Capítulo 5 — O Sindicato dos Mosquitos

Leia o Capítulo 5 de ET Bilú em Ratanabá: O Sindicato dos Mosquitos. Quando a ciência funciona "demais", os mosquitos da Amazônia ganham telepatia, fundam o...

Por Sebastião Victor Diniz | Categoria: Ficção Científica, Comédia, Book List
Ilustração do Capítulo 5 de ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá: O Sindicato dos Mosquitos. Bilú conversando com a presidenta dos mosquitos telepáticos Genivalda e sua pauta de reivindicações na clareira.
Capítulo 5 — O Sindicato dos Mosquitos - ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá

Fundar uma civilização futurista no meio da Floresta Amazônica tem seus desafios. Tem a logística, tem a energia, tem a burocracia (que um dia ganhará um capítulo só para ela). Mas nenhum obstáculo se compara ao de ser, ao mesmo tempo, o fundador e o prato principal.

Bilú acordou às seis da manhã de domingo com a sensação de ter dormido dentro de um liquidificador de agulhas. O mosquiteiro que Dona Zuleide instalara com tanto zelo estava intacto, sem um único furo, o que não impedira os carapanãs de ficarem do lado de dentro — uma violação da geometria que Bilú, em outros tempos, teria achado fascinante. Naquela manhã, estava ocupado demais coçando.

Para um carapanã, a pele metálica e reluzente de Bilú era apenas a lata de um refrigerante: um obstáculo simpático entre ele e a bebida. E a bebida, segundo os relatórios posteriores, era excelente.

— Duzentas e trinta e uma — anunciou Dona Zuleide, que tinha marcado as picadas com um toco de lápis no braço dele, uma a uma, e depois contara de novo, porque da primeira vez não acreditara. — Tá até desenhando, olha. Aqui no antebraço parece o Cruzeiro do Sul.

Ela fez uma pausa.

— Eu avisei. Aqui pernilongo é sindicalizado.

Não sabia o quanto estava certa.

Seu Raimundo, que passava com a rede de pesca no ombro, deu uma olhada no braço constelado de Bilú e fez o diagnóstico com a autoridade de quem já viu muito peixe fisgado pelo mesmo anzol.

— Cê é o único bicho da floresta que tem sangue de bebida esportiva, rapaz. Mosquito não é bobo.

— Isotônico? — perguntou Bilú, coçando a orelha esquerda com a mão direita e a nuca com a esquerda, numa coreografia que já começava a ficar automática.

— Que nem o que os jogador toma. Mosquito faz fila.

Perpétua, consultada, confirmou pelos alto-falantes: o sangue de Bilú continha sódio, potássio, magnésio e uma concentração incomum de saudade. O último ingrediente, segundo a nave, não afetava o sabor, mas explicava a insistência.

Naquela manhã, Bilú tinha três prioridades, e a ordem entre elas mudava conforme o grau de coceira: consertar o motor da nave; aprender a perguntar (conforme prometera a Dona Adalgisa, o que exigia atravessar o rio de dia, sem o baixo e sem pressa); e dormir uma noite inteira. A terceira estava, no momento, disparada em primeiro lugar.

— Bilú — chamou a nave, com a voz seca de quem espera desde ontem. — É amanhã.

— O quê?

— Ontem você disse "amanhã". Hoje é amanhã.

— Hoje eu tenho uma emergência.

— Você sempre tem uma emergência.

— Esta é diferente!

— É a quarta "diferente" da semana.

— • —

Na segunda-feira, primeiro dia oficial do Cursinho Cósmico de Ratanabá (nome escolhido por unanimidade e sem consulta ao diretor), a Professora Socorro chegou antes das sete, de barco, com um quadro-negro de madeira debaixo do braço e a firme intenção de revisar Química.

A revisão durou onze minutos.

Havia duzentos e oitenta e um alunos presentes — "ótima frequência para uma segunda-feira", segundo a Professora — e nenhum conseguia prestar atenção na tabela periódica, porque duzentos e oitenta e um alunos coçavam ao mesmo tempo. O som, ouvido de longe, lembrava uma orquestra de violinos desafinados. Na terceira fileira, Tainá escrevia o rascunho da redação com a mão esquerda, porque a direita estava ocupada nas costas.

— Professor — disse ela, erguendo a caneta sem interromper a coçada —, eu tô fazendo o texto com uma mão e o desespero com a outra.

A Professora Socorro largou o giz.

— Diretor Bilú — disse, num tom que não admitia recurso —, eu já dei aula do primeiro ao quinto ano numa sala só, no meio de piolho, de enchente e de festa junina. Nunca vi uma turma inteira coçar em uníssono. Resolve isso. Ou na sexta eu aplico o simulado de Educação Física, e passa quem correr mais do que o mosquito.

Bilú resolveu tentar tudo.

Dona Almerinda vendia vela de citronela — quatro reais, ou três por dez — e Bilú comprou quarenta. Acendeu todas em volta do cursinho, criando um ambiente que lembrava um culto religioso de limão. Os carapanãs desviaram das chamas com a elegância de um jogador profissional driblando a marcação e continuaram o serviço.

Seu Raimundo trouxe o método milenar da região: uma fogueira de casca de castanha com um pouco de cupim, que Bilú enfrentou durante uma hora inteira, com os olhos marejados e a dignidade em brasa. Saiu de lá cheirando a peixe defumado e a derrota. Os carapanãs esperaram na beira da fumaça, com a paciência de quem tem hora marcada, e voltaram ao trabalho no instante em que ela baixou.

Foi só então que Bilú percebeu, com um arrepio que não era de coceira, que não se tratava de mosquitos. Tratava-se de logística. Os carapanãs chegavam em ondas, com revezamento de turnos: os da primeira leva picavam e se retiravam pela esquerda; os da segunda entravam pela direita; havia até um pequeno batalhão de reserva pairando a três metros de altura, aguardando ordens. Nunca, em toda a história da hematofagia, uma refeição fora tão bem organizada.

Era hora de apelar para a ciência.

— • —

Perpétua cedeu, a contragosto, um oscilador, três cabos e um capacitor que, segundo ela, "se não voltar, não me faça falta". O resto do material veio de onde vinha tudo em Ratanabá: do improviso. Um rolo e meio do papel alumínio de Seu Tonico, enrolado em espiral. Uma casca de coco, que Seu Raimundo garantiu que dava "estabilidade estrutural". E um chapéu, feito com o meio rolo restante e dobrado exatamente como o regatão ensinara, porque Bilú, com a prudência de quem já errou uma vez, não queria correr riscos com o próprio cérebro.

— Bilú — disse Perpétua, enquanto ele soldava o último fio —, o que exatamente você está construindo?

— Um repelente eletromagnético. R.E.M.O.: Repelente Eletromagnético Modular Omnidirecional.

— Remo? — estranhou Seu Raimundo, que acompanhava a obra de braços cruzados. — Remo eu conheço. É o pau que a gente usa pra andar de canoa.

— Este é diferente.

— Ele rema?

— Não, ele repele.

— Então devia chamar Repele.

— Já registrei — disse Bilú, sem olhar para trás.

— Tira esse chapéu, rapaz — pediu Dona Zuleide, que observava de longe com o ar de quem aguenta muita coisa. — Tá parecendo peru de Natal.

— Ele protege o meu cérebro contra as ondas!

— O do peru também protege?

Bilú optou por não responder.

— Bilú — insistiu Perpétua, no tom que ele já aprendera a temer, o tom de quem consultou os números. — A frequência que você calibrou coincide, com margem de erro de zero vírgula dois por cento, com a faixa de ressonância dos gânglios cerebrais de artrópodes voadores.

— Ótimo! Então vai funcionar!

— Ou vai funcionar demais.

— Vai dar bom.

Houve um silêncio. Um silêncio longo, de espaçonave.

— Eu já ouvi essa frase — disse Perpétua.

Ao pôr do sol, quando a primeira nuvem de carapanãs avançou sobre a clareira, Bilú apertou o botão do R.E.M.O.

Um zumbido grave, quase musical, saiu da casca de coco. A espiral de alumínio brilhou em azul. Uma onda invisível atravessou a clareira, arrepiou os pelos dos braços de todo mundo e passou por cima dos carapanãs como um vento bom.

A nuvem parou no ar. Vibrou. E fugiu, em pânico, em todas as direções, com a dignidade de um bloco de carnaval dispersado por temporal.

— FUNCIONOU! — gritou Bilú, subindo nove centímetros de pura alegria. — FUNCIONOU! Eu sou um gênio! Eu sou um...

O resto da frase se perdeu no barulho: da porta do cursinho, a Professora Socorro aplaudia com o quadro-negro, porque era o que tinha nas mãos.

Não deu bom.

Deu certo, que é pior.

— • —

Bilú foi dormir com um sorriso de vitória e o chapéu de papel alumínio, que esqueceu de tirar. Às três da madrugada, acordou por causa do silêncio.

Não é fácil acordar por causa do silêncio. Ele é o tipo de barulho que só existe para quem está acostumado com barulho — no caso, o zumbido permanente de doze mil carapanãs. Do lado de fora do mosquiteiro, não havia zumbido nenhum. Havia atenção. Como se a noite inteira estivesse esperando que ele terminasse de acordar.

Suando sob o chapéu (que, ele reconheceu, era realmente quente), Bilú o tirou para coçar a cabeça.

Boa noite, companheiro.

A voz não vinha de fora. Vinha de dentro. Era como se doze mil pessoas falassem baixinho, em coro, dentro de uma igreja muito pequena. Bilú gritou. Gritou como grita quem acorda às três da manhã com um coro de igreja dentro da cabeça. A rede balançou, o mosquiteiro caiu, e Perpétua acendeu todas as luzes que ainda tinha.

— Bilú? Bilú, você está bem? Detecto atividade cerebral coordenada em aproximadamente trezentos e quarenta mil artrópodes.

— Artrópodes?!

— Mosquitos. Eles estão conversando entre si. E, agora, com você.

— Mosquitos não conversam!

— Estão conversando, Bilú. Em sinapse coletiva. Com todo o respeito: você ensinou telepatia aos carapanãs.

— Eu não ensinei nada!

— Você estimulou. Foi suficiente.

— Você não me avisou!

— Avisei.

— Você disse "ou vai funcionar demais"!

— Exatamente.

Não se assuste, companheiro. Estamos apenas nos apresentando.

Bilú engoliu em seco e fez a única coisa que um diplomata de Neila Torraca podia fazer diante de um coro de mosquitos telepáticos às três da madrugada: sentou-se de costas retas, ajeitou a gola do pijama e respondeu, com educação:

— Boa noite. Com quem eu tenho o prazer de falar?

Meu nome é Genivalda. Tenho dezenove dias de idade, o que, para um carapanã, é uma idade bastante avançada. Sou presidenta da categoria.

— Que categoria?

Ainda estamos discutindo o nome oficial. Provisoriamente: Sindicato.

— Sindicato de quê?

Dos trabalhadores hematófagos, companheiro. Mas antes de qualquer coisa queremos registrar, com todo o respeito, que o senhor é delicioso.

— Obrigado?

Notas de tangerina, cobre e um fundo de saudade interestelar. Corpo médio. Final longo. Colheita: Cambuquira.

Bilú levou a mão ao peito. Era a primeira vez que alguém elogiava o sabor dele. Subiu três centímetros.

Estivemos na aula inaugural. Primeira fila.

— Na primeira fila só tinha capivara.

Em cima das capivaras. Éramos trezentos e quarenta mil. Anotamos tudo. Eu, pessoalmente, achei a parte do emaranhamento a mais bonita.

Bilú se deu conta, com um choque, de que a sala de aula mais lotada da região tinha sido, sem que ninguém percebesse, a garupa de dezessete capivaras — que, é claro, não se queixaram, porque capivara não se queixa de nada.

O senhor disse: "Busquem conhecimento." Nós buscamos. E achamos o senhor.

Nesse ponto, Bilú sentiu que talvez fosse prudente ter cuidado com o que dizia em aula.

— • —

Nas quatro horas seguintes, enquanto Bilú tentava, sem sucesso, voltar a dormir, os carapanãs de Ratanabá realizaram: uma assembleia geral (quórum de doze mil, porque, dos trezentos e quarenta mil filiados, só doze mil apareciam; o resto só aparecia para votar); a aprovação de um estatuto (quarenta e três artigos, sendo o dezessete sobre lanche); a escolha de um nome, definido às 3h47 depois de um debate acalorado: Sindicato dos Mosquitos de Ratanabá (a proposta alternativa, "Associação Recreativa dos Carapanãs", teve dois votos, ambos do delegado dos machos); a eleição de uma diretoria por aclamação; e a criação de uma bandeira: uma gota de sangue sobre fundo negro, com um pequeno ferrão dourado e o lema, em letras miúdas: A LUTA CONTINUA (E O ZUMBIDO TAMBÉM).

A sede foi instalada no oco da castanheira número dois, uma das três que Perpétua derrubara na chegada — justamente a que abrigara o ninho dos tucanos. Sebastião, ao saber, declarou que pediria reintegração de posse. Ninguém teve coragem de lhe explicar que Ratanabá, tecnicamente, não tinha juiz.

A diretoria era formada por quatro figuras. A Presidenta Genivalda, com a autoridade de quem sobreviveu a duas dedetizações e a um vizinho de ventilador. A secretária Ivonete, que anotava tudo, porque em mosquito a memória é curta e a ata é longa. O tesoureiro Gilmar, da Ala Radical, cujo pensamento predominante desde a fundação era "PICAR". E Zé Nectário, delegado dos machos, visto com desconfiança geral: só as fêmeas picam (fato biológico que Genivalda mencionava com orgulho e que Zé Nectário ouvia com a resignação de quem já sabe), e os machos, que só bebiam néctar de flor e por isso nunca tinham calo de trabalho, eram chamados, na linguagem do sindicato, de pelegos.

Ao amanhecer, a categoria já projetava o pensamento para qualquer cérebro num raio de cem metros, o que causou, na comunidade, uma manhã memorável. Dona Zuleide derrubou a cuscuzeira. Seu Raimundo cumprimentou o primeiro delegado que ouviu ("Bom dia."). A Professora Socorro corrigiu a concordância verbal de um dos assessores, que agradeceu. Divino revirou os olhos, o que, para um mico que já tinha cara de fiscal de prova, era uma escalada. E Ronny Explorer, vendo ali uma oportunidade de conteúdo, gravou uma entrevista exclusiva com a Presidenta e postou com o título "MOSQUITO FALA (NÃO É CLICKBAIT)". Onze visualizações. O comentário mais curtido: "ficou bom o CGI, mano". Era o mesmo comentarista.

Foi então que a comissão sindical — doze delegados em formação — pousou na folha de bananeira que Bilú usava como toalha de café e entregou a pauta de reivindicações.

Tainá, que passava com o caderno debaixo do braço, ouviu a pauta por cima do ombro de Bilú (a telepatia, afinal, não pedia licença) e, contra a própria vontade, começou a corrigir.

O Governo de Ratanabá (agente) deve garantir (ação) uma trégua noturna, mediante o fornecimento mensal de quarenta litros de citronela intergaláctica (meio), a fim de assegurar o descanso do companheiro e a digestão da categoria (finalidade), com vigência das dezoito às seis horas e entrega até o dia cinco de cada mês, em recipiente de casca de coco (detalhamento).

— Novecentos e oitenta — sentenciou Tainá, sem levantar os olhos. — Perdeu vinte porque repetiu "hematofagia" quatro vezes.

— Eles tiraram mais que eu! — protestou Bilú, ofendido.

— Eles não falaram "conhecimento" onze vezes.

O documento terminava com um aviso: caso a pauta não fosse atendida até o pôr do sol de terça, a categoria entraria em estado de greve.

— Vocês vão parar de picar?

Pelo contrário, companheiro. A greve do mosquito é trabalhar em dobro. Turno duplo. Sem intervalo.

Como a greve do carapanã consistia em trabalhar mais, e não menos, o poder de barganha do sindicato era, do ponto de vista jurídico, considerado desleal.

— Mas vocês eram só mosquitos! — implorou Bilú.

E o senhor era só um alienígena. Todo mundo evolui, companheiro. A voz de Genivalda tinha um brilho que Bilú não conseguia classificar entre carinho e ameaça. O senhor nos deu consciência. Agora aguente a consciência de classe.

— • —

A mesa de negociações foi montada ao pé da pirâmide central, ao entardecer de terça: uma folha de bananeira estendida sobre duas pedras, cercada de cadeiras de plástico para os humanos. (A Professora Socorro, que era dona das cadeiras de Ratanabá por direito adquirido, cobrou uma taxa simbólica: uma tapioca.) Do lado sindical, doze delegados enfileirados na beirada da folha, cada um com uma plaquinha de identificação feita de um grão de areia e um pontinho de jenipapo. Acima deles, uma nuvem de três mil assessores em formação de plateia, e, no fundo, Sócrates, a capivara, servindo de arquibancada oficial para os que não coubessem no ar, sem manifestar opinião.

Do lado de Ratanabá: Bilú, de terno prateado e chapéu de papel alumínio ("protocolo de segurança"); Seu Raimundo, como assessor sindical ("eu negocio defeso com a Colônia desde 87"); Dona Zuleide, como secretária, com bloquinho e lápis de carpinteiro; Tainá, como redatora oficial da ata; e a Professora Socorro, como observadora educacional. Sebastião assistia de um galho, impedido por conflito de interesses e, discretamente, por apetite.

Bilú abriu a sessão com a pausa dramática que ensaiara e discursou por quatro minutos sobre paz, cooperação entre espécies e os perigos do glúten. Do outro lado da folha, doze delegados vibravam as asas com crescente impaciência.

— Eles estão falando? — perguntou, baixinho.

— Estão — respondeu Dona Zuleide, sem tirar os olhos do bloquinho. — Faz quatro minutos que estão.

— Não estou ouvindo nada.

— É o chapéu. Peru de Natal não escuta.

Bilú tirou o chapéu com a dignidade que ainda lhe restava. A voz entrou de uma vez, como coro de igreja cujo maestro perdeu a paciência:

— ...E ANTES DE TUDO, O RECONHECIMENTO FORMAL DO SINDICATO.

— Eu reconheço!

— Por escrito.

Bilú assinou ali mesmo, com o dedo em jenipapo. Seu Raimundo fechou os olhos.

— Rapaz — disse baixinho —, nunca reconhece antes de ver a pauta.

— Por quê?

— Porque agora eles já têm o que queriam, e a gente ainda não sabe o que eles querem.

— Eita — disse Bilú, com sabedoria tardia.

Começaram pela citronela.

— Quarenta litros por mês? — Bilú não acreditava. — Mas citronela é repelente! Vocês vão ser repelidos!

— A categoria repudia publicamente a citronela.

— Então por que querem quarenta litros?

— Repudiar é uma coisa. Consumir é outra.

— Cheiro bom demais... — deixou escapar, em pensamento alto, alguém da Ala Radical.

— Companheiro Gilmar, fora do microfone.

— Desculpa, presidenta.

— O senhor precisa entender — explicou a secretária Ivonete, com a paciência de quem já explicou aquilo a três assembleias. — Depois de uma noite de trabalho no companheiro Bilú, a categoria sofre de indigestão eletrolítica. Sangue de tangerina é pesado. A citronela é o nosso boldo.

— Tá explicado — disse Dona Zuleide, sem levantar a cabeça do bloquinho. — É pro fígado.

— Fígado de mosquito?

— Boldo é boldo, seja pra gente ou pra bicho.

— Isso é pimenta, rapaz — completou Seu Raimundo. — Todo mundo reclama e ninguém vive sem.

Passaram ao item seguinte.

— Compensação pelo período de trégua — leu Genivalda. — A categoria deixará de exercer sua atividade-fim por doze horas diárias. Exige remuneração.

— Vocês querem ser pagos para não picar?

— Isso aí é seguro-defeso — cochichou Seu Raimundo, cutucando as costelas dele.

— O quê?

— Seguro-defeso. Eu recebo. Quando o peixe tá desovando, é proibido pescar, então o governo paga pra gente ficar em casa. É justo, rapaz. O peixe também precisa de sossego.

— E se o governo atrasar?

— Aí a gente pesca escondido.

— Nós não faremos isso — declarou Genivalda, muito digna.

— Faremos, sim — pensou Gilmar.

— Companheiro Gilmar.

Dona Almerinda, que farejara o negócio a três quilômetros, apareceu com um coco na mão e a serenidade de quem nunca perdeu uma venda.

— Água de coco. Dez litros por semana, entregue de manhã, gelada, preço de amigo. É isotônico natural.

— Aceitamos — anunciou Genivalda, depois de uma consulta telepática de quarenta segundos —, com uma ressalva.

— Qual?

— Que não seja de caixinha.

— Aqui é do pé — respondeu Dona Almerinda, ofendida.

— Fechado.

O item sobre a pista de dança provocou uma pequena crise de identidade em Bilú.

— Acesso irrestrito à pista e camarote sindical na pirâmide central.

— Camarote?

— A categoria trabalha a noite inteira, companheiro. Merece lazer noturno. — Ivonete hesitou, e o pensamento seguinte chegou mais baixo, como quem confessa algo doloroso: — E o baixo da sua nave é a única coisa que nos faz esquecer que temos prazo de validade de vinte dias.

O silêncio que se seguiu foi tão profundo que um grilo, ao longe, decidiu não se manifestar.

— Posso reduzir o volume — ofereceu Perpétua, delicada.

— NÃO! — gritaram doze mil carapanãs, em coro. Três capivaras acordaram.

— Vocês... vão à balada? — Bilú estava com os olhos brilhando em roxo.

— Todas as noites, companheiro. A categoria é fã de "Amanhecido (Extended Mix)". — Genivalda fez uma pausa. — Chora no drop.

Bilú subiu doze centímetros e precisou ser segurado pela barra do terno por Dona Zuleide, que já tinha aprendido o macete.

Foi Dona Zuleide também quem levantou o assunto seguinte, com a voz de quem guardava a pergunta desde o começo:

— E o tapa?

— Extinção do tapa — leu Genivalda.

— De jeito nenhum — disse ela. — Tapa é direito adquirido.

— Tapa é violência.

— Tapa é educação.

A discussão durou quarenta minutos e teve momentos de tensão em que a Professora Socorro tentou mediar e desistiu. O consenso final foi um aviso prévio: antes de cada tapa, o humano gritaria "Olha o tapa!", concedendo à categoria tempo de evacuação. Genivalda pediu cinco segundos. Dona Zuleide ofereceu três. Fechou-se em quatro, com renúncia ao chinelo — salvo em legítima defesa, ressalvou Dona Zuleide.

— Registrado — disse Ivonete.

A Professora Socorro pediu a palavra para uma cláusula própria.

— Em dia de prova, ninguém pica aluno. E zumbido durante a prova conta como cola.

— Aceitável. Em contrapartida, exigimos cotas de trinta por cento nas turmas do cursinho.

A Professora pensou um pouco, cruzou os braços e concordou.

— Mas quem faz prova é cada um por si.

— Nós não temos mãos.

— Então vai ser oral.

— Nós não temos boca.

— Então vai ser prova de probóscide. Eu dou um jeito.

Bilú, que a essa altura já não sabia mais se estava negociando um tratado, presidindo um cursinho ou frequentando uma balada, aproveitou uma pausa e fez a pergunta que vinha guardando:

— E de dia?

— De dia, a categoria está em regime de livre atuação.

— De dia pode? — perguntou, esperançoso, o pensamento de Gilmar.

— De dia pode, companheiro. De dia.

— Ah, de dia pode.

— De dia é comigo — anunciou Dona Zuleide, sem erguer os olhos do bloquinho.

O documento foi batizado, por sugestão de Tainá, de Convenção Coletiva de Trabalho Hematófago 2026/2027, e assinado com toda a pompa possível: Bilú com o dedo em jenipapo; a Presidenta e a diretoria pousando, um por um, sobre a folha de bananeira e deixando cada um a marca de uma patinha. A assinatura coletiva durou quarenta minutos, durante os quais Bilú, Seu Raimundo e Dona Zuleide fingiram interesse em coisas diferentes.

— • —

A primeira noite de trégua foi a melhor da vida de Bilú.

Às dezoito horas e quarenta e cinco minutos — quinze de tolerância, item vinte e dois: "o mosquito também atrasa" —, o último carapanã deixou o último centímetro de pele do companheiro, com uma pequena reverência e um "boa noite" em pensamento. Bilú se deitou na rede com a lentidão de quem não acredita. Não coçou. Não zumbiu. Dormiu doze horas seguidas e acordou com a leveza de quem descobriu que a angústia da escolha, no fim das contas, era em boa parte coceira.

A trégua durou até as seis em ponto. Nem um segundo antes, nem um depois. Foi, descobriu-se, o único tratado de paz do universo conhecido cumprido à risca — e isso dizia muito sobre os mosquitos, e um pouquinho sobre todo o resto.

Às seis e dois, um único carapanã pousou no braço de Seu Raimundo, que passava com a rede no ombro, e ficou em posição de sentido.

Com licença, companheiro.

— Pode — respondeu Seu Raimundo. — Mas é uma só.

É uma só.

— Não abusa.

Jamais.

Picou. Pediu desculpas. Foi embora.

O único incidente do dia aconteceu às seis e quatro, quando Gilmar, da Ala Radical, aproximou-se de Dona Zuleide com intenções duvidosas. Ela gritou "Olha o tapa!" e contou até quatro. Gilmar foi embora no três e meio, com a dignidade ferida e o direito garantido em cláusula. Ivonete registrou: cumprimento integral da cláusula catorze.

Descansado, Bilú sentou-se ao pé da pirâmide central com o café e olhou a lista de prioridades. Com o sono resolvido, a segunda subira ao topo: aprender a perguntar. Ele pretendia atravessar o rio no dia seguinte, de dia, sem o baixo, com toda a humildade. A primeira continuava lá embaixo, onde estava havia semanas, como um tijolo esquecido.

— Amanhã eu... — começou.

— Eu sabia — disse Perpétua.

— • —

Foi quando a Presidenta Genivalda pousou na borda da xícara, às seis e meia, com a formalidade que a ocasião pedia.

Companheiro Bilú. A categoria tem uma informação.

— Pois não?

Nossa rede de inteligência captou movimento no igarapé. Um grupo de humanos. Vinte e três. Com motor, mangueira e picaretas.

— Visitantes! — Bilú abriu um sorriso enorme e subiu quatro centímetros. — Ótimo! Mais público!

Companheiro...

— Sim?

Eles não vêm assistir aula.

— Como a categoria sabe?

Porque a categoria já picou todos eles, e nenhum disse "boa noite" antes de nos esmagar.

Bilú lembrou, de repente, da conversa com Dona Adalgisa: um bicho pior que carapanã.

— Mas pior que vocês? — perguntou, baixinho.

Por isso mesmo, companheiro. Nós somos referência em incômodo. Sabemos reconhecer a concorrência.

Bilú engoliu em seco. Olhou para o rio, para a nave, para a lista de prioridades. Nenhuma das três tinha "picaretas" entre as opções.

— Picaretas? — repetiu, ele, que conhecia a palavra nos dois sentidos, o da ferramenta e o do tipo de gente, e não sabia qual dos dois era mais preocupante.

Dos dois tipos, companheiro.

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