O que é Quinhentismo? O primeiro movimento literário brasileiro

O que é Quinhentismo? Guia completo sobre o primeiro período literário no Brasil (1500-1601): literatura de informação, jesuítica, Carta de Caminha, Anchieta...

Por Sebastião Victor Diniz | Categoria: Todos, Educacional, Curiosidades
O que é Quinhentismo? O primeiro movimento literário brasileiro

Sexta-feira, 1º de maio de 1500. Um escrivão português, sentado em algum canto de uma nau ancorada perto de Porto Seguro, na atual Bahia, molha a pena e começa a escrever ao rei de Portugal. Ele quer contar o que viu nos últimos dias: a terra que surgiu no horizonte, os homens que apareceram na praia, as árvores, a água, a missa rezada sob uma cruz de madeira. O escrivão se chamava Pero Vaz de Caminha, e ele ainda não sabia que estava escrevendo aquilo que a história literária chamaria, séculos depois, de ponto de partida da literatura no Brasil.

Esse gesto discreto, uma carta mandada a um monarca, abre o período que chamamos de Quinhentismo. O nome soa esquisito para quem o encontra pela primeira vez, e a matéria costuma virar dor de cabeça em prova de vestibular e de Enem, porque mistura história, religião, língua e teoria literária. Neste artigo vamos desmontar o assunto com calma: o que o termo significa, em que mundo esses textos nasceram, quem os escreveu, como eram lidos (ou não eram) e por que os estudiosos ainda discutem se isso tudo pode mesmo ser chamado de literatura brasileira.

Resposta rápida: o que é Quinhentismo?

Quinhentismo é o nome dado ao conjunto de textos escritos no Brasil, ou sobre o Brasil, ao longo do século XVI, mais ou menos entre 1500 e 1601. Esses textos nasceram do contato entre portugueses e povos indígenas e se dividem em duas grandes vertentes:

  • Literatura de informação (ou literatura dos viajantes e cronistas): cartas, diários e tratados que descrevem a terra, os bichos, as plantas e os habitantes. Exemplo mais famoso: a Carta de Pero Vaz de Caminha.
  • Literatura de catequese (ou literatura jesuítica): cartas, sermões, poemas, peças de teatro e gramáticas produzidos pelos padres da Companhia de Jesus para converter os indígenas ao catolicismo. Nomes centrais: Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Quase tudo o que se escreveu nesse período tinha função prática: informar a Coroa, orientar a colonização e espalhar a fé cristã. Ninguém escrevia pensando em "fazer literatura nacional", e é justamente por isso que o rótulo "primeiro movimento literário" carrega uma polêmica que vamos explicar mais adiante.

Índice

  1. De onde vem o nome e o que ele abrange
  2. O contexto histórico: o Brasil do século XVI
  3. As duas vertentes do Quinhentismo
  4. Características do Quinhentismo
  5. A Carta de Pero Vaz de Caminha, passo a passo
  6. Outros textos da literatura de informação
  7. A literatura jesuítica: Nóbrega, Anchieta e companhia
  8. Linguagem e estilo dos textos quinhentistas
  9. Quem lia esses textos?
  10. O olhar do colonizador e as vozes que faltam
  11. Quinhentismo é literatura brasileira?
  12. Do Quinhentismo ao Barroco
  13. Tabela resumo: autores e obras
  14. Linha do tempo
  15. O que o Quinhentismo deixou de herança
  16. Como estudar para o Enem e os vestibulares
  17. Perguntas frequentes
  18. Conclusão
  19. Para ler mais

1. De onde vem o nome e o que ele abrange

A palavra vem de quinhentos. Em Portugal, o século XVI é chamado de "anos quinhentos", do mesmo jeito que os italianos falam em Cinquecento para se referir aos anos 1500. Acrescentou-se o sufixo -ismo, comum nos nomes de escolas literárias (Barroco, Arcadismo, Romantismo, Simbolismo), e pronto: Quinhentismo.

É importante notar que esse nome foi criado depois, por historiadores e professores de literatura, para organizar a matéria. Nenhum escritor do século XVI se apresentava como "quinhentista", nem se juntava a colegas para lançar um manifesto. Diferente do Modernismo de 1922, que foi um movimento consciente, com gente reunida, discutindo e brigando por ideias, o Quinhentismo é um rótulo colocado a posteriori sobre textos dispersos.

Os limites de datas também são convenção. O ponto inicial é 1500, ano da Carta de Caminha. O ponto final, na maior parte dos manuais escolares, é 1601, quando Bento Teixeira publicou o poema Prosopopeia, considerado a porta de entrada do Barroco no Brasil. Há quem discuta essas balizas, e veremos por quê, mas para efeito de estudo escolar elas funcionam bem.

Um detalhe que costuma passar batido: o Quinhentismo inclui textos escritos por estrangeiros e textos escritos em Portugal a partir de informações trazidas do Brasil. Não é uma "literatura de brasileiros", já que o Brasil, como país, nem existia ainda. É uma literatura sobre uma terra nova, feita por gente que tinha os olhos e a cabeça na Europa.

2. O contexto histórico: o Brasil do século XVI

O Contexto Histórico: O Brasil do Século XVI - Comércio, Religião e Renascimento

Para entender por que esses textos existem, e por que soam do jeito que soam, é preciso olhar para o mundo em que foram escritos. Três forças empurravam tudo: o comércio, a religião e o Renascimento.

Portugal, o Atlântico e a corrida pelas especiarias

No final do século XV, Portugal era um país pequeno, com pouca terra boa para lavoura e uma posição geográfica que apontava direto para o mar. Os portugueses investiram séculos em navegação, e o resultado foi uma série de conquistas: a costa africana, as ilhas atlânticas, o Cabo da Boa Esperança. O grande objetivo era chegar às Índias por mar e quebrar o monopólio que os mercadores do Mediterrâneo tinham sobre as especiarias (pimenta, cravo, canela), que valiam fortunas na Europa.

Foi nesse contexto que partiu, em março de 1500, a frota comandada por Pedro Álvares Cabral, com treze navios, rumo à Índia. No caminho, a esquadra se afastou da costa africana, desviou para oeste e avistou, em 22 de abril, um monte que batizaram de Monte Pascoal. Os historiadores ainda discutem se o desvio foi acidental ou proposital (a hipótese da "intencionalidade" tem defensores sérios), mas o fato é que Cabral aportou, ficou pouco mais de uma semana, mandou um navio de volta a Lisboa com a notícia e seguiu viagem para a Índia. Nesse navio de volta, seguia a carta de Caminha.

Pau-brasil, feitorias e capitanias

Nas décadas seguintes, a terra recém-encontrada interessou pouco à Coroa. Não havia ouro à vista nem uma civilização opulenta para saquear como os espanhóis encontraram no México e no Peru. O que havia era o pau-brasil, uma árvore de madeira avermelhada, muito procurada na Europa para tingir tecidos. A extração era feita em parceria com os indígenas, que cortavam e carregavam as toras em troca de machados, facas, espelhos e outras quinquilharias. Esse sistema de trocas é chamado de escambo. O nome "Brasil" vem, aliás, dessa madeira, e substituiu aos poucos as denominações anteriores, como Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz.

O problema é que outros europeus também queriam a madeira. Franceses, principalmente, apareciam com frequência na costa e faziam suas próprias alianças com povos locais. Para segurar a posse do território, a Coroa portuguesa passou de uma presença esporádica para uma ocupação de fato. Em 1532 foi fundada São Vicente, a primeira vila portuguesa. Em 1534, o rei dom João III dividiu o litoral em capitanias hereditárias, entregues a donatários que deveriam povoar e administrar as terras por conta própria. O sistema deu certo em poucos lugares, principalmente em Pernambuco e São Vicente, ambos apoiados na cana-de-açúcar.

Como a maioria das capitanias fracassou, o governo português resolveu centralizar a administração. Em 1549, chegou à Bahia o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, e foi fundada a cidade de Salvador. Vieram junto com ele os primeiros jesuítas, chefiados por Manuel da Nóbrega. A partir daí, o Brasil deixava de ser um ponto de escala e virava projeto de colônia, com engenhos de açúcar, mão de obra indígena (e, logo depois, africana escravizada) e muita violência.

A Igreja, a Contrarreforma e a Companhia de Jesus

A segunda força é religiosa. No século XVI, a Igreja Católica atravessava uma crise profunda. A Reforma protestante, iniciada por Lutero em 1517, tinha arrancado da autoridade de Roma vários países da Europa. A resposta católica, a Contrarreforma, se organizou no Concílio de Trento (1545 a 1563) e ganhou forças novas, entre elas a Companhia de Jesus, ordem fundada por Inácio de Loyola e aprovada pelo papa em 1540. Os jesuítas eram disciplinados, muito bem formados e treinados para missões longínquas. Onde a Igreja perdia fiéis na Europa, procuraria ganhar outros no além-mar.

Em Portugal, essa parceria entre Coroa e Igreja tinha nome: Padroado. Pelo arranjo, o rei ficava responsável por financiar a Igreja nas terras conquistadas, construir templos, sustentar missionários e indicar bispos. Em troca, tinha enorme controle sobre os assuntos religiosos nos territórios coloniais. Na prática, conquista e evangelização caminhavam de mãos dadas, e isso se reflete em praticamente todo texto quinhentista: até o relato mais "técnico" costuma terminar com uma menção a Deus, à fé ou à salvação dos indígenas.

Renascimento e Classicismo

A terceira força é cultural. O século XVI foi o auge do Renascimento, movimento que colocou o ser humano, a observação da natureza e a herança greco-romana no centro da vida intelectual. Em Portugal, essa onda chegou à literatura com o Classicismo, que a tradição costuma datar de 1527 (quando Sá de Miranda voltou da Itália trazendo novas formas poéticas, como o soneto e o verso decassílabo) e que teve em Luís de Camões, autor de Os Lusíadas (1572), seu nome maior.

Por que isso importa para o Quinhentismo? Porque os autores que escreveram sobre o Brasil eram, em sua maioria, gente formada nessa cultura. Pero de Magalhães Gândavo, por exemplo, foi professor de latim e autor de uma obra sobre ortografia portuguesa. Anchieta estudou em Coimbra. Eles traziam na bagagem o gosto pela observação, a curiosidade sobre o mundo natural e a ideia de que descrever com método é uma forma de conhecer. Ao mesmo tempo, traziam uma mentalidade profundamente cristã e europeia: o mundo tinha um centro, e ele ficava do lado de lá do Atlântico.

3. As duas vertentes do Quinhentismo

Quase todos os manuais dividem a produção do século XVI em dois blocos. A divisão é um pouco esquemática, mas ajuda a se orientar.

Literatura de informação

É a produção dos viajantes e cronistas. Aqui entram cartas oficiais, diários de navegação, tratados descritivos e histórias do Brasil. O objetivo era informar o rei, os governantes e, às vezes, o público europeu interessado em novidades. Em geral, esses textos falam da geografia, do clima, dos animais, das plantas, dos minerais e dos costumes dos povos nativos.

Os nomes mais lembrados são Pero Vaz de Caminha, Pero Lopes de Sousa, Pero de Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Sousa e o padre Fernão Cardim (que, embora jesuíta, escreveu tratados de caráter descritivo). Entre os estrangeiros, sobressaem Hans Staden, Jean de Léry e André Thevet.

Literatura de catequese (ou jesuítica)

É a produção dos padres da Companhia de Jesus, e tem um propósito claro: converter os indígenas ao cristianismo e, de quebra, transformá-los em súditos obedientes da Coroa. Os jesuítas escreveram cartas aos superiores em Portugal e em Roma, tratados, diálogos, poemas, peças de teatro e a primeira gramática da língua tupi. A produção é mais variada em gêneros, e mais "literária" no sentido moderno, do que a literatura de informação.

Os grandes nomes são Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.

Uma observação útil: as duas vertentes se misturam o tempo todo. As cartas dos jesuítas informam sobre a terra e a gente do Brasil tanto quanto as crônicas dos leigos, e as crônicas dos leigos falam de conversão o tempo todo. A separação serve para estudo, não para a realidade.

4. Características do Quinhentismo

Vamos ver com calma os traços que aparecem, com maior ou menor intensidade, na maioria dos textos do período.

1. Caráter informativo e utilitário

O texto quinhentista quer dizer alguma coisa a alguém, e esse alguém tem poder de decisão. Caminha escreve ao rei, Gândavo dedica sua obra a um dignitário da corte, Gabriel Soares de Sousa redige seu tratado para pedir apoio a uma expedição de busca de minas. É uma escrita com endereço certo e objetivo prático, e a beleza da linguagem, quando aparece, é consequência e não meta.

2. Descrição da terra como riqueza em potencial

A natureza é o grande assunto. O clima é ameno, a terra é fértil, as águas são abundantes, as matas são "formosas". Cada elogio tem um propósito: convencer o leitor de que valeria a pena investir naquele território. Quando Caminha diz que ali, "querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo" por causa das águas que tem, ele não está fazendo poesia. Está fazendo uma espécie de relatório de viabilidade.

Há também um traço curioso, o tom de maravilhamento diante do desconhecido. Bichos nunca vistos, frutas estranhas, aves de cores fortes. Os cronistas tentam explicar o novo com comparações do velho: o clima é parecido com o de Entre-Douro-e-Minho, o fruto tal lembra a pera, o animal tal parece uma raposa. Descrever é traduzir o desconhecido para uma língua que o leitor europeu entenda.

3. O indígena visto de fora

Os povos nativos aparecem em quase todas as páginas, mas sempre pelo olhar do europeu. Nos textos mais antigos, como o de Caminha, predomina a curiosidade: como eles se enfeitam, como comem, como reagem aos objetos que recebem, como dançam. Aparece a ideia de um povo "inocente", sem vergonha da nudez, sem religião definida (do ponto de vista cristão), portanto "fácil" de converter. Nos textos posteriores, sobretudo os jesuíticos, o tom endurece. Passam a chamar a atenção os costumes que os europeus consideravam condenáveis: a antropofagia ritual, a poligamia, a guerra entre aldeias, a "falta" de governo centralizado.

O resultado é uma imagem dividida, ora do "bom selvagem" ingênuo e sedutor, ora do "gentio" bárbaro e perigoso. Em ambos os casos, o indígena é visto como alguém a ser transformado.

4. Finalidade religiosa

O projeto colonial português não se enxergava como puramente econômico. A conversão dos povos "pagãos" era vista como dever da Coroa e justificava a conquista. Por isso a presença do sagrado é constante: missas, procissões, cruzes plantadas, batizados, discussões teológicas sobre a alma dos indígenas. Nos textos jesuíticos, esse traço é o próprio motor da escrita.

5. Eurocentrismo

Tudo é avaliado com base em padrões europeus. O que se parece com a Europa é elogiado, o que se afasta é estranhado ou condenado. A palavra "civilização" só serve para um lado da conversa. Muitos estudiosos apontam esse traço como a marca ideológica principal do período, e não é difícil entender por quê: quem escreve não tem a menor dúvida de que sua cultura é superior.

6. Linguagem simples, direta e documental

Por serem textos de caráter prático, a linguagem é em geral clara, de frases relativamente curtas, com vocabulário do cotidiano e termos de navegação. Não há grande esforço de sofisticação retórica, a não ser em alguns textos jesuíticos e nos poemas. Isso não quer dizer que não haja estilo. Caminha, por exemplo, tem um dom notável para cenas e detalhes, como veremos.

7. Ausência de um "público leitor" no Brasil

Esse ponto é decisivo e tem seção própria mais abaixo. Não havia imprensa, escolas em número relevante nem um público letrado local. Os textos eram escritos para destinatários na Europa.

8. Contato entre línguas

Palavras indígenas entram nos textos, tanto para nomear plantas e animais quanto para designar povos e lugares. Os jesuítas foram além e estudaram o tupi a fundo, escrevendo gramática, poemas e peças de teatro nessa língua. É um dos aspectos mais interessantes do período do ponto de vista linguístico, porque o português que se falaria no Brasil nasceria, em parte, desse contato.

5. A Carta de Pero Vaz de Caminha, passo a passo

Se existe um texto que representa o Quinhentismo, é este. Vale a pena tratá-lo com detalhe.

Quem foi Caminha

Pero Vaz de Caminha era um cavaleiro da corte, nascido no Porto, com experiência administrativa. Embarcou na frota de Cabral com uma função específica: seria escrivão da feitoria que os portugueses pretendiam instalar em Calicute, na Índia. Ou seja, não era navegador, nem soldado, nem escritor profissional. Era um funcionário treinado para registrar, com clareza e precisão, o que acontecia. Isso explica boa parte da qualidade do texto: a mão de quem escreve é a de um burocrata atento.

Caminha nunca chegou a exercer o cargo. Morreu em Calicute, no final de 1500, durante um ataque à feitoria recém-instalada.

O que a carta relata

A carta narra os dias em que a esquadra permaneceu na costa, de 22 de abril a 2 de maio. É dirigida ao rei dom Manuel I e escrita em tom respeitoso, com fórmulas de cortesia que hoje soam solenes ("Senhor", "Vossa Alteza"). O texto segue uma ordem quase cronológica:

  • a viagem até o avistamento da terra e os primeiros sinais (aves, ervas flutuando);
  • o primeiro contato, na praia, com um grupo de homens armados de arcos e flechas;
  • as tentativas de comunicação por gestos, as trocas de presentes (um barrete vermelho por um cocar de penas, por exemplo);
  • a descrição minuciosa dos corpos, dos adornos, das pinturas e da nudez dos indígenas;
  • a celebração de missas, a primeira em 26 de abril e outra em 1º de maio, com a presença dos nativos observando e imitando os gestos dos portugueses;
  • a descrição da terra e a avaliação de seu potencial;
  • o fecho, com o pedido pessoal de Caminha.

Um episódio que ficou famoso é o de Diogo Dias, um homem "gracioso e de prazer", segundo o escrivão, que tocou gaita e dançou com os nativos na praia, arrancando risadas e aproximando os dois lados. É uma cena bonita e cheia de humanidade, que mostra como o contato podia, por instantes, escapar ao roteiro das intenções oficiais.

A imagem dos indígenas

Caminha descreve as pessoas com um misto de admiração e assombro. Fala de corpos bem feitos, de pintura no rosto e no corpo, de enfeites de pena, de ossos nos lábios. Dá atenção especial à nudez, que ele registra sem escândalo, quase com surpresa por ela não parecer causar vergonha nenhuma aos donos. Escreve que os indígenas lhe pareciam "gente de tal inocência" que, se ambos os lados se entendessem, "seriam logo cristãos", porque não tinham nem entendiam crença alguma. Essa frase resume a lógica do projeto: a suposta ausência de religião aparece como vantagem, um terreno em branco à espera de sementes.

Vale ler essa passagem com cuidado. Ela mostra um olhar curioso e até simpático, mas também mostra como o observador já enxerga o outro como matéria-prima de um plano: converter, ensinar, moldar. A "inocência" do indígena é, ao mesmo tempo, elogio e diagnóstico de quem se acha no direito de intervir.

A terra e o famoso "pedido"

Sobre o território, Caminha faz uma constatação que decepcionaria qualquer investidor: até ali, escreve, não haviam visto ouro, prata nem qualquer metal. Mas logo emenda com o elogio da terra, de bons ares, cheia de águas, tão graciosa que nela "se dará tudo". E fecha o raciocínio com uma frase que muitos professores destacam: o melhor fruto que dela se poderia tirar lhe parecia ser salvar aquela gente, e essa deveria ser a principal semente que o rei ali lançasse.

Ou seja, o escrivão dá ao rei uma justificativa de alto nível para ocupar o lugar, e a justificativa não é econômica. É religiosa.

Depois vem o toque humano: nas últimas linhas, Caminha pede a dom Manuel um favor pessoal, a libertação de seu genro, Jorge de Osório, que estava exilado na ilha de São Tomé. Esse pedido, embutido no fim do relato mais importante da história do Brasil, é um bom lembrete de que os textos quinhentistas são feitos por gente de carne e osso, com interesses próprios, escrevendo em um sistema de favores e proteções.

Por que a carta ficou escondida por séculos

Aqui a história é curiosa. O documento foi enviado a Lisboa em 1500 e ficou guardado no arquivo real da Torre do Tombo. Não foi impresso nem circulou. Só foi redescoberto no século XVIII, em 1773, por um funcionário do arquivo, e a primeira publicação aconteceu em 1817, no livro Corografia Brasílica, do padre Manuel Aires de Casal. Ou seja: por mais de trezentos anos, nem os portugueses nem os brasileiros leram a carta. Ela só ganhou o status de "certidão de nascimento do Brasil" depois de publicada, quando o país, já independente ou quase, procurava suas origens e seus símbolos.

Isso é um dado relevante para o debate sobre o que é ou não é literatura brasileira: um texto que ninguém leu durante séculos dificilmente influenciou escritores da época. A importância que ele tem para nós hoje vem de uma valorização posterior.

Como ler a Carta hoje

Uma boa forma de ler o documento é ter em mente três camadas ao mesmo tempo:

  • A primeira é a camada documental: o que aconteceu, quem estava lá, o que se viu.
  • A segunda é a camada ideológica: o que o autor escolhe destacar, o que omite e como enquadra o outro.
  • A terceira é a camada literária: o ritmo da narrativa, o olho para os detalhes, as cenas vívidas.

Quem lê só a primeira camada perde o essencial, e quem lê só a segunda pode esquecer que Caminha era um bom escritor.

6. Outros textos da literatura de informação

A carta de Caminha é o mais lembrado, mas está longe de ser o único.

Pero Lopes de Sousa e o Diário de Navegação

Em 1530, uma expedição comandada por Martim Afonso de Sousa (irmão de Pero Lopes) percorreu a costa brasileira para explorar, combater contrabandistas franceses e demarcar terras. Pero Lopes escreveu o diário dessa viagem, um registro cronológico de rotas, ventos, portos, encontros e episódios. É um texto seco, de marinheiro, útil como documento sobre o litoral do século XVI. O diário só foi publicado no século XIX.

Pero de Magalhães Gândavo

Gândavo é um dos autores mais interessantes do período. Era um homem letrado, ligado ao meio intelectual de Lisboa, e escreveu duas obras sobre o Brasil: o Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, esta última impressa em Lisboa em 1576. O livro descreve o território, as capitanias, os animais, as plantas e os povos indígenas, e tem uma intenção clara: atrair colonos portugueses para a terra nova, convencendo-os de que ali era possível prosperar.

Uma passagem de Gândavo ficou célebre e rende até hoje análises críticas. Ele afirma que a língua dos indígenas do litoral carecia das letras F, L e R, "coisa digna de espanto", porque assim os nativos não teriam fé, lei nem rei. É uma frase reveladora: o cronista lê a ausência de três sons como sinal de ausência de religião, justiça e governo. Um traço linguístico é convertido, sem nenhum constrangimento, em julgamento moral e político. Para quem estuda o período, é um exemplo perfeito de como o preconceito estruturava a observação.

Gabriel Soares de Sousa e o Tratado Descritivo do Brasil

Gabriel Soares de Sousa foi um senhor de engenho baiano, homem rico, com muito conhecimento prático da terra. Em 1587, redigiu o Tratado Descritivo do Brasil, uma obra vasta que descreve a costa, os rios, as plantas, os animais e os povos, com enorme detalhe. O tratado tinha um objetivo prático: o autor queria financiamento da Coroa para uma expedição ao interior em busca de minas. O texto ficou manuscrito por séculos e só foi impresso no XIX, mas hoje é uma das fontes mais valiosas para historiadores, botânicos e antropólogos interessados no Brasil quinhentista.

Fernão Cardim

Padre jesuíta, chegou ao Brasil em 1583 acompanhando o visitador da Companhia de Jesus. Escreveu tratados sobre a terra, os indígenas e o clima, além de um relato da viagem pelas aldeias e colégios jesuíticos. Por isso é um caso "de fronteira": sua obra é de informação, mas seu olhar é o de um religioso, e tudo é dito com a intenção de mostrar o trabalho missionário.

Os estrangeiros: Staden, Léry e Thevet

Vários europeus não portugueses escreveram sobre o Brasil no século XVI, e seus relatos alimentaram a imaginação da Europa:

  • Hans Staden, alemão, foi capturado pelos tupinambás nos anos 1550 e passou meses entre eles, sob ameaça constante de ser devorado. Voltou para casa e publicou, em 1557, um livro com xilogravuras impressionantes, que mostrava cenas de antropofagia e virou best-seller.
  • André Thevet, frade e cosmógrafo francês, participou da tentativa francesa de criar uma colônia na baía de Guanabara (a chamada França Antártica) e publicou em 1557 um livro sobre a experiência.
  • Jean de Léry, pastor calvinista francês, esteve na mesma colônia e publicou, em 1578, uma narrativa detalhada e cheia de simpatia por muitos aspectos da vida indígena. O livro é frequentemente citado como uma das primeiras obras de antropologia da história.

Esses três autores não escreveram em português e dificilmente se encaixam no rótulo de "literatura brasileira", mas fazem parte do quadro do período, porque mostram como o Brasil era visto e disputado no século XVI.

7. A literatura jesuítica: Nóbrega, Anchieta e companhia

A Literatura Jesuítica - Manuel da Nóbrega, José de Anchieta e Companhia

Os jesuítas foram, sem exagero, os principais "escritores" do Brasil quinhentista. Eram letrados, dominavam o latim, tinham obrigação de escrever cartas periódicas aos superiores e, em muitos casos, aprenderam a língua tupi para pregar. Deixaram um volume enorme de documentos, muitos deles reunidos depois em coleções de cartas e crônicas.

A chegada e o método

A primeira missão jesuítica chegou ao Brasil em 1549, junto com Tomé de Sousa, sob a liderança de Manuel da Nóbrega. Eram seis padres e irmãos, um número pequeno para uma tarefa gigantesca. O método era conhecido: aprender a língua da região, viver perto das aldeias, ensinar a doutrina, batizar e criar comunidades de convertidos, os chamados aldeamentos ou missões. A estratégia incluía atrair as crianças, mais moldáveis, e usar a música, o teatro e a pintura como ferramentas pedagógicas.

Vale dizer, sem rodeios: a atuação dos jesuítas teve dimensões contraditórias. Por um lado, eles criticaram a escravização indígena praticada pelos colonos e tentaram proteger os índios de alguns abusos. Por outro, trabalharam para desestruturar as culturas nativas, combateram rituais e crenças tradicionais e pavimentaram, com seu trabalho, a integração forçada dos indígenas à ordem colonial. A literatura jesuítica carrega esses dois lados.

Manuel da Nóbrega (1517-1570)

Português, doutor em direito canônico, Nóbrega chefiou os jesuítas no Brasil e se tornou o primeiro provincial da ordem na colônia. Foi um homem de ação, presente na fundação de Salvador, de São Paulo de Piratininga (1554) e do Rio de Janeiro, e teve papel importante nas negociações de paz com os tamoios.

Como escritor, deixou sobretudo cartas, que somam um retrato preciso da colonização nascente. Também escreveu a Informação das Terras do Brasil (1549), o Diálogo sobre a Conversão do Gentio (em torno de 1557) e outros textos. O Diálogo é especialmente interessante: apresenta uma conversa entre dois irmãos jesuítas que discutem as dificuldades e os métodos da catequese. É uma forma literária típica do humanismo renascentista, com personagens que debatem para chegar a conclusões. Nesse texto e nas cartas, Nóbrega expõe sem disfarce o que pensava dos indígenas e quais medidas considerava necessárias para "civilizá-los": abandono da antropofagia, da poligamia e dos costumes considerados incompatíveis com o cristianismo, aliados a alguma dose de coerção.

José de Anchieta (1534-1597)

Se você tiver que lembrar de um único nome da literatura jesuítica, é este.

Anchieta nasceu em San Cristóbal de La Laguna, na ilha de Tenerife, nas Canárias, filho de pai basco e mãe canária. Estudou em Coimbra e ingressou na Companhia de Jesus ainda adolescente. Chegou ao Brasil em 1553, com apenas dezenove anos, e atuou principalmente em São Vicente, em São Paulo de Piratininga (onde ajudou a fundar o colégio que deu origem à cidade de São Paulo) e no Espírito Santo. Aprendeu tupi com rapidez e passou a usar a língua nos sermões, nos versos e no teatro. Morreu em 1597, na aldeia de Reritiba, hoje cidade de Anchieta, no Espírito Santo. Foi canonizado em 2014, e no Brasil ganhou o apelido de "Apóstolo do Brasil".

Sua obra é variada e cobre praticamente todos os gêneros da produção jesuítica:

  • Gramática: A Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, impressa em Coimbra em 1595, foi a primeira descrição sistemática do tupi. Serviu de manual para os missionários e é hoje uma fonte fundamental para o estudo da língua tupi antiga. Sem ela, saberíamos muito menos sobre esse idioma.
  • Poesia: Anchieta escreveu poemas em latim, português, espanhol e tupi. O mais célebre é o Poema à Virgem (De Beata Virgine Dei Matre Maria), um longo poema em latim, com milhares de versos, composto em 1563 durante a estadia do padre em Iperoig (atual Ubatuba), quando ele e Nóbrega estavam entre os tamoios como mediadores de paz. A tradição conta que Anchieta teria composto os versos de memória, riscando algumas partes na areia da praia por falta de papel, e só os teria passado a limpo depois. A lenda é bonita e provavelmente exagerada, mas o poema existe e é uma obra de fôlego.
  • Teatro: Aqui está uma das contribuições mais originais. Anchieta escreveu autos, peças curtas de assunto religioso, encenadas em festas e procissões, em tupi, português, espanhol e latim, muitas vezes na mesma peça. Eram apresentadas ao ar livre e misturavam música, dança e diálogo. Havia personagens santos, anjos e demônios, e os demônios, curiosamente, recebiam nomes de chefes indígenas ou de figuras da cultura tupi. Em Na Festa de São Lourenço (também chamado Auto de São Lourenço), por exemplo, aparecem diabos chamados Guaixará e Aimbiré. É uma escolha reveladora: a peça usa a linguagem e os símbolos dos próprios indígenas para associá-los ao mal, e a força pedagógica está justamente nisso. Outras peças conhecidas são o Auto da Pregação Universal e diversos textos encenados em vilas e aldeias.
  • Cartas e informações: Como todos os jesuítas, Anchieta escreveu cartas periódicas, e muitas delas são fontes ricas sobre a vida na colônia, a natureza local e os costumes indígenas.

O pesquisador Alfredo Bosi, um dos maiores críticos literários do país, escreveu sobre Anchieta um ensaio famoso em que chama a atenção para o caráter dividido de sua obra: a delicadeza com que o padre lida com a língua e a cultura tupi convive com a determinação de substituí-las pela fé cristã. É uma leitura que ajuda a evitar tanto a idealização do santo quanto a condenação simplista.

O teatro jesuítico como ferramenta

Vale insistir no teatro, porque é um dos aspectos mais interessantes do período. Numa sociedade em que quase ninguém sabia ler, o palco era um veículo poderosíssimo. A encenação tinha cor, música, gesto, e podia ser entendida por quem não conhecia uma única letra. Os jesuítas perceberam isso cedo e usaram o recurso de modo sistemático, adaptando os métodos do teatro religioso europeu (os autos medievais e a tradição de Gil Vicente em Portugal) ao contexto colonial. Por isso o teatro de Anchieta é lembrado como a primeira forma de literatura dramática produzida em território brasileiro.

8. Linguagem e estilo dos textos quinhentistas

Se você abrir a Carta de Caminha em edição fac-similar ou em transcrição paleográfica, vai estranhar. O português do século XVI é diferente do nosso em vários pontos: a ortografia era instável (a mesma palavra podia aparecer escrita de duas ou três maneiras no mesmo parágrafo), certas formas verbais já caíram de uso e a sintaxe tem um andamento mais longo, com frases que se estendem em séries de orações ligadas por "e".

Mesmo assim, é possível apontar algumas características gerais:

  • Vocabulário náutico e cotidiano: Termos de navegação (nau, batel, âncora, esquife) misturados a palavras do dia a dia.
  • Indigenismos: Nomes de povos, plantas, animais e lugares em tupi, às vezes aportuguesados, às vezes só transcritos. Palavras como "pindoba", "carijó" e "tupinambá" aparecem nos textos, e muitas outras entraram de vez no português brasileiro (mandioca, abacaxi, jaguar, capim, entre incontáveis).
  • Fórmulas de tratamento: Vocativos cerimoniosos ("Senhor", "Vossa Alteza") que marcam a relação de submissão do autor ao destinatário.
  • Comparação com a Europa: O recurso mais comum para descrever o desconhecido: o clima "como o de Entre-Douro-e-Minho", os frutos "como as peras", os animais "como raposas".
  • Sintaxe de relato: Predominância de orações que narram e descrevem, com poucas construções abstratas ou reflexivas, na maior parte da literatura de informação.
  • Retórica nos textos religiosos: Nos sermões e diálogos jesuíticos, aparecem perguntas retóricas, argumentos em cadeia, exemplos bíblicos e outros recursos da tradição oratória.

Um efeito interessante do contato com o tupi é que o português brasileiro começa a se distinguir do europeu bem cedo, primeiro no vocabulário e, com o tempo, em outros aspectos. Nos primeiros séculos, aliás, o tupi (na forma da chamada "língua geral") foi mais falado do que o português em vastas regiões do Brasil, especialmente em São Paulo e no Norte. Só no século XVIII, com medidas do marquês de Pombal, o português foi imposto oficialmente. Os textos quinhentistas registram o início dessa convivência linguística.

9. Quem lia esses textos?

Essa pergunta é decisiva para entender o Quinhentismo, e a resposta é: quase ninguém, no Brasil.

Não existia imprensa na colônia. A primeira tipografia só chegaria de fato ao Brasil com a corte portuguesa, em 1808 (houve tentativas isoladas antes, logo reprimidas). As escolas eram poucas e quase todas ligadas aos jesuítas. A maioria da população, incluindo os colonos, era analfabeta. Os indígenas, evidentemente, tinham suas próprias tradições orais, mas não liam nem escreviam em português.

Isso significa que os textos quinhentistas, em sua maioria, circulavam de duas maneiras:

  1. Como correspondência oficial e manuscrita: enviada a Lisboa ou a Roma, lida por poucas pessoas (o rei, seus conselheiros, os superiores jesuítas) e depois arquivada.
  2. Como livros impressos na Europa: como foi o caso da História da Província de Santa Cruz, de Gândavo (Lisboa, 1576), da gramática de Anchieta (Coimbra, 1595) e dos relatos de Staden e Léry, voltados a leitores europeus.

Muitos textos importantes, como a carta de Caminha e o tratado de Gabriel Soares de Sousa, ficaram guardados por séculos e só ganharam leitores no século XIX, quando historiadores e literatos interessados em contar a história do Brasil independente foram atrás desses arquivos.

Uma consequência disso é que a literatura quinhentista não formou uma tradição. Um autor não lia o outro, não respondia ao outro, não dialogava com um público local. Cada texto era uma peça isolada, produzida sob demanda. É um dos motivos pelos quais alguns críticos duvidam do uso da palavra "movimento".

10. O olhar do colonizador e as vozes que faltam

Um artigo educativo sobre o Quinhentismo não pode ignorar o problema: quem escreve, escreve de um ponto de vista. Nesse caso, o ponto de vista é o de europeus com interesses bem definidos na terra que descrevem.

Os textos do período retratam os indígenas de três formas principais:

  • Como curiosidade exótica: A nudez, os enfeites, a pintura corporal e as festas são narrados com espanto e fascínio. É o tom de Caminha, em boa parte.
  • Como criança a ser educada: Os indígenas seriam "inocentes", "sem lei nem rei", prontos a serem moldados. Esse é o olhar paternalista, típico dos jesuítas, e às vezes dos cronistas.
  • Como ameaça ou selvageria: Sobretudo quando se fala da antropofagia e da guerra, os relatos assumem tom de horror e condenação. Nesses momentos, o "gentio" aparece como barbárie que precisa ser contida.

Nenhuma dessas imagens é neutra, e nenhuma foi produzida pelos próprios indígenas. Os povos tupis, jês, guaranis e tantos outros tinham suas literaturas, feitas de mitos, cantos, narrativas de origem, discursos rituais, passadas de geração em geração pela oralidade. Essa produção era complexa e rica, mas não deixou registro escrito daquela época, e boa parte se perdeu com a destruição dos povos e das línguas. O que sabemos do mundo indígena do século XVI chega até nós filtrado pelos olhos de quem os conquistou. Ao estudar o Quinhentismo, vale sempre se perguntar: o que este autor deixou de dizer? O que ele não podia ver? Quem não teve direito à palavra?

É por isso que muitos pesquisadores contemporâneos, inspirados em estudos pós-coloniais e na antropologia, preferem ler esses textos como documentos de um encontro desigual, em vez de simples "primeiras páginas da nossa literatura". E é também por isso que pensadores indígenas atuais têm reivindicado o direito de contar essa história a partir de outro lugar.

11. Quinhentismo é literatura brasileira?

Quinhentismo é Literatura Brasileira? Relato, Catequese e Brasil

Chegamos ao ponto mais interessante e mais polêmico. Nos livros didáticos, o Quinhentismo costuma ser apresentado como "o primeiro movimento literário brasileiro". Boa parte dos historiadores literários faz ressalvas a essa fórmula.

O argumento a favor

Quem defende a inclusão argumenta que, embora não fossem "literatura" no sentido moderno, esses textos usam recursos literários, como narrativa, descrição, metáfora, diálogo e verso. Além disso, tratam do território que viria a ser o Brasil, registram a formação do nosso vocabulário e ajudam a explicar como a nossa imagem inicial foi construída. Nesse sentido, seriam as "raízes" de uma tradição posterior.

Também se observa que a distinção entre "documento" e "literatura" é historicamente móvel. No Renascimento, a fronteira entre relato de viagem, tratado científico e texto literário era muito mais frouxa do que hoje. Muitos leitores da época apreciavam essas narrativas justamente pelo gosto da aventura e pela beleza da descrição.

O argumento contra

O crítico Antonio Candido, em Formação da Literatura Brasileira (1959), propôs um critério que se tornou clássico: para haver literatura de um país, é preciso um sistema, ou seja, escritores conscientes, um público que os leia e uma tradição que passe de uma geração a outra. Sob esse critério, o Brasil só teria literatura, no sentido pleno, a partir do Arcadismo (meados do século XVIII), quando surgem autores brasileiros que dialogam entre si e com um público local. Tudo o que veio antes seriam "manifestações literárias", isoladas e dependentes da matriz portuguesa.

Alfredo Bosi, na História Concisa da Literatura Brasileira, trata os textos do século XVI como literatura de informação e catequese, respeitando suas particularidades e evitando confundi-los com uma literatura nacional já formada. Outros historiadores, como Sílvio Romero em outro momento, chegaram a tratá-los como pré-literatura.

Uma posição razoável

Talvez a resposta mais honesta seja esta: o Quinhentismo não é um movimento literário no sentido estrito, mas é a primeira camada de escrita sobre o território brasileiro, e por isso ocupa um lugar legítimo na história da nossa cultura escrita. Estudá-lo permite entender de onde vieram muitas imagens que persistem (a terra paradisíaca, o índio inocente ou bárbaro, a riqueza a ser explorada) e como elas foram construídas. Chamar esse período de "primeiro movimento" é uma convenção escolar. Saber que é uma convenção é parte do bom estudo.

12. Do Quinhentismo ao Barroco

O fim do Quinhentismo costuma ser marcado por 1601, ano da publicação de Prosopopeia, de Bento Teixeira. O poema foi impresso em Lisboa e canta os feitos de Jorge de Albuquerque Coelho, donatário de Pernambuco. Tem noventa e quatro estrofes em oitava rima e versos decassílabos, seguindo de perto o modelo camoniano de Os Lusíadas. O autor era português de nascimento, mas viveu muitos anos no Brasil, em Pernambuco e na Bahia, e foi processado pela Inquisição por ser cristão-novo (descendente de judeus convertidos).

Por que essa obra marca a passagem para o Barroco? Em parte, porque sua linguagem, com metáforas elaboradas, mitologia clássica e tom de exaltação, já antecipa o gosto barroco. Em parte, porque os historiadores precisavam de uma data-limite, e a publicação de um poema épico sobre feitos coloniais serviu bem. Mas a passagem, na prática, foi gradual, e alguns autores de transição, como o padre Fernão Cardim e o cronista Frei Vicente do Salvador (cuja História do Brasil é de 1627), continuaram produzindo textos com traços quinhentistas em pleno século XVII.

A tabela a seguir compara as duas fases:

Aspecto Quinhentismo (1500-1601) Barroco (1601-cerca de 1768)
Foco principal Informar sobre a terra e catequizar Expressar conflitos entre fé e prazer, céu e terra
Linguagem Simples, direta, descritiva Rebuscada, cheia de figuras (metáforas, antíteses, hipérboles)
Gêneros Cartas, diários, crônicas, autos, gramáticas Poesia lírica, sátira, sermões, poesia épica
Nomes centrais Caminha, Gândavo, Nóbrega, Anchieta Gregório de Matos, Padre Antônio Vieira, Bento Teixeira (transição)
Público Reis, autoridades, superiores religiosos Elites coloniais, clero, círculos letrados urbanos
Circulação Manuscritos e edições europeias Manuscritos, sermões proferidos, algumas edições

13. Tabela resumo: autores e obras

Para facilitar a revisão, aqui vai um quadro geral com os principais nomes e obras do Quinhentismo:

Autor Obra Data aproximada Vertente Destaque
Pero Vaz de Caminha Carta a el-rei dom Manuel sobre o achamento do Brasil 1500 Informação Primeiro relato escrito sobre o território; descreve terra e indígenas
Pero Lopes de Sousa Diário de Navegação 1530-1532 Informação Registro da expedição de Martim Afonso de Sousa
Manuel da Nóbrega Informação das Terras do Brasil; Diálogo sobre a Conversão do Gentio; cartas 1549 a 1560 Catequese Fundador da atuação jesuítica; expõe método e dificuldades da conversão
José de Anchieta Arte de Gramática; Poema à Virgem; autos; cartas 1553 a 1597 Catequese Primeira gramática do tupi; teatro em várias línguas
Hans Staden História Verdadeira 1557 Informação (estrangeiro) Relato de cativeiro entre os tupinambás
André Thevet As Singularidades da França Antártica 1557 Informação (estrangeiro) Relato sobre a colônia francesa no Rio
Pero de Magalhães Gândavo História da Província de Santa Cruz; Tratado da Terra do Brasil 1570 a 1576 Informação Obra impressa que busca atrair colonos
Jean de Léry Viagem à Terra do Brasil 1578 Informação (estrangeiro) Visão calvinista, considerada precursora da antropologia
Gabriel Soares de Sousa Tratado Descritivo do Brasil 1587 Informação Enorme descrição de natureza, povos e economia açucareira
Fernão Cardim Tratados da Terra e Gente do Brasil fim do séc. XVI Informação e catequese Relato de jesuíta sobre aldeias, plantas e costumes
Bento Teixeira Prosopopeia 1601 Transição para o Barroco Poema épico em oitava rima, modelo camoniano

14. Linha do tempo

  • 1500: Cabral chega ao litoral sul da Bahia. Caminha escreve a carta ao rei dom Manuel I.
  • 1530-1532: Expedição de Martim Afonso de Sousa, registrada no diário de Pero Lopes.
  • 1532: Fundação de São Vicente.
  • 1534: Criação das capitanias hereditárias.
  • 1549: Chegada de Tomé de Sousa, do primeiro grupo de jesuítas (com Nóbrega) e fundação de Salvador.
  • 1553: Anchieta chega ao Brasil.
  • 1554: Fundação do colégio jesuíta de São Paulo de Piratininga, que daria origem à cidade de São Paulo.
  • 1555: Início da França Antártica, colônia francesa na baía de Guanabara.
  • 1557: Publicação do livro de Hans Staden na Alemanha.
  • 1563: Nóbrega e Anchieta em Iperoig, negociando com os tamoios; composição do Poema à Virgem.
  • 1565: Fundação do Rio de Janeiro por Estácio de Sá.
  • 1567: Expulsão definitiva dos franceses da Guanabara.
  • 1576: Impressão da História da Província de Santa Cruz, de Gândavo.
  • 1578: Publicação do livro de Jean de Léry.
  • 1587: Redação do Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa.
  • 1595: Impressão da gramática de Anchieta em Coimbra.
  • 1601: Publicação da Prosopopeia, de Bento Teixeira, marco da transição para o Barroco.

15. O que o Quinhentismo deixou de herança

Mesmo sem ter formado uma tradição literária contínua, o Quinhentismo deixou marcas profundas na cultura brasileira, e elas reaparecem em momentos diferentes da nossa história.

A imagem da terra paradisíaca. A ideia de um país de natureza exuberante, de "em se plantando, tudo dá", vem em linha reta dos primeiros relatos. Ela reaparece no Romantismo (o culto à natureza tropical) e no ufanismo de várias épocas.

O indígena idealizado ou demonizado. As duas figuras nascem no século XVI. Voltam com força no Romantismo, quando José de Alencar e Gonçalves Dias transformam o indígena em herói nacional, em obras como Iracema e I-Juca-Pirama. A imagem do "bom selvagem" que aparece ali tem parentesco direto com o olhar de Caminha.

A releitura modernista. Em 1924, Oswald de Andrade lançou o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, e em 1928 o Manifesto Antropófago, que faziam uma leitura irônica e crítica desse passado. O poeta recuperava a carta de Caminha e outros textos do período, escrevia paródias em forma de poemas curtos e propunha "devorar" a cultura europeia em vez de simplesmente imitá-la, invertendo o sentido negativo que a antropofagia tinha nos textos quinhentistas. Num de seus poemas mais lembrados, "Erro de Português", ele brinca com a história do "descobrimento" e sugere que a colonização teria sido menos uma dádiva do que um constrangimento. Vale a pena ler o texto original de Oswald depois de ter lido Caminha: o diálogo é evidente.

A questão da língua. O tupi deixou marcas em milhares de palavras, em topônimos por todo o país (Ipanema, Itapevi, Guanabara, Paraná) e na própria construção do português brasileiro. A gramática de Anchieta é, ainda hoje, uma fonte para linguistas e para comunidades que tentam recuperar suas línguas.

A reflexão crítica sobre a colonização. Talvez a herança mais valiosa seja a possibilidade de reler esses textos com perguntas novas: quem tinha voz? Quem foi silenciado? Que interesses moldaram as narrativas? Essa leitura crítica é hoje central nos estudos literários e históricos.

16. Como estudar para o Enem e os vestibulares

O Quinhentismo aparece com frequência em provas, geralmente de duas formas: pedindo que o estudante reconheça um trecho (por exemplo, um fragmento da Carta de Caminha ou de um texto jesuítico) ou pedindo que ele interprete a visão de mundo que o texto revela. Algumas dicas práticas:

  1. Aprenda a distinguir as duas vertentes. Se o trecho descreve terra, plantas, animais e costumes com tom de relatório, provavelmente é literatura de informação. Se traz sermão, diálogo religioso, verso devocional ou preocupação com conversão, é literatura jesuítica.
  2. Fique atento ao ponto de vista. Muitas questões perguntam quem fala, para quem, com que objetivo. Lembre que o narrador é europeu, escreve a uma autoridade e olha o indígena de fora.
  3. Associe autor e obra. Caminha e a Carta, Anchieta e a gramática, o teatro e o Poema à Virgem, Gândavo e a História da Província de Santa Cruz, Nóbrega e o Diálogo. Isso resolve boa parte das questões diretas.
  4. Entenda o contexto. Colonização, mercantilismo, Padroado, Contrarreforma e Renascimento são as palavras-chave históricas que ajudam a interpretar quase qualquer trecho.
  5. Leia pelo menos um trecho original. Ler dez linhas da Carta de Caminha vale mais do que decorar dez resumos. As edições escolares costumam trazer o texto com ortografia atualizada e notas explicativas.
  6. Cuidado com armadilhas de datas. O Quinhentismo termina em 1601, mas várias obras associadas a ele só foram publicadas séculos depois. Fique atento à diferença entre a data em que o texto foi escrito e a data em que foi impresso.

17. Perguntas frequentes

O que é Quinhentismo em poucas palavras?

É o conjunto de textos produzidos no século XVI sobre o Brasil e no Brasil, em geral por portugueses (e alguns estrangeiros), com finalidade informativa e religiosa. Divide-se em literatura de informação e literatura de catequese.

Quando começou e quando terminou o Quinhentismo?

Começa em 1500, com a Carta de Caminha, e termina em 1601, com a publicação da Prosopopeia, de Bento Teixeira, que inaugura o Barroco. As datas são convenções escolares.

Por que esse nome?

Vem de "quinhentos", termo usado em Portugal para o século XVI, os "anos quinhentos", acrescido do sufixo -ismo, típico de nomes de escolas literárias.

Quais são as duas vertentes do Quinhentismo?

A literatura de informação, composta por cartas, diários e crônicas que descrevem a terra e os povos, e a literatura de catequese, produzida pelos jesuítas para converter os indígenas, com cartas, poemas, teatro e gramáticas.

Quais são os principais autores do Quinhentismo?

Pero Vaz de Caminha, Pero Lopes de Sousa, Pero de Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Sousa, Fernão Cardim, Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Entre os estrangeiros, Hans Staden, Jean de Léry e André Thevet.

Qual é o primeiro texto do Quinhentismo?

A Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1º de maio de 1500, é considerada o primeiro documento escrito sobre o Brasil e, por isso, o marco de abertura do período.

Quinhentismo é mesmo literatura brasileira?

Depende do critério. Para quem exige um sistema de autores, público e tradição (como Antonio Candido), a literatura brasileira só se forma no século XVIII. Para outros, esses textos são as raízes da nossa escrita. Muitos estudiosos concordam que o Quinhentismo é melhor entendido como literatura sobre o Brasil, feita por europeus, no contexto da colonização.

Qual a diferença entre Quinhentismo e Barroco?

O Quinhentismo tem linguagem simples e finalidade prática (informar e catequizar). O Barroco, que vem depois, tem linguagem rebuscada, e trabalha conflitos espirituais e contrastes entre o mundano e o divino, com figuras como Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira.

Por que a Carta de Caminha é tão importante?

Porque é o primeiro relato escrito do encontro entre portugueses e indígenas no território que se tornaria o Brasil. Ela documenta a paisagem, os povos e as intenções da Coroa, e virou fonte para historiadores, professores e artistas. O fato de ter sido conhecida só em 1817 mostra como sua importância foi construída depois.

Anchieta foi o primeiro escritor do Brasil?

Depende do que se chama de escritor. Caminha escreveu antes, e Nóbrega foi contemporâneo. Mas Anchieta é considerado o autor mais importante da literatura jesuítica, por sua variedade (gramática, poesia, teatro, cartas) e pelo trabalho com a língua tupi.

18. Conclusão

Leitora lendo livro com atenção

O Quinhentismo é um assunto mais interessante do que sua fama escolar sugere. Por baixo da lista de nomes e datas existe uma história de encontro, ambição, fé, medo e desigualdade, contada por gente que tinha muito a ganhar com o que escrevia. Os textos do século XVI descrevem um lugar novo, mas dizem tanto sobre quem os escreveu quanto sobre a terra que retratam.

Saber ler essas páginas com olhos atentos é uma das melhores maneiras de entender de onde vêm certas imagens do Brasil que persistem até hoje. Quando alguém diz que aqui "tudo dá", está repetindo Caminha sem saber. Quando fala do índio como criança ou como selvagem, reproduz categorias que os jesuítas fixaram há quase cinco séculos. E quando um poeta modernista pega esses textos e os vira do avesso, ele mostra que a literatura, mesmo a mais antiga, continua aberta a novas leituras.

Se você está estudando para uma prova, os tópicos deste artigo dão uma boa base. Se está lendo por curiosidade, vale o convite: procure a Carta de Caminha numa edição comentada, leia algumas páginas e reserve um momento para pensar em quem estava do outro lado da praia naquele dia, olhando para aqueles homens estranhos que chegavam do mar. É uma pergunta que a carta não responde, e que a literatura brasileira, séculos depois, continua tentando responder.

19. Para ler mais

  • Bosi, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix. Clássico de referência, com capítulos sobre a literatura de informação e a jesuítica.
  • Bosi, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras. Inclui ensaio sobre Anchieta e reflexões sobre a cultura colonial.
  • Candido, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul. Obra essencial para entender o debate sobre o início da literatura nacional.
  • Cortesão, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Estudo clássico do historiador português sobre o documento.
  • Leite, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Obra de referência sobre a atuação jesuítica, escrita a partir de dentro da ordem (convém ler com senso crítico).
  • Ribeiro, Darcy. O Povo Brasileiro. Panorama da formação social do país, útil para o contexto histórico.
  • Viveiros de Castro, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem. Antropologia sobre os povos tupis e a visão de mundo indígena, importante contraponto aos relatos dos cronistas.
  • Textos primários: a Carta de Caminha, a História da Província de Santa Cruz (Gândavo), o Tratado Descritivo do Brasil (Gabriel Soares de Sousa), as cartas de Nóbrega e Anchieta e o Diálogo sobre a Conversão do Gentio, todos disponíveis em edições modernas e em acervos digitais como a Biblioteca Nacional Digital e o Domínio Público.
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