria gramatical, funcional, para além do masculino e do feminino. Os dois fenômenos compartilham motivação política semelhante e são frequentemente tratados como a mesma coisa nos debates legislativos e na imprensa — inclusive na própria Lei 15.263/2025, que veda ambas as práticas sob o mesmo guarda-chuva —, mas vale a pena o leitor atento saber que, tecnicamente, são propostas de naturezas diferentes, com graus de ruptura gramatical bem distintos.
Na prática, isso apareceu em pelo menos quatro famílias de solução, nenhuma delas unificada:
- Pronomes pessoais inventados: "elu/delu", inspirado na terminação neutra latina illud, e "ile/dile", criado para se afastar ainda mais das formas binárias "ele" e "ela". Frase-tipo: "Elu chegou cedo hoje."
- Terminação em "-e": substitui o "-o" e o "-a" finais — "todos/todas" vira "todes", "amigo/amiga" vira "amigue", "querido/querida" vira "queride".
- Símbolos gráficos: "x" ou "@" no lugar da vogal de gênero — "todxs", "tod@s", "amig@s". Funcionam apenas na escrita; não têm pronúncia definida.
- Sistemas mais radicais e pouco usados: artigos neutros como "ê" ou "le" no lugar de "o/a", e variações como "elx", "éle" ou "ilu", cada uma proposta por um coletivo ou manual diferente, sem qualquer convergência entre si.
Essa fragmentação em si já é reveladora — e vamos voltar a ela mais adiante —, mas o ponto imediato é outro: o Brasil sancionou, em novembro de 2025, uma lei federal que proíbe expressamente o uso de qualquer uma dessas formas na comunicação da administração pública. É desse pano de fundo jurídico e social, real e datado, que este ensaio parte — não de uma hipótese abstrata sobre "o futuro da língua", mas de um debate que já tramitou no Congresso, já chegou ao Supremo Tribunal Federal e já rendeu leis em pelo menos quatro países diferentes.
Para quem lê e escreve literatura, esse debate não é uma curiosidade distante de linguista. A língua portuguesa que sustenta Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e qualquer romance publicado amanhã é o mesmo sistema de concordância de gênero que está sendo discutido aqui. Alterar esse sistema — ou mesmo debater se ele deve ser alterado — tem consequências diretas sobre como se traduz, se versifica e se lê um texto literário, como veremos com mais detalhe mais adiante neste ensaio.
III. A origem: uma invenção de ativismo, não um fenômeno da língua
Todo idioma vivo muda. Isso é fato, não é polêmica, e qualquer pessoa que já leu um texto em português do século XVI sabe que "vossa mercê" virou "você", que "cousa" virou "coisa", que gírias nascem e morrem em décadas. O argumento mais repetido pelos defensores da linguagem neutra é justamente esse: a língua é viva, logo ela deve absorver o neutro como absorveu tantas outras coisas.
O problema é que essa comparação erra o tipo de fenômeno em jogo. Mudanças linguísticas genuínas — a queda do "vós", a incorporação de estrangeirismos, o surgimento de gírias — nascem de baixo para cima, de forma difusa, sem autoria identificável, ao longo de gerações, entre milhões de falantes que nunca combinaram nada entre si. Ninguém decretou "você"; ele simplesmente venceu "vossa mercê" no uso cotidiano ao longo de séculos.
O pronome neutro é outra espécie de evento. Ele tem data de nascimento (a década de 2010), tem origem identificável (coletivos ativistas ligados a pautas de identidade de gênero, com inspiração em debates equivalentes em outras línguas) e tem autoria: manifestos, guias e "manuais de linguagem inclusiva" que propõem, de forma deliberada e escrita, um sistema gramatical novo. Um exemplo emblemático é o chamado Manifesto ILE, no qual os proponentes explicam publicamente por que escolheram justamente essa combinação de letras — o "i" inicial para sugerir neutralidade, o "e" final ecoando o latim illud — como se estivessem registrando uma marca, não observando um fenômeno.
Isso não é, em si, uma acusação moral. Toda proposta política tem autoria e intenção — é assim que funcionam movimentos sociais, e não há nada de secreto ou vergonhoso nisso. O problema é de outra ordem: é de honestidade descritiva. Chamar uma proposta deliberada, de origem ativista e datável, de "evolução natural da língua" é embaralhar duas categorias diferentes para emprestar à primeira a legitimidade histórica da segunda. É como chamar um projeto de lei de "tendência espontânea do mercado". Pode até ser uma boa lei. Mas não é espontânea.
Compare com um exemplo de mudança genuína, dentro da própria história do português: a transformação da forma de tratamento "vossa mercê" em "você". O processo levou séculos. Começou como tratamento respeitoso e formal, dirigido a nobres; foi sendo erodido foneticamente pelo uso cotidiano — "vossa mercê" virou "vosmecê", depois "vosmicê", depois "ocê", até estabilizar em "você" — e só depois, depois de gerações de desgaste fonético espontâneo, sem nenhum manifesto, sem nenhum coletivo fundador, sem data de lançamento, a forma nova se popularizou a ponto de virar pronome de tratamento comum, e mais tarde, em grande parte do Brasil, virar até pronome pessoal substituindo "tu". Ninguém sabe precisar o dia em que "você" "nasceu" — porque não houve um dia. Já sabemos, com precisão de mês e ano, quando surgiu o Manifesto ILE, quando a UFSM usou "amigue" pela primeira vez em uma publicação institucional, quando a Lei 15.263 foi sancionada. Essa diferença — ter ou não ter uma origem datável e autoral — não é um detalhe pedante. É, segundo a própria linguística histórica, o critério mais confiável para distinguir uma mudança de língua genuína de uma proposta de reforma consciente.
Vale, aliás, registrar que nem toda tentativa consciente de mexer no vocabulário fracassa — gírias inventadas por publicitários às vezes pegam, neologismos técnicos se consolidam quando preenchem uma lacuna real ("selfie", "print", "deletar"). O que distingue essas mudanças bem-sucedidas do caso do pronome neutro é justamente o nível da língua que elas afetam: vocabulário novo entra e sai com relativa facilidade porque não exige que o resto do sistema gramatical se reorganize ao redor dele. Uma palavra nova encaixa no sistema existente de concordância sem forçá-lo a mudar. Já uma nova categoria de gênero gramatical não entra sozinha — ela arrasta consigo artigos, adjetivos, pronomes, numerais e particípios, forçando uma reorganização de todo o sistema de concordância ao mesmo tempo. É a diferença entre trocar uma peça de mobília e mexer na fiação elétrica embutida na parede.
A própria multiplicidade de sistemas concorrentes — "elu" versus "ile" versus "elx" versus "éle", cada um defendido por um coletivo diferente, sem consenso nem sequer entre os próprios proponentes — é o retrato mais claro dessa artificialidade. Fenômenos linguísticos espontâneos convergem: era raro, no português antigo, encontrar cinco formas concorrentes para dizer a mesma coisa sobrevivendo por décadas sem que uma vencesse as demais. Já as propostas de pronome neutro seguem fragmentadas depois de mais de dez anos de existência — sinal de que nenhuma delas está, de fato, sendo adotada organicamente por uma comunidade de falantes ampla o suficiente para produzir convergência.
"Nada que advém de uma imposição é funcional."
Vale registrar, porque é um dado curioso e pouco divulgado: Modesto é um dos poucos linguistas acadêmicos que se manifestou favoravelmente à ideia de introduzir a neutralidade gradualmente, a partir do ambiente escolar — ele concordou publicamente com a decisão do STF que derrubou a proibição estadual da linguagem neutra nas escolas. Mesmo assim, é ele quem resume, com mais precisão do que qualquer crítico conservador, o problema central da tese "é só evolução da língua": gramática não muda por decreto, nem de quem proíbe, nem de quem promove. Ela muda quando a maioria dos falantes, silenciosamente, ao longo de gerações, passa a falar diferente. E isso — voltaremos a esse ponto — é precisamente o que não está acontecendo com o pronome neutro, nem no Brasil, nem em nenhum outro país de língua portuguesa.
IV. As raízes: por que o neutro morreu — e por que não volta por decreto
Para entender por que o "pronome neutro" tropeça tanto na prática, ajuda saber uma coisa que poucos participantes desse debate parecem saber: o português já teve um gênero neutro. E ele morreu — não por preconceito, não por machismo estrutural, mas por um processo fonético e cognitivo perfeitamente documentado pela linguística histórica.
O latim clássico tinha três gêneros gramaticais: masculino, feminino e neutro. O neutro (neuter, literalmente "nem um nem outro") não designava identidade de pessoas — designava objetos inanimados, seguindo uma lógica que a linguística chama de "traço animista": de um lado, os seres animados, divididos em masculino e feminino; do outro, os inanimados, no neutro. Não havia uma terceira categoria de gente; havia uma categoria de coisas.
No latim vulgar — o latim falado nas ruas, não o das inscrições oficiais —, esse neutro começou a se confundir foneticamente com o masculino. As terminações foram se aproximando no ouvido dos falantes até que, quando as línguas neolatinas (português, espanhol, italiano, francês, romeno) se cristalizaram, o neutro simplesmente não sobreviveu como categoria de substantivos e pronomes pessoais. Restaram apenas fósseis: em português, palavras como "isto", "isso", "aquilo" e "tudo" são resquícios desse neutro latino — mas note que nenhuma delas se refere a pessoas.
Esse é o ponto central, e é aqui que a comparação com o "pronome neutro" contemporâneo se desfaz: o neutro que existiu na língua nunca serviu para designar gente. Reintroduzi-lo hoje, com a função de designar pessoas não binárias, não é "resgatar" algo que a língua perdeu — é atribuir a uma categoria morta uma função que ela jamais teve. É menos uma restauração e mais uma reforma com aparência de restauração.
Vale um parênteses técnico, porque ajuda a entender a escala do problema: em latim, um substantivo neutro não tinha apenas uma terminação diferente — tinha uma declinação inteira própria, com seis casos gramaticais (nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo), cada um com sua própria desinência, e concordância obrigatória do adjetivo e do artigo em todos esses casos. Templum (templo) é neutro; dominus (senhor) é masculino; puella (menina) é feminino — e cada um seguia seu próprio paradigma de flexão, não apenas uma vogal final diferente. O sistema neutro não era "masculino com um 'e' no fim". Era uma arquitetura gramatical paralela e completa. Quando esse sistema desapareceu na transição para o latim vulgar, ele não deixou uma "lacuna fácil de preencher" — deixou um vazio estrutural que o português preencheu redistribuindo o antigo léxico neutro entre o masculino e o feminino, quase sempre por semelhança fonética das terminações, não por qualquer lógica de identidade ou representação. É esse processo de mil e quinhentos anos, atravessando dezenas de gerações sem nenhuma intervenção deliberada, que a proposta contemporânea de pronome neutro tenta comprimir em uma década de campanha nas redes sociais.
Uma metáfora que ajuda
O filólogo Evanildo Bechara costuma comparar a gramática de uma língua a um edifício: dá para repintar a fachada, trocar o mobiliário, renovar a decoração — isso é o vocabulário, sempre em movimento. O que não dá é reformar a estrutura de sustentação do prédio, a parte que segura tudo o mais em pé, sem correr o risco de o edifício inteiro ruir. Pronomes, concordância de gênero e artigos são estrutura. Gírias e neologismos são decoração.
Essa distinção entre vocabulário e estrutura é exatamente o que o professor Antônio Vicente Seraphim, do Departamento de Linguística da FFLCH-USP, descreveu em entrevista ao Jornal da USP ao analisar a proposta do pronome neutro. Segundo ele, a língua funciona como uma rede: cada elemento gramatical está amarrado a outro, e a mente do falante processa esse conjunto como um sistema único, não como peças soltas que se podem substituir isoladamente.
"A língua expressa um comportamento um tanto quanto específico, na qual o seu todo define esse comportamento. E, quando o assunto é pronome neutro, já foi predeterminado que apenas um pedaço dela será alterado, o que é problemático, uma vez que a língua é inteiramente interligada."
Vicente propõe um exercício simples para qualquer pessoa que duvide disso: pegar um parágrafo qualquer, em português comum, e tentar reescrevê-lo inteiramente em linguagem neutra, sem deixar nenhuma palavra escapar à regra. O resultado, segundo ele, esbarra em "incontáveis empecilhos, dificuldades e resistências" — e é por isso que, na prática, quase ninguém consegue ir além de meia dúzia de palavras isoladas ("elu", "delu", "namorade") em vez de produzir um texto neutro coerente do início ao fim.
Um detalhe que costuma surpreender quem ouve pela primeira vez, e que vale explicar porque aparece com frequência nos debates sobre "machismo estrutural da língua": por que o masculino, e não o feminino, herdou a função de gênero genérico e absorveu boa parte do antigo neutro? A resposta da linguística histórica não tem nada de ideológico — é fonética pura. Em latim, as terminações do neutro no plural (-a) e do neutro no singular (variável, mas frequentemente próxima das terminações masculinas em muitas declinações) confundiam-se, no ouvido dos falantes do latim vulgar, mais facilmente com as formas masculinas do que com as femininas, cuja terminação mais estável e reconhecível era o -a do singular — que, coincidentemente, também é terminação do neutro plural, gerando uma sobreposição inversa e curiosa que os próprios linguistas históricos ainda debatem em detalhe. O processo de absorção não seguiu uma lógica de "prestígio social do masculino sobre o feminino" imposta deliberadamente por uma sociedade patriarcal específica daquele momento — seguiu, majoritariamente, uma lógica de proximidade sonora entre terminações, num processo que se estendeu por séculos, antes mesmo de o português existir como língua separada do galego medieval. Isso não significa que a língua portuguesa, tal como é usada hoje, esteja imune a vieses de gênero em seu uso social e cultural — está, como qualquer prática humana. Significa apenas que a estrutura gramatical em si, na sua origem histórica específica, não nasceu de uma escolha consciente para subordinar um gênero ao outro; nasceu de erosão fonética. Confundir as duas coisas — estrutura histórica e uso social contemporâneo — é outro dos deslizes conceituais recorrentes neste debate.
O problema não é só o pronome — é o artigo
Aqui está o detalhe técnico que a maioria dos debates de rede social ignora, e que qualquer estudante do primeiro ano de Letras aprende rápido: o português marca gênero em pelo menos quatro lugares diferentes dentro da mesma frase — no artigo, no substantivo, no adjetivo e no pronome. Não adianta neutralizar só a terminação do substantivo se o artigo continua denunciando o gênero.
Veja: "amigue" pode até soar neutro isoladamente. Mas ninguém fala "amigue" sozinho — fala-se "o amigue", "a amigue", "um amigue", "meus amigues". E "o", "a", "um" e "meus" carregam, eles mesmos, a marca binária que a nova terminação tentou apagar. Para neutralizar de verdade seria preciso inventar também um artigo neutro — e é exatamente por isso que alguns manuais mais radicais propõem formas como "ê" ou "le" no lugar de "o/a". Mas aí o problema se multiplica: agora é preciso reformar não uma peça da língua, mas o sistema inteiro de concordância, de uma vez, em todos os falantes, simultaneamente — algo que nenhuma língua natural jamais conseguiu fazer por decisão consciente de um grupo de falantes, por mais bem-intencionado que fosse.
Some a isso um problema paralelo: o próprio Acordo Ortográfico de 1990 — que já foi, ele mesmo, um processo lento, negociado ao longo de décadas entre os países lusófonos, e ainda assim gerou resistência e confusão por anos — existe justamente para manter um mínimo de unidade escrita entre os nove países de língua oficial portuguesa. Como resume o professor Marcelo Modesto, todo idioma consolidado tem uma "língua legal" (a norma reconhecida institucionalmente, combinada entre a Academia Brasileira de Letras, a Academia das Ciências de Lisboa e instituições equivalentes) e uma "língua real" (o que as pessoas de fato falam). Para que o pronome neutro migrasse da segunda para a primeira, seria necessário um acordo formal entre Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné Equatorial — nove países, com realidades políticas, sociais e linguísticas completamente diferentes entre si. A probabilidade de um consenso desses, segundo o próprio Modesto, é "quase nula".
V. O caos prático: concordância, pronúncia e a Torre de Babel do "elu"
Saia da teoria por um momento e tente, na prática, escrever uma frase minimamente complexa em linguagem neutra. Não uma palavra isolada em uma legenda de rede social — uma frase de verdade, com sujeito, verbo, complemento e um adjetivo no fim.
"Elu chegou cansade e disse que estava preocupade com elu mesme." Funciona? Mais ou menos — mas repare que já tivemos que inventar três terminações diferentes ("chegou", que nem precisou mudar, "cansade" e "preocupade") só para manter a frase minimamente coerente, e ainda assim ela soa estranha a qualquer ouvido treinado em português, seja ele favorável ou contrário à proposta. Agora tente o plural: "elus estavam cansades" ou "elus estabam cansades"? Não há consenso sobre a forma correta — porque, ao contrário do sistema binário, que foi decantado por séculos de uso, o sistema neutro está sendo inventado em tempo real, por pessoas diferentes, em fóruns diferentes, sem qualquer instância normativa (nem mesmo informal) que resolva as divergências.
É esse tipo de instabilidade que faz a professora e escritora Cíntia Chagas, formada em Língua Portuguesa pela UFMG, afirmar, em entrevistas concedidas tanto à Jovem Pan quanto à Gazeta do Povo, que é praticamente impossível escrever um parágrafo inteiro que seja ao mesmo tempo neutro e plenamente compreensível. Não é hipérbole retórica — é uma constatação técnica sobre um sistema que nunca foi de fato testado, revisado e estabilizado por uma comunidade linguística.
Os símbolos que ninguém consegue falar
Se a terminação em "-e" já é problemática, os símbolos gráficos são um capítulo à parte. "Todxs", "tod@s", "amig@s" — nenhuma dessas formas tem uma pronúncia estabelecida. Como se lê "@" em voz alta no meio de uma palavra? Como se lê "x"? Tente ler em voz alta, para um estranho, a frase "bem-vindxs à nossa loja" sem parar, gaguejar ou simplesmente pular o símbolo. A maioria das pessoas — a favor ou contra a causa — vai pular.
Isso não é um detalhe estético. É um problema estrutural: uma língua serve, antes de tudo, para ser falada e compreendida em tempo real, por pessoas que nunca se viram antes, em situações que vão do consultório médico ao tribunal. Um sistema de escrita que não corresponde a nenhuma forma oral estável não é, tecnicamente, um sistema linguístico completo — é uma convenção gráfica de nicho, útil talvez dentro de um grupo pequeno e combinado, mas inadequada para servir de norma geral de comunicação pública.
Por que o inglês consegue e o português não
Um argumento comum, e à primeira vista razoável, é apontar para línguas como o inglês, o turco, o finlandês ou o húngaro, que usam formas neutras de gênero (o "they" singular inglês, por exemplo) sem qualquer colapso estrutural. Por que o português não poderia fazer o mesmo?
A resposta está na tipologia linguística — a forma como diferentes línguas organizam sua gramática. O turco, o finlandês e o húngaro pertencem a famílias linguísticas que nunca tiveram, em nenhum momento de sua história documentada, um sistema de gênero gramatical obrigatório e disseminado por artigos, adjetivos e particípios como o português tem. Essas línguas não "removeram" o gênero gramatical — nunca o tiveram para começo de conversa. É uma questão de arquitetura de partida, não de vontade coletiva.
Já o inglês é um caso intermediário interessante, e vale detalhar porque é o exemplo mais citado: o inglês teve, historicamente, um sistema de gênero gramatical parecido com o do alemão atual — mas o perdeu quase por completo ao longo da Idade Média, muito antes de qualquer debate sobre identidade de gênero, por razões de simplificação morfológica geral da língua após sucessivas invasões e misturas linguísticas (viking, normanda). Hoje, o inglês moderno não flexiona adjetivos por gênero ("tired" serve para qualquer pessoa) e não tem artigo definido variável ("the" serve para tudo). Isso significa que, quando o inglês passou a usar "they" no singular para pessoas de gênero não especificado — um uso que, aliás, é multissecular na língua, encontrado em textos que remontam a Chaucer e Shakespeare, muito antes de qualquer debate contemporâneo sobre não-binariedade —, ele estava reaproveitando um recurso gramatical que já existia havia séculos para outra função (o "they" plural), sem precisar inventar nenhuma terminação nova nem alterar a concordância de artigos e adjetivos, porque esses já não flexionam por gênero em inglês.
O português não tem esse atalho disponível. Não existe, na língua, nenhum pronome de uso multissecular que já sirva, ainda que de forma indireta, para gênero neutro de pessoas — como "isto/isso/aquilo" fazem apenas para objetos. Qualquer solução em português precisa, necessariamente, ser inventada do zero, e precisa arrastar consigo a concordância obrigatória de artigos e adjetivos que o inglês simplesmente não tem que resolver. Comparar os dois casos como se fossem o mesmo tipo de mudança é comparar a reforma de um cômodo com a reforma da fundação inteira de uma casa — ambas são "reformas", mas em escalas de dificuldade completamente diferentes.
Quatro sistemas, zero consenso
Levantamentos sobre o tema mostram pelo menos quatro famílias de neopronomes propostas nos últimos quinze anos — "elu/delu", derivado do latim illud; "ile/dile", criado para se distanciar ainda mais do binário; "elx/elxs", com "x" mudo; e "éle/éles", com acento gráfico marcando a neutralidade. Nenhuma delas se consolidou como referência única, nem mesmo dentro dos próprios coletivos ativistas que promovem a causa. Se um fenômeno linguístico legítimo costuma convergir ao longo do tempo, a persistência dessa fragmentação por mais de uma década é, ela mesma, um indício de que não estamos observando uma mudança orgânica em curso, mas uma disputa de propostas concorrentes que ainda não venceu — nem tem, no horizonte visível, condições estruturais para vencer — a prova do uso cotidiano.
Há ainda um terceiro problema, mais sutil: a semântica. O professor Vicente chama atenção para o fato de que uma palavra não ganha sentido isoladamente — ela ganha sentido no discurso em que está inserida. Isso significa que é perfeitamente possível construir uma frase "morfologicamente correta" segundo as regras do neutro e, ainda assim, produzir um enunciado confuso, ambíguo ou de leitura truncada — porque a forma nova não carrega, ainda, o peso semântico compartilhado que décadas de uso deram a "ele" e "ela". Comunicação não é apenas gramática certa; é gramática compartilhada. E é exatamente o "compartilhada" que falta aqui.
VI. A literatura em xeque: tradução, poesia e prosódia
Há uma dimensão deste debate que raramente aparece nas discussões de rede social, mas que interessa diretamente a quem lê, escreve ou traduz literatura — e é por isso que ela merece uma seção própria neste ensaio. O português não é apenas uma ferramenta de comunicação administrativa. É a língua em que foram escritos Grande Sertão: Veredas, os sonetos de Camões, a poesia concreta de Haroldo de Campos, as crônicas de Rubem Braga. Qualquer proposta de reforma estrutural da gramática tem implicações diretas sobre esse patrimônio — tanto sobre como ele é lido quanto sobre como ele continuará sendo escrito.
O metro e a rima dependem do gênero gramatical
Comece pela poesia de forma fixa, que é onde o problema aparece com mais nitidez. Um soneto camoniano, uma redondilha, uma quadra popular — toda a tradição da métrica em língua portuguesa foi construída sobre a contagem de sílabas poéticas e sobre padrões de rima que dependem, em grande medida, das terminações vocálicas regulares do masculino e do feminino. "Amado" rima com "cansado"; "amada" rima com "cansada". Trocar essas terminações por "-e" não é neutro do ponto de vista sonoro — é a introdução de uma vogal nova, com timbre e peso silábico diferentes, em um sistema de escansão que foi calibrado, ao longo de séculos, para outras duas vogais. Um poema clássico "traduzido" para a linguagem neutra não soa neutro: soa quebrado, porque o ouvido treinado em português reconhece imediatamente que a musicalidade original foi violada.
Isso não é um argumento contra a poesia nova, escrita originalmente em linguagem neutra por quem assim preferir — poetas sempre tiveram liberdade para inventar sua própria prosódia, e ninguém aqui está reivindicando o contrário. O argumento é mais estreito e mais sério: qualquer tentativa de aplicar a linguagem neutra retroativamente, como norma geral, a um corpus literário de séculos, produz um desalinhamento sonoro que nenhuma outra mudança linguística recente — nem mesmo as reformas ortográficas de 1943 ou de 1990, que mexeram em acentuação e hifenização, não em terminações de gênero — chegou a provocar.
O problema, ainda maior, da tradução
Tradutores literários enfrentam, há décadas, um desafio conhecido: verter para o português textos escritos em línguas que não marcam gênero gramatical do mesmo jeito — o inglês, por exemplo, não flexiona adjetivos por gênero ("tired" serve para "cansado" e "cansada"), e línguas como o turco, o finlandês ou o húngaro nem sequer têm pronomes de terceira pessoa marcados por gênero. Isso já obriga tradutores a tomar decisões interpretativas constantes: quando um personagem em inglês é descrito apenas como "the doctor", o tradutor precisa decidir, a partir do contexto, se vai ser "o médico" ou "a médica" — uma escolha que às vezes é óbvia e às vezes é genuinamente difícil, sobretudo em textos que exploram deliberadamente a ambiguidade de gênero do original, como parte da literatura anglófona contemporânea com personagens não binários passou a fazer.
A linguagem neutra, em tese, ofereceria uma saída elegante para esse problema — traduzir a ambiguidade do original com uma ambiguidade equivalente no português. E é exatamente aqui que a fragmentação de sistemas concorrentes, discutida na seção anterior, se torna um problema editorial concreto, não apenas teórico: qual sistema um tradutor deveria escolher? "Elu"? "Ile"? A terminação em "-e"? Editoras diferentes, tradutores diferentes e revisores diferentes já adotaram soluções diferentes para o mesmo tipo de personagem em obras diferentes, o que significa que o leitor brasileiro de literatura traduzida se depara, de livro para livro, com convenções distintas e mutuamente incompatíveis — o oposto exato do que uma norma linguística deveria oferecer, que é previsibilidade compartilhada entre quem escreve e quem lê.
Dublagem, audiolivros e o problema da fala
Some a isso um problema que a literatura em papel não tem, mas que a literatura falada — audiolivros, podcasts literários, dublagem de adaptações — enfrenta em cheio: os símbolos gráficos ("x", "@") simplesmente não sobrevivem à passagem para o áudio, como já vimos na seção sobre acessibilidade. Um audiolivro narrado em linguagem neutra precisa, na prática, escolher entre a terminação em "-e" (a única das quatro famílias de solução que tem alguma pronúncia estável) ou inventar, no ato da narração, uma solução própria — o que, de novo, produz inconsistência entre uma gravação e outra, entre um narrador e outro, minando exatamente a função que um sistema fonético estável deveria cumprir: permitir que qualquer ouvinte, em qualquer lugar, reconheça e processe o som sem esforço extra.
Nenhum desses problemas é insolúvel para um texto individual — um poeta pode inventar sua própria prosódia, um tradutor pode fazer sua escolha e justificá-la em nota, um estúdio de dublagem pode criar seu próprio manual de estilo. O problema aparece exatamente quando alguém tenta transformar essas soluções pontuais, artesanais, em norma geral — porque aí, e só aí, a ausência de consenso sobre qual sistema usar deixa de ser uma escolha estética legítima e passa a ser um obstáculo real à comunicação entre autor, tradutor, editora e leitor.
Vale, por fim, um registro sem ironia: existe hoje uma literatura de nicho, autoral, consciente e deliberadamente escrita em linguagem neutra — contos, poemas e até romances de autores e autoras que fazem dessa escolha um gesto estético e político legítimo, parte de uma tradição mais ampla de literatura experimental que sempre torceu a norma padrão em nome de um efeito expressivo específico (a prosa fragmentada de Guimarães Rosa também "quebrava" a norma culta de sua época, à sua maneira). Esse tipo de produção literária não é o alvo da crítica deste ensaio, e continuará existindo, com todo o direito, independentemente de qualquer lei sobre comunicação da administração pública. A distinção que importa, mais uma vez, é entre experimentação autoral — sempre bem-vinda em literatura — e norma geral obrigatória, que é outra categoria de proposta inteiramente diferente.
VII. Do nicho ao palanque: o exagero da militância
Um dos aspectos mais curiosos deste debate é a desproporção entre o tamanho real do fenômeno e o espaço que ele ocupa no debate público. Segundo um levantamento inédito na América Latina, conduzido pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp e publicado na revista científica Nature Scientific Reports em 2021, cerca de 2% da população brasileira adulta se identifica como transgênero ou não binária — o equivalente a aproximadamente 3 milhões de pessoas. É um número que merece ser levado a sério, e que de fato justifica políticas públicas específicas, sobretudo na área da saúde, como apontou a pesquisa. Não é, de forma alguma, um contingente irrelevante.
Mas esse dado também revela uma desproporção que vale nomear: mesmo dentro desses 2%, não existe nenhuma evidência de que a maioria adote, no dia a dia, o pronome neutro como forma preferencial de tratamento — muitas pessoas trans, por exemplo, se identificam plenamente com o masculino ou o feminino, e usam pronomes binários sem qualquer conflito. A linguagem neutra é, na melhor das hipóteses, a preferência de uma fração de uma fração da população — concentrada, além disso, em ambientes universitários, redes sociais e determinados nichos culturais e editoriais. E, ainda assim, ela é apresentada, com frequência, como se fosse uma demanda social ampla, prestes a se tornar consenso.
É esse descompasso que a professora Cíntia Chagas descreveu, em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, como uma "invasão" promovida por aquilo que ela chamou de "elite pseudo-progressista" dentro de escolas e universidades — um grupo relativamente pequeno, mas com acesso desproporcional a púlpitos institucionais (reitorias, ONGs, setores de comunicação corporativa, programação cultural), capaz de fazer uma proposta de nicho parecer mais consolidada do que de fato é.
"Não podemos aceitar a histeria coletiva. A língua portuguesa está sendo muito atacada. Primeiro as pessoas querem dominar o que falamos, para depois dominar como pensamos e, finalmente, o modo que agimos."
Vale abrir um parêntese de justiça, porque é fácil transformar esse tipo de debate numa caricatura: a própria Chagas, na mesma entrevista, faz questão de dizer que não é contra pessoas não binárias nem contra o direito de cada um viver como quiser — sua objeção é especificamente à ideia de que a vontade de um grupo pequeno deva reescrever, por decreto informal, um patrimônio linguístico compartilhado por centenas de milhões de pessoas. É uma distinção que se perde com frequência nas redes sociais, onde qualquer crítica à linguagem neutra é automaticamente lida como hostilidade às pessoas que ela pretende representar. As duas coisas não são a mesma coisa, e tratar como sinônimas "discordar do pronome" e "não respeitar a pessoa" é, ironicamente, um dos maiores obstáculos para que este debate avance com um mínimo de honestidade.
Quando a instituição que devia preservar a língua tenta reformá-la
Um episódio sintetiza bem esse choque entre nicho institucional e uso popular: quando a USP passou a receber alunos, professores e visitantes com placas de "bem-vindas, bem-vindos e bem-vindes ao nosso campus", a reação de parte do público — incluindo ex-alunos, professores aposentados e simples curiosos — não foi de adesão, mas de estranhamento e, em muitos casos, de irritação pública, amplamente registrada em comentários e reportagens da imprensa. O ponto não é que a USP não tenha o direito de adotar a linguagem que quiser em sua comunicação interna — tem, evidentemente, dentro de sua autonomia institucional. O ponto é que episódios como esse frequentemente são anunciados como se representassem "a sociedade brasileira evoluindo", quando na verdade representam a decisão pontual de um departamento de comunicação, tomada sem qualquer consulta à comunidade que ela pretende representar.
O padrão se repete: instituições com forte presença de setores acadêmicos e ativistas — universidades públicas, alguns órgãos culturais, parte do jornalismo corporativo — adotam a linguagem neutra em comunicados oficiais, discursos de posse, campanhas de marketing, e essa adoção é então apresentada, pela cobertura simpática à causa, como sinal de uma mudança social mais ampla do que ela de fato é. Quando uma apresentadora de televisão de grande audiência usa "todes" em uma publicação nas redes sociais, o episódio vira notícia nacional — não porque represente um consenso, mas exatamente porque é uma exceção notável, capaz de gerar reação (a favor e contra) desproporcional ao tamanho real do fenômeno.
Esse padrão — pauta de nicho ganhando peso midiático e institucional desproporcional ao seu enraizamento popular — não é exclusividade brasileira, como veremos adiante ao falar da experiência sueca, francesa e alemã. Mas ele ajuda a explicar por que o tema gera tanta fadiga e tanta reação mesmo entre pessoas que não têm nenhuma hostilidade específica contra a comunidade LGBTQIA+: a sensação, generalizada mesmo em setores politicamente moderados, é a de que uma mudança de grande escala — a gramática de uma língua nacional — está sendo proposta como fato consumado por uma fração pequena da população, sem que a maioria tenha sido, em nenhum momento, genuinamente consultada.
O reflexo legislativo dessa desproporção
Se houvesse dúvida sobre o tamanho da resistência popular a essa "imposição por cima", os números do próprio Congresso e das assembleias estaduais ajudam a dimensionar. Um levantamento da Universidade Federal de São Carlos contabilizou 45 projetos de lei, em tramitação ou já aprovados em assembleias legislativas estaduais brasileiras, propondo banir o uso da linguagem inclusiva nas escolas apenas entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2022 — um intervalo de pouco mais de dois anos. Isso significa, em média, quase dois projetos de lei por mês, espalhados por câmaras municipais e assembleias de estados com perfis políticos muito diferentes entre si, de Norte a Sul do país. Não é o comportamento típico de uma sociedade que está, majoritariamente, adotando com entusiasmo uma nova prática linguística. É o comportamento de uma sociedade reagindo, em escala e de forma persistente, a algo que sente como imposto de fora — mesmo quando a reação legislativa, como vimos, acaba esbarrando em problemas de competência constitucional.
O deputado estadual Eyder Brasil, autor da lei de Rondônia derrubada pelo STF em 2023, resumiu o espírito dessas mais de quatro dezenas de proposições ao afirmar, em discurso, que a proibição buscava evitar "qualquer interferência ou manifestação ideológica no uso da língua padrão" — uma frase que, ecoada por dezenas de parlamentares em dezenas de projetos semelhantes, revela o quanto a percepção de "imposição ideológica" está distribuída entre representantes eleitos de perfis regionais muito distintos, não concentrada em um único núcleo político.
VIII. A inclusão que exclui: cegos, surdos e disléxicos
Este é, talvez, o argumento mais desconfortável de todo o debate — desconfortável porque vira do avesso a própria justificativa moral da linguagem neutra. A proposta se apresenta como ferramenta de inclusão. Mas ela esbarra, na prática, em barreiras de acessibilidade que atingem grupos que já enfrentam exclusão estrutural, e que raramente são mencionados na discussão em redes sociais.
Comece pelos leitores de tela, usados por pessoas com deficiência visual para navegar na internet, ler documentos e se comunicar digitalmente. Softwares de síntese de voz dependem de texto que siga padrões ortográficos reconhecíveis. Diante de símbolos como "@" ou "x" no meio de uma palavra, muitos desses programas simplesmente não sabem o que fazer — alguns pronunciam literalmente "arroba" ou "xis" no meio da frase, quebrando qualquer fluência de leitura; outros travam ou pulam o trecho.
O mesmo vale, por caminhos diferentes, para pessoas com dislexia, para quem a introdução de terminações fora do padrão ortográfico aprendido — "-e" em vez de "-o/-a", símbolos no meio de palavras — pode representar uma camada extra de dificuldade sobre um processo de leitura que já é, para elas, mais custoso do que para a média da população. E para pessoas surdas que dependem de leitura labial, formas que alteram a fonética esperada de uma palavra tornam a leitura labial mais difícil, não mais fácil.
"Se coloca como algo para incluir as pessoas, mas, na verdade, ela exclui. Exclui os cegos, que fazem leitura por meio de softwares, exclui o surdo, que usa linguagem labial, os disléxicos e as crianças e adolescentes, porque impõe dificuldade de aprendizado."
O argumento não é uma tentativa de desviar o foco do debate para "outra minoria" — é uma constatação técnica sobre design de linguagem acessível. Qualquer especialista em acessibilidade digital vai dizer a mesma coisa que qualquer especialista em tecnologia assistiva: texto previsível, com padrões ortográficos estáveis, é a base de qualquer ferramenta de leitura automatizada. Introduzir variação deliberada nessa base — por mais bem-intencionada que seja a motivação — tem um custo real, mensurável, para outros grupos que também dependem de acessibilidade.
As próprias diretrizes internacionais de acessibilidade web — as Web Content Accessibility Guidelines, referência global adotada inclusive pelo governo brasileiro em seu modelo de acessibilidade em governo eletrônico — recomendam, como princípio básico, previsibilidade textual e conformidade com convenções ortográficas reconhecidas, justamente para que tecnologias assistivas consigam interpretar o conteúdo de forma confiável. Uma proposta de linguagem que rompe deliberadamente com essas convenções, sem qualquer adaptação compensatória testada e validada por essas mesmas diretrizes, está, por definição técnica, andando na contramão do que a própria área de acessibilidade digital entende como boas práticas — mesmo que a intenção declarada seja exatamente o oposto.
Isso não significa que a solução seja simplesmente ignorar o desconforto de pessoas não binárias com o binarismo de gênero na língua. Significa que qualquer proposta séria de inclusão linguística precisaria, no mínimo, resolver o conflito entre as duas demandas de acessibilidade — a de quem quer uma forma neutra de tratamento e a de quem depende de previsibilidade ortográfica para ler — antes de ser apresentada como solução pronta. Até hoje, isso não aconteceu. As propostas de linguagem neutra circulam sem qualquer teste sistemático de compatibilidade com leitores de tela, sem validação com comunidades de pessoas disléxicas, sem consulta a associações de surdos. É difícil chamar de "inclusiva" uma proposta que nunca perguntou, a sério, para os grupos que ela mesma pode acabar excluindo.
Há também um argumento de escala que raramente entra nessa conta. A Organização Mundial da Saúde estima que a deficiência visual atinge dezenas de milhões de pessoas no mundo em diferentes graus, e associações de dislexia no Brasil calculam que o transtorno afeta uma fatia relevante da população em idade escolar — números que, somados aos de pessoas surdas ou com baixa audição, formam um contingente muito maior do que a fração da população que hoje usa linguagem neutra no cotidiano. Isso não transforma uma minoria em "mais importante" do que outra — dignidade não é uma disputa de quem tem o grupo maior. Mas serve como lembrete de que qualquer política de linguagem que se pretenda inclusiva precisa, no mínimo, fazer as contas de quantas pessoas ela ajuda e quantas ela, sem querer, deixa para trás.
IX. O que o STF decidiu — e o que ele nunca decidiu
Poucos temas geram tanta desinformação cruzada quanto "o que o Supremo Tribunal Federal decidiu sobre linguagem neutra". Vale esclarecer com precisão, porque os dois lados do debate costumam distorcer a mesma decisão em direções opostas.
Entre 2023 e 2025, o STF julgou inconstitucionais leis estaduais e municipais que proibiam o uso de linguagem neutra em escolas — casos de Rondônia (ADI 7019, relator ministro Edson Fachin, julgada em fevereiro de 2023), Belo Horizonte e Uberlândia, entre outros municípios. Em todos esses casos, porém, o fundamento da decisão foi formal, não de mérito: o STF não disse que a linguagem neutra é boa, correta ou deve ser adotada. Disse que apenas a União — não estados nem municípios — tem competência constitucional para legislar sobre diretrizes gerais de educação, incluindo o ensino da língua portuguesa. Uma lei estadual proibindo o uso de determinada "modalidade de uso da língua portuguesa", segundo a tese fixada pelo tribunal, invade competência que é exclusiva do Congresso Nacional.
A tese, ao pé da letra
"Norma estadual que, a pretexto de proteger os estudantes, proíbe modalidade de uso da língua portuguesa viola a competência legislativa da União."
— Tese fixada pelo STF no julgamento da ADI 7019/RO (fevereiro de 2023). Repare: a tese fala em competência legislativa, não em mérito linguístico. O tribunal nunca chegou a examinar se o pronome neutro é ou não gramaticalmente válido — apenas quem tem autoridade para legislar sobre o tema.
É essa mesma lógica — competência da União — que deixou a porta aberta para o desfecho mais recente e, de certa forma, mais eloquente de toda essa novela jurídica: em novembro de 2025, foi o próprio governo federal, por meio de uma lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que baniu a linguagem neutra de toda a administração pública brasileira. A Lei nº 15.263/2025, de autoria da deputada Erika Kokay (PT-DF), criou a "Política Nacional de Linguagem Simples" e determinou, em seu texto, que os órgãos públicos de todos os entes federativos — União, estados, municípios e Distrito Federal — não podem usar "novas formas de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa em contrariedade às regras gramaticais consolidadas, ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e ao Acordo Ortográfico".
Esse detalhe importa e costuma passar despercebido: não foi um governo de direita, nem uma bancada conservadora isolada, que baniu a linguagem neutra dos boletins de ocorrência, dos editais de concurso público, dos formulários do SUS e do Diário Oficial da União. Foi exatamente o governo que a militância identitária costuma identificar como aliado. Isso não invalida a causa da inclusão — mas complica bastante a narrativa de que resistir à linguagem neutra é, necessariamente, posição de um espectro político específico. Na prática legislativa brasileira, essa é uma pauta que atravessa o espectro político de ponta a ponta: o mesmo Congresso que rejeitou, por vício de competência, as proibições estaduais aprovou, por larga margem, uma proibição federal ampla e detalhada.
O panorama completo, então, é o seguinte: proibições estaduais e municipais caíram por invasão de competência; a proibição federal, votada pelo órgão que de fato tem essa competência, foi sancionada e está em vigor. Some a isso o fato de que, segundo levantamento da Universidade Federal de São Carlos, mais de 45 projetos de lei tramitaram ou foram aprovados em assembleias estaduais brasileiras entre 2020 e 2022 com o objetivo de restringir o uso da linguagem inclusiva nas escolas — um volume de produção legislativa que, por si só, já indica o tamanho da resistência ao tema em praticamente todas as regiões do país, independentemente de qual partido estava no poder em cada estado.
O que a Lei 15.263/2025 muda, na prática, para o cidadão comum
Vale traduzir o texto legal para o que ele significa no dia a dia, porque leis frequentemente soam mais abstratas do que são. A partir da vigência da Política Nacional de Linguagem Simples, um boletim de ocorrência policial não pode usar "todes"; um edital de concurso público não pode se dirigir aos candidatos como "candidates"; um formulário do Sistema Único de Saúde não pode substituir "paciente" por variações gráficas com "x" ou "@"; e uma publicação no Diário Oficial da União segue as regras gramaticais consolidadas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. A justificativa oficial do governo para a nova política não foi, em nenhum momento, uma rejeição à causa da inclusão de pessoas não binárias — foi, textualmente, a busca por "comunicação mais clara, direta e acessível", incluindo, segundo o próprio texto da lei, facilitar a compreensão da comunicação pública por pessoas com deficiência. É, na prática, o mesmo argumento de acessibilidade que este ensaio desenvolveu na seção anterior, agora incorporado à letra da lei.
Importante frisar os limites dessa vedação: ela se aplica à administração pública, não a indivíduos, empresas privadas, editoras, sites, redes sociais ou instituições de ensino privadas em sua comunicação não vinculada a editais públicos. Um cidadão continua livre para usar a linguagem neutra em sua vida pessoal, em suas redes sociais, em seus próprios textos literários — a lei regula o Estado, não a fala das pessoas. Essa distinção costuma se perder tanto na cobertura entusiasmada quanto na cobertura alarmista do tema, e vale deixá-la clara aqui: não existe, no Brasil, nenhuma norma que proíba uma pessoa física de falar ou escrever como quiser em contextos privados.
X. O mundo já tentou: Suécia, França, Argentina e Espanha
Um dos argumentos mais usados pelos defensores da linguagem neutra é o exemplo internacional: "olha a Suécia, olha a França, outros países já adotaram e deu certo". Vale examinar esses casos com atenção, porque a realidade é mais complicada — e menos favorável à tese — do que a versão resumida que costuma circular.
Suécia: dez anos depois, ainda é exceção
A Suécia é sempre citada como o exemplo de sucesso, porque o pronome "hen" — proposto originalmente nos anos 1960, redescoberto nos anos 2000 por ativistas trans — acabou entrando no dicionário oficial da Academia Sueca em 2015. É verdade. Mas os detalhes contam uma história bem menos triunfal do que o resumo sugere.
Em 2012, ano em que a palavra explodiu no debate público sueco, uma enquete conduzida pelo tabloide Aftonbladet mostrou que 96% das pessoas que responderam não usavam "hen" no dia a dia. O jornal Dagens Nyheter, um dos maiores do país, chegou a banir formalmente a palavra de suas reportagens naquele ano, por considerá-la desnecessária fora de contextos muito específicos. O editor do dicionário oficial da Academia Sueca, Sven-Göran Malmgren, resumiu o ceticismo da própria instituição linguística do país com uma frase que continua atual: ele não conhecia "um único exemplo no mundo em que um pronome tenha sido inventado e depois imposto" com sucesso.
O que de fato aconteceu, ao longo da década seguinte, foi mais modesto do que "adoção nacional": "hen" passou a ser usado com naturalidade em contextos específicos — para se referir a pessoas trans ou de gênero desconhecido, em alguns materiais escolares e institucionais — sem nunca substituir "han" (ele) e "hon" (ela) no uso cotidiano da imensa maioria da população sueca. Passados mais de dez anos da entrada no dicionário, "hen" segue sendo uma ferramenta de nicho, útil em contextos pontuais, não um substituto geral do sistema binário. É exatamente o tipo de resultado que os críticos da linguagem neutra descrevem como cenário mais provável para o português: adoção residual, nunca generalizada.
França: da "aberração" ao banimento formal
Do outro lado do espectro está a França, onde o desfecho foi o oposto. Desde 2017, uma circular do então primeiro-ministro Édouard Philippe já orientava os órgãos públicos a evitar a chamada écriture inclusive — o uso de pontos médios para marcar simultaneamente as formas masculina e feminina de uma palavra (algo como les étudiant·e·s). A Academia Francesa, guardiã oficial da língua desde o século XVII, classificou a prática como uma "aberração" que colocava o idioma em "perigo mortal".
Em 2021, o ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, ampliou a proibição para todo o sistema escolar francês, com um argumento que ecoa quase palavra por palavra os debates brasileiros: a escrita inclusiva prejudicaria especialmente crianças com dificuldades de aprendizagem e deficiências, ao complicar desnecessariamente a decodificação do texto. Em outubro de 2023, o Senado francês — em sessão que contou com declarações públicas do próprio presidente Emmanuel Macron defendendo as regras acadêmicas tradicionais do idioma e pedindo para o país "não se deixar arrastar pelas modas" — aprovou um projeto de lei para tornar juridicamente nulo qualquer documento oficial redigido em linguagem inclusiva, sob o argumento de que ela dificulta a leitura, a compreensão e a própria transcrição oral do texto.
Argentina: da administração pública às Forças Armadas
Em fevereiro de 2024, o governo de Javier Milei estendeu a toda a administração pública nacional argentina uma proibição que já havia sido adotada, dias antes, pelo Ministério da Defesa: o uso de "e", "@" e "x" como marcadores de gênero neutro, além da "inclusão desnecessária do feminino", foi formalmente vedado em documentos oficiais. O porta-voz presidencial justificou a medida afirmando que as perspectivas de gênero vinham sendo usadas como "negócio da política" — uma frase que, goste-se ou não do governo que a pronunciou, capturou um sentimento compartilhado por parcelas relevantes da opinião pública em vários países.
Vale notar que essa posição não nasceu isolada: já em 2020, a Real Academia Espanhola havia publicado um relatório técnico concluindo que o uso de símbolos como "@", "e" e "x" como marcas de gênero inclusivo é "alheio à morfologia do espanhol" e desnecessário, já que, segundo a instituição, o masculino gramatical já cumpre a função de termo não marcado na oposição de gênero. O próprio diretor da RAE já havia declarado, em entrevista ao jornal espanhol ABC, que a linguagem inclusiva "afeia o idioma de maneira insustentável" — uma crítica estética e estrutural, vinda da mais alta instância normativa do espanhol, que precede em anos a chegada de Milei ao governo.
Alemanha: dos estados aos ministérios federais
O caso alemão é, de todos, o mais recente — e talvez o mais instrutivo, porque mostra a mesma disputa se espalhando de um estado para o governo central em tempo real. Em 1º de abril de 2024, a Baviera, o mais populoso estado alemão, proibiu formalmente o uso da chamada gendersprache — a linguagem que emprega sinais gráficos como o asterisco, o dois-pontos ou o sublinhado no meio das palavras (Lehrer*innen, Lehrer:innen, Lehrer_innen) para incluir identidades além do masculino e do feminino — em escolas, universidades e repartições públicas, sob o argumento de que os símbolos comprometem a compreensibilidade do texto. A medida se aplicou de forma mais rígida a escolas e órgãos administrativos do que a universidades, onde estudantes ainda podem usar a linguagem de gênero em trabalhos acadêmicos, mesmo com a administração das próprias instituições sujeita à restrição — uma aplicação desigual que, segundo pesquisa publicada por uma revista acadêmica brasileira sobre o caso bávaro, gerou mais polarização social do que uniformidade linguística.
O que poderia parecer um episódio isolado de um estado tradicionalmente conservador ganhou fôlego nacional em 2025: dois ministérios do governo federal alemão — o da Educação e Família e o da Cultura — baniram, em meses seguidos, o uso de linguagem inclusiva em suas comunicações oficiais, pedindo que se respeitassem "as regras tradicionais da ortografia alemã". Um dado que vale registrar, porque de novo complica a narrativa de "questão exclusivamente de direita contra esquerda": a Alemanha reconhece legalmente, desde 2018, um terceiro gênero civil, chamado divers, para pessoas que não se identificam como homens nem como mulheres — ou seja, o mesmo país que garante esse reconhecimento jurídico à identidade não binária é o mesmo país cujos órgãos públicos, estados e agora ministérios federais vêm restringindo, de forma crescente, a linguagem de gênero nos textos oficiais. As duas coisas caminham juntas na Alemanha atual: reconhecimento civil da identidade, de um lado; ceticismo institucional crescente sobre a reforma da língua escrita, do outro.
Espanha: a exceção que confirma a regra
É justo, e necessário para um retrato honesto, mencionar o contraponto: o próprio governo espanhol, em contraste com a posição da RAE, chegou a oficializar o uso de linguagem inclusiva em determinados documentos institucionais, sob a justificativa de promover igualdade e representatividade. A divergência entre o Executivo espanhol e a autoridade linguística do próprio idioma — a RAE — é, ela mesma, uma boa síntese de todo este debate: mesmo dentro de um único país, falado por uma única comunidade linguística ampla, não existe consenso sobre o tema. O que existe, invariavelmente, é polarização — entre instituições, entre governos, entre gerações.
| País | O que foi feito | Resultado prático |
|---|---|---|
| Suécia | "Hen" entrou no dicionário oficial em 2015 | Uso residual e pontual; não substitui "han/hon" no cotidiano |
| França | Proibições administrativas desde 2017; banimento nas escolas em 2021; Senado aprova projeto de nulidade jurídica em 2023 | Escrita inclusiva formalmente rejeitada pelo Estado e pela Academia Francesa |
| Argentina | Governo Milei proíbe linguagem inclusiva na administração pública em 2024 | Vedação em vigor em todos os órgãos federais |
| Alemanha | Baviera proíbe símbolos de gênero em 2024; dois ministérios federais seguem o exemplo em 2025 | Restrição crescente, apesar do reconhecimento civil do gênero "divers" desde 2018 |
| Espanha | Governo oficializa uso institucional; RAE recomenda contra | Divergência aberta entre Executivo e autoridade linguística |
| Brasil | STF derruba proibições estaduais por vício de competência; Congresso aprova proibição federal em 2025 | Linguagem neutra vedada na administração pública desde nov/2025 |
O padrão que emerge desse panorama não é "o mundo está adotando a linguagem neutra". É outro, mais preciso: em praticamente todo país onde o tema foi debatido a sério, o resultado prático — depois de anos de debate — foi ou uma adoção estritamente residual e pontual (Suécia), ou um recuo institucional explícito (França, Argentina, Alemanha, Brasil), com a Espanha funcionando como exceção parcial e ainda assim internamente dividida. Não é um retrato de consenso crescente. É um retrato de resistência persistente, atravessando línguas, continentes e espectros políticos diferentes.
Vale notar, ainda, um detalhe que atravessa quase todos esses casos: o recuo institucional raramente vem de um único campo político. Na França, partiu de um governo de centro liderado por Macron, seguido por um Senado de maioria conservadora. Na Alemanha, começou em um estado governado pela União Social-Cristã e chegou a ministérios de um governo de coalizão mais amplo. No Brasil, a proibição estadual foi barrada pelo STF por vício de forma, mas a proibição federal foi sancionada pelo próprio presidente Lula, a partir de projeto de uma deputada do PT. Se houvesse, de fato, um consenso técnico sólido a favor da linguagem neutra sendo bloqueado apenas por resistência ideológica de um único espectro político, seria de esperar que ao menos os governos alinhados à pauta identitária a defendessem de forma consistente nas urnas legislativas. Não é isso o que os registros mostram.
XI. O outro lado da trincheira
Um ensaio de opinião não precisa fingir neutralidade que não tem — mas precisa, para ser honesto, apresentar o melhor argumento do outro lado, não a versão mais fraca dele. Então vale parar aqui e examinar, sem ironia, o que os defensores da linguagem neutra realmente dizem — porque alguns desses argumentos são mais sólidos do que o debate raso das redes sociais costuma deixar transparecer.
O argumento mais forte é o da dignidade. Para uma pessoa não binária, ser constantemente encaixada em um "ele" ou "ela" que não corresponde à sua identidade não é um detalhe estilístico — é, para quem vive essa experiência, uma forma recorrente de apagamento. A professora Eliana Sturza, da UFSM, descreve a linguagem neutra como parte de um movimento mais amplo de reconhecimento: a possibilidade de uma pessoa escolher o pronome que a deixa confortável é, para os defensores da causa, uma questão de respeito básico, não de capricho estético.
O segundo argumento, mais técnico, é o da evolução linguística genuína. Já mencionamos o professor Marcelo Modesto, da USP, e é justo repetir aqui, no contexto certo, que ele não é um crítico da causa — pelo contrário: concordou publicamente com a decisão do STF que impediu a proibição da linguagem neutra nas escolas, e defende que o primeiro contato de estudantes com a neutralidade de gênero na língua deveria começar justamente no ambiente escolar, como parte de uma formação para a diversidade. Para Modesto, a "língua viva" se adapta a mudanças sociais reais — e ele reconhece um caminho, ainda que incerto e de longo prazo, para que isso aconteça com o pronome neutro, desde que a adoção seja de fato ampla e espontânea, não imposta.
Existe também um contraponto acadêmico direto às críticas de Cíntia Chagas: o professor Rodrigo Borba, da UFRJ, discorda publicamente da tese de que mudanças linguísticas só podem ser consideradas "naturais" quando não guardam qualquer intenção deliberada por trás. Para Borba, a linguagem neutra não ameaça o patrimônio linguístico do país, não substitui a norma padrão e não representa risco à norma culta — ele a descreve como um fenômeno de acréscimo à língua, não de substituição, e argumenta que nem toda mudança linguística "natural" é, de fato, isenta de intenção ou de disputa política em sua origem.
Há, por fim, um ponto de honestidade intelectual que vale reconhecer sem rodeios: praticamente não existem, até o momento, estudos brasileiros robustos e controlados que meçam, com dados concretos, o impacto real da linguagem neutra sobre a alfabetização, sobre a compreensão leitora ou sobre a inclusão efetiva de pessoas não binárias. As evidências que circulam dos dois lados — tanto as que alegam prejuízo à alfabetização quanto as que alegam ganho social de inclusão — são majoritariamente teóricas, anedóticas ou extrapoladas de línguas com estrutura gramatical bem diferente da nossa, como o inglês (onde o "they" singular já era um recurso gramatical disponível havia séculos, o que muda completamente o ponto de partida do debate).
Isso não invalida os argumentos estruturais deste ensaio — a incompatibilidade morfológica com o sistema de concordância do português, os problemas de acessibilidade, a artificialidade da origem, a dificuldade prática de implementação em escala nacional continuam sendo, todos eles, observações sólidas, sustentadas por linguistas de diferentes posições políticas. Mas é preciso admitir, com a mesma honestidade que se exige do outro lado, que a ausência de dados robustos corta nos dois sentidos: assim como não há prova cabal de que a linguagem neutra "prejudica a alfabetização" em termos mensuráveis, também não há prova cabal de que ela promova, na prática, mais inclusão social real do que outras estratégias — como simplesmente evitar pronomes de gênero quando possível, ou usar formas coletivas neutras já existentes na língua, como "a pessoa", "quem" ou "o público".
O debate, no fim, talvez devesse se dar menos em torno de "quem está certo sobre a ciência da língua" — porque a ciência, aqui, ainda está incompleta dos dois lados — e mais em torno de uma pergunta prática e concreta: existe uma forma de reconhecer a dignidade de pessoas não binárias que não dependa de reformar, por decreto informal, a morfologia inteira de um idioma falado por 260 milhões de pessoas? A resposta, como veremos na conclusão, provavelmente existe — e não precisa de "elu".
Vale ainda somar um último argumento a favor, com honestidade, antes de seguir adiante: mesmo pesquisadores que discordam da viabilidade prática da linguagem neutra em larga escala reconhecem que o incômodo que a motiva — a sensação de invisibilidade de quem não se reconhece no binário — é uma experiência subjetiva real, relatada de forma consistente por quem a vive, e não uma invenção retórica de militantes. Discordar da solução proposta não obriga ninguém a negar o problema que ela tenta resolver. É perfeitamente possível — e, na visão deste ensaio, é a posição mais coerente — reconhecer o desconforto genuíno de uma parte da população com o binarismo linguístico e, ao mesmo tempo, argumentar que a solução escolhida até agora tem custos estruturais, práticos e de acessibilidade altos demais para o benefício comunicativo que entrega.
XII. Por que a implementação continua sendo impossível
Reunindo tudo o que vimos até aqui, dá para entender por que a linguagem neutra, apesar de mais de uma década de militância ativa, ainda não conseguiu — e, dentro de qualquer horizonte de tempo razoável, dificilmente vai conseguir — se tornar de fato a norma culta, nem sequer uma norma amplamente aceita, da língua portuguesa.
- Primeiro, a barreira cognitiva: Falantes nativos de uma língua não processam gramática como um conjunto de regras conscientes que se pode reescrever por decisão deliberada — processam de forma automática, adquirida desde a infância, profundamente entranhada na própria arquitetura do pensamento verbal. Isso não é romantismo linguístico; é o que décadas de pesquisa em psicolinguística mostram sobre aquisição de linguagem. Mudanças estruturais profundas — como a introdução de um terceiro gênero gramatical funcional para pessoas — não se impõem por campanha de conscientização; elas, quando acontecem, levam gerações, e acontecem de baixo para cima, não de cima para baixo.
- Segundo, a barreira do consenso lusófono: Já mencionada: nove países, com governos, academias de letras e realidades sociais completamente distintas, precisariam convergir para que o pronome neutro migrasse da "língua real" de um grupo de nicho para a "língua legal" reconhecida institucionalmente. Não há, hoje, nenhum mecanismo diplomático, acadêmico ou político em curso que sequer comece a caminhar nessa direção.
- Terceiro, a barreira legal: Deixou de ser hipotética: com a Lei 15.263/2025 em vigor, qualquer tentativa de institucionalizar a linguagem neutra na administração pública brasileira — em editais, boletins, formulários do SUS, comunicações oficiais — esbarra agora em vedação legal explícita, votada pelo Congresso e sancionada pelo Executivo. Reverter essa lei exigiria nova maioria parlamentar, algo que, dado o histórico recente de mais de 45 projetos estaduais na direção oposta, não parece um cenário próximo.
- Quarto, a barreira empírica internacional: Em nenhum dos países analisados neste ensaio — nem mesmo a Suécia, o caso de "maior sucesso" citado pelos defensores da causa — o pronome neutro conseguiu, depois de mais de uma década de existência pública, deixar de ser uma ferramenta de nicho para se tornar a forma dominante de tratamento. O padrão observado, repetidamente, é adoção marginal seguida de estabilização em um patamar baixo, ou recuo institucional formal.
- Quinto, a barreira da acessibilidade: Talvez a mais decisiva, embora a menos comentada: qualquer proposta de reforma linguística de larga escala que ainda não resolveu seus próprios conflitos internos com leitores de tela, com pessoas disléxicas e com a comunidade surda não está, tecnicamente, pronta para ser proposta como norma geral de comunicação pública, por mais nobre que seja a intenção original.
Nenhuma dessas cinco barreiras é uma opinião. São constatações estruturais, jurídicas e empíricas, verificáveis de forma independente — e, juntas, explicam por que "é só uma questão de tempo" é, provavelmente, a frase mais otimista e menos sustentada de todo esse debate.
Há uma sexta barreira, menos técnica e mais editorial, que vale mencionar por afetar diretamente quem trabalha com texto para viver: o mercado editorial, jornalístico e literário brasileiro — do qual um site de literatura como este faz parte — opera hoje, majoritariamente, dentro da norma culta reconhecida pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Um manuscrito, um artigo ou uma tradução que adote sistematicamente a linguagem neutra enfrenta, na prática editorial cotidiana, revisores treinados em outro padrão, sistemas de correção ortográfica automática que sinalizam as formas neutras como erro, e um público leitor majoritariamente não familiarizado com as convenções propostas — o que não impede, evidentemente, publicações de nicho ou autorais que optem conscientemente por esse caminho, mas que também não deve ser confundido com uma norma pronta para adoção editorial ampla.
XIII. Conclusão: entre o respeito e a clareza
Vale fechar este ensaio onde ele começou: a crítica que foi feita aqui não é às pessoas não binárias, nem ao desejo legítimo de serem tratadas com respeito e dignidade. É à ideia — promovida com uma confiança retórica muito maior do que a evidência disponível justifica — de que a forma certa de garantir esse respeito é reformar, por ativismo de nicho, a estrutura gramatical inteira de uma língua falada por 260 milhões de pessoas em nove países.
Existem alternativas que cumprem boa parte do mesmo objetivo sem exigir essa reforma estrutural. É perfeitamente possível escrever e falar evitando pronomes de gênero quando eles não são estritamente necessários — "a pessoa responsável" em vez de "o responsável", "quem se inscrever" em vez de "os inscritos", "a gestão" em vez de "o gestor" ou "a gestora". São recursos que já existem no português, testados havia séculos, plenamente compatíveis com leitores de tela, com pessoas disléxicas e com qualquer falante nativo — e que resolvem, na prática, uma parte considerável do desconforto que motiva a busca por uma linguagem neutra, sem exigir a invenção de um sistema gramatical paralelo.
Isso não é uma vitória de consolação para quem defende a causa da inclusão — é, na verdade, um caminho mais realista para alcançar o mesmo objetivo. Uma língua muda de verdade quando a maioria dos seus falantes muda, sem perceber, ao longo de gerações — não quando um manual de dez páginas decide, de uma vez, como todo mundo deveria falar a partir de agora. O pronome neutro, tal como vem sendo proposto e promovido, tem menos em comum com a evolução histórica do "você" substituindo "vossa mercê" e mais em comum com um projeto de engenharia linguística de cima para baixo — bem-intencionado, talvez, mas ainda assim engenharia, não evolução. E engenharia linguística imposta por decreto, seja de quem proíbe, seja de quem promove, tem um histórico de fracasso bastante consistente — o suficiente para preencher, sozinho, este ensaio inteiro.
Chamar isso de "dialeto de pseudointelectual" não é, no fim das contas, um exagero retórico gratuito. É uma descrição precisa de um fenômeno específico: a tentativa de vestir uma escolha política — legítima, discutível, mas política — com a roupagem de um avanço técnico inevitável da ciência da linguagem, quando a própria ciência da linguagem, examinada com cuidado, aponta na direção oposta.
Isso não fecha o debate — nenhum ensaio de opinião tem esse poder, nem deveria ter. A discussão sobre como uma língua pode acolher, com respeito, identidades que fogem do binário masculino/feminino continuará acontecendo, nas escolas, nas redações, nas editoras, nas famílias. O que este texto tentou argumentar, com base em fontes verificáveis e não em impressão pessoal, é que essa discussão avança mais quando trata a gramática como o que ela é — um sistema construído por séculos de uso coletivo, resistente a reformas de cima para baixo, mas plenamente capaz de absorver, ao seu próprio ritmo, aquilo que a maioria dos falantes decidir, com o tempo, adotar — e menos quando trata qualquer discordância como sinal de atraso moral. A língua portuguesa sobreviveu a impérios, ditaduras, reformas ortográficas e a própria internet. Ela vai sobreviver também a este debate. A pergunta que fica, para cada leitor decidir por conta própria, é que tipo de português vai atravessar esse período: um que se manteve inteligível, compartilhado e acessível a quem mais precisa dele, ou um fragmentado entre manuais concorrentes que ninguém, no fim, conseguiu fazer vingar.
XIV. Perguntas frequentes
O que significam "elu", "ile" e as demais formas do pronome neutro?
São pronomes pessoais criados por coletivos ativistas a partir da década de 2010 para substituir "ele/ela" sem indicar gênero binário. "Elu/delu" deriva do pronome demonstrativo neutro latino illud; "ile/dile" foi criado para se afastar ainda mais foneticamente das formas tradicionais. Não há consenso sobre qual sistema é o "correto" — coexistem pelo menos quatro propostas concorrentes sem convergência entre si.
A linguagem neutra é proibida no Brasil?
Sim, na administração pública. A Lei nº 15.263/2025, sancionada em novembro de 2025, proíbe o uso de novas flexões de gênero e número — como "todes" e "elu" — em documentos, formulários e comunicações de órgãos públicos federais, estaduais, municipais e distritais. A lei não regula o uso da linguagem neutra por indivíduos em contextos privados ou por empresas e instituições não públicas.
O STF proibiu ou autorizou o uso de pronomes neutros nas escolas?
Nenhum dos dois, tecnicamente. O STF derrubou leis estaduais e municipais que proibiam a linguagem neutra nas escolas — mas o fez por um motivo formal (invasão de competência legislativa da União sobre diretrizes de educação), não porque tenha avaliado o mérito linguístico da proposta. O tribunal nunca decidiu se o pronome neutro deve ou não ser adotado no ensino.
Algum país já adotou oficialmente um pronome neutro de gênero?
A Suécia é o caso mais citado: o pronome "hen" entrou no dicionário oficial da Academia Sueca em 2015. Mesmo assim, seu uso segue residual e pontual mais de uma década depois, sem substituir "han" e "hon" no cotidiano da maioria da população. Já a França e a Argentina formalizaram, em anos recentes, o caminho oposto: proibições explícitas da linguagem inclusiva em documentos oficiais e no ensino.
A linguagem neutra atrapalha pessoas com deficiência?
Segundo especialistas em acessibilidade e educadores citados neste ensaio, sim, em pelo menos três frentes: leitores de tela usados por pessoas cegas frequentemente não conseguem pronunciar corretamente símbolos como "@" e "x"; pessoas com dislexia enfrentam dificuldade adicional diante de terminações fora do padrão ortográfico aprendido; e pessoas surdas que dependem de leitura labial são prejudicadas por alterações na fonética esperada das palavras.
Quantas pessoas no Brasil se identificam como não binárias?
Segundo estudo da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), publicado na Nature Scientific Reports em 2021, cerca de 2% da população adulta brasileira se identifica como transgênero ou não binária — cerca de 3 milhões de pessoas. O estudo não mede, especificamente, quantas dessas pessoas usam ou preferem o pronome neutro no dia a dia.
A linguagem neutra pode se tornar norma culta no futuro?
Linguistas de posições diferentes concordam que isso só aconteceria se o uso se tornasse amplamente espontâneo entre a maioria dos falantes, ao longo de um período longo — não por imposição institucional ou legal. Dado o padrão observado até aqui, tanto no Brasil quanto internacionalmente, esse cenário permanece, na melhor das hipóteses, incerto e distante.
Como a linguagem neutra afeta a tradução literária?
Cria um problema real de consistência editorial. Como não existe um sistema único de pronome neutro — coexistem "elu", "ile", a terminação em "-e" e os símbolos gráficos, sem convergência entre si —, tradutores, editoras e revisores diferentes adotam soluções diferentes para o mesmo tipo de personagem, o que produz inconsistência de livro para livro. Some a isso o impacto sobre métrica e rima em poesia, calibradas havia séculos para as terminações vocálicas do masculino e do feminino.
A Alemanha também restringiu a linguagem de gênero?
Sim. Desde 1º de abril de 2024, a Baviera proíbe o uso de símbolos de gênero (asterisco, dois-pontos, sublinhado) em escolas, universidades e repartições públicas. Em 2025, dois ministérios do governo federal alemão — Educação e Cultura — adotaram restrições semelhantes em suas comunicações oficiais. Isso convive, sem contradição institucional formal, com o reconhecimento legal de um terceiro gênero civil ("divers") no país desde 2018.
A Lei 15.263/2025 proíbe uma pessoa de usar linguagem neutra na vida pessoal?
Não. A lei regula exclusivamente a comunicação da administração pública — documentos oficiais, editais, formulários, boletins de ocorrência, publicações em diários oficiais. Ela não impõe qualquer restrição ao uso da linguagem neutra por indivíduos em contextos privados, por empresas, por editoras ou em redes sociais.
XV. Fontes e leitura complementar
Este ensaio se apoia em reportagens, decisões judiciais, textos de lei e entrevistas verificáveis. Alguns dos principais pontos de partida:
- Entenda o que é linguagem neutra, proibida em lei sancionada por Lula — Congresso em Foco
- Análise da ADI 7019/RO — inconstitucionalidade formal da proibição estadual — Dizer o Direito
- STF decide que lei que proíbe linguagem neutra em escolas de BH é inconstitucional — Rádio Itatiaia
- Gramática normativa x linguagem neutra: uma batalha pelo futuro da norma culta portuguesa — Jornal da USP
- Academia Brasileira de Letras não vê razão para adoção oficial da linguagem neutra — Gazeta do Povo
- Professora de português critica "linguagem neutra" — Jovem Pan
- Governo Lula abre espaço para linguagem neutra: entenda por que isso é um erro — Gazeta do Povo
- PL que quer proibir linguagem neutra nas escolas foi debatido em audiência (contraponto de Rodrigo Borba, UFRJ) — Câmara Municipal de Belo Horizonte
- Cerca de 2 em cada 100 brasileiros são transgêneros e não binários, revela pesquisa — IBDFAM / Unesp
- Hen (pronoun) — histórico do pronome neutro sueco — Wikipedia
- French senate aims to ban "inclusive writing" — The Local France
- Gobierno de Milei prohíbe el lenguaje inclusivo en la administración pública — Forbes México
- Argentina: Milei prohíbe el uso del lenguaje inclusivo (com nota sobre o relatório da RAE) — ACI Prensa
- Bavaria bans use of "gender-sensitive" language — JURIST News
- Zwischen Zensur und Gendergerechtigkeit: Das Genderverbot in Bayern — Revista Contingentia, UFRGS
- A linguagem inclusiva no jornalismo brasileiro (levantamento da UFSCar sobre projetos de lei) — IJNet