Capítulo 4 — Busquem Conhecimento!

Leia o Capítulo 4 de ET Bilú em Ratanabá: Busquem Conhecimento! A nave Perpétua vira aparelhagem cósmica, a famosa frase ecoa pela Amazônia, a mandioca desba...

Por Sebastião Victor Diniz | Categoria: Ficção Científica, Comédia, Book List
Ilustração do Capítulo 4 de ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá: Busquem Conhecimento! O simpático alienígena Bilú flutuando em seu terno prateado diante das pirâmides luminosas de Ratanabá, cercado por ribeirinhos, animais amazônicos e luzes néon na floresta.
Capítulo 4 — Busquem Conhecimento! - ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá

A primeira pessoa a notar as luzes foi Davi, nove anos, que acordou às três da manhã com uma vontade urgente de fazer xixi e voltou correndo para a rede da avó, gritando que a floresta tinha virado boate.

— Menino, floresta não vira boate — respondeu Dona Cotinha, sem abrir os olhos, com a autoridade de quem já teve essa conversa com três filhos, seis netos e um genro.

— Vira, vó. Tem luz colorida e tudo.

— Se virou boate, cadê a fila?

— Tem fila, vó. De vagalume.

Dona Cotinha abriu um olho. Depois o outro. Depois se levantou, foi até a beira do quintal da comunidade Bom Jesus do Igarapé Fundo e ficou ali um bom tempo, calada, com a xícara de café frio na mão, olhando para a linha escura da mata. Onde devia haver céu preto e estrela, como sempre houve, o horizonte pulsava em verde-limão, magenta, um azul que ninguém tinha nome pra dar e um roxo que deixava o firmamento inteiro parecido com descanso de tela de computador antigo.

E tinha o som. Ninguém na região conseguia classificar aquilo: um meio-termo entre liquidificador apaixonado, sino de igreja afogado e um baixo tão grave que o café na xícara de Dona Cotinha tremia em círculos concêntricos. A batida era regular, teimosa, quase — diriam depois — educada, como se quem tocava estivesse pedindo licença a cada compasso, mas sem a menor intenção de parar.

— É aparelhagem — sentenciou Seu Zeca, o vizinho, debruçado na janela de cueca e opinião. — Só pode. Alguém deu festa lá dentro do mato.

— Aparelhagem tem locutor, Zeca. Cadê o homem gritando o nome da gente?

Fazia sentido. Os dois ficaram parados mais uns minutos, à espera de que uma voz grave e empolgada mandasse um abraço pra galera do Igarapé Fundo. Ela nunca veio.

As notícias, na Amazônia, viajam de três maneiras: de rabeta, por rádio amador e de boca em boca, em ordem crescente de velocidade e decrescente de confiabilidade. Na manhã seguinte, as três vias operavam a pleno vapor, e a floresta inteira já tinha uma teoria. Que era festa de aparelhagem sem locutor. Que era o fim do mundo com trilha sonora. Que era o Boto, só que agora com equipamento profissional. Uma senhora jurava que era a Cobra Grande tentando a carreira de DJ, e ninguém teve coragem de desmentir, porque ela fazia um bolo muito bom.

Nas aldeias da região — porque havia mais de uma, cada qual com seu jeito de encarar o inesperado — a reação foi mais cautelosa. Luz e barulho no meio da mata costumavam significar, por ali, uma coisa só, e não era festa: era gente de fora, com pressa e com ferramenta. Houve reunião. A reunião durou duas horas e meia, que é a duração média de qualquer reunião do mundo, em qualquer cultura, independentemente do tamanho do problema. Ficou decidido que uma pequena comissão iria observar de longe, sem alarde e sem tirar conclusões. Quando a comissão voltou, tinha visto tanta coisa que precisou de uma segunda reunião só para decidir como descrever aquilo na terceira.

— • —

A verdade, que só Bilú e uma espaçonave semimorta conheciam, era mais simples e infinitamente mais constrangedora.

Desde a noite em que as pirâmides acenderam e Perpétua soltou aquele zumbido misterioso, alguma coisa nela tinha voltado a funcionar. Não o motor — o motor, segundo ela, estava de luto. Nem os sensores, que estavam em terapia. O primeiro sistema a acordar foi, por um daqueles desígnios da engenharia cambuquirense que ninguém jamais será capaz de explicar, o módulo recreativo de bordo. E o módulo recreativo de bordo, sem que ninguém pedisse, sem que ninguém autorizasse e sem a menor noção de horário, só sabia tocar uma coisa: "Hits de Cambuquira para Momentos de Crise, Volume 3".

Era música eletrônica, claro. Em Cambuquira tudo era eletrônico, inclusive os grilos. A faixa mais tocada, "Amanhecido (Extended Mix)", era um lamento de nove minutos em memória da padaria do Grande Incidente, com um solo de sintetizador dedicado ao cachorro Trombone. Em Cambuquira, todo mundo chorava no drop.

As pirâmides, por sua vez, tinham descoberto que sabiam converter graves em luz. Ninguém as ensinara. Simplesmente fizeram, como quem descobre aos quarenta anos que sabe assobiar. E o musgo — o musgo que forrava uma grande pedra redonda ao lado da pirâmide central, musgo comum, verde e triste, sem ambição nenhuma na vida — passou a brilhar em néon a cada batida, feito plateia que finalmente encontrou o show de que gostava.

Bilú descobriu tudo às três da madrugada da primeira noite. Dormia numa rede pendurada entre duas pirâmides — o Palácio Presidencial, como ele chamava; a rede pendurada entre duas pirâmides, como dizia Seu Raimundo — e acordou com a nítida impressão de que sua nave estava tendo uma crise existencial a cento e setenta e quatro batidas por minuto.

— Perpétua? — chamou, atravessando o terreno com as pantufas emprestadas de Seu Raimundo, três números maiores que o pé dele. — Você está... tocando música?

A resposta veio dos alto-falantes da nave, que não falavam havia semanas e por isso soaram, a princípio, como uma senhora limpando a garganta depois de um longo silêncio.

— Estou.

Bilú levou as duas mãos ao peito reluzente. Por um instante esqueceu a hora, o barulho e o sono, e abraçou a lataria da nave, que estava quentinha e vibrava.

— Você voltou!

— Parcialmente.

— Senti tanta falta da sua voz!

— Eu estava aqui o tempo todo, Bilú. Em silêncio construtivo.

— Mas por que música?

— Porque foi o único sistema que voltou. Meu motor está de luto. Meus sensores estão em terapia. Meu módulo recreativo, por uma razão que a engenharia de Cambuquira jamais explicará, foi o primeiro a acordar. E só tem uma playlist cadastrada.

— Dá pra baixar o volume?

— Dá. Mas aí as pirâmides apagam.

— E o que tem?

— Tem que, da última vez que eu abaixei, o musgo da pedra ficou com uma cor triste. Não sei se isso é uma metáfora.

Bilú olhou para a pedra. O musgo pulsava em rosa-choque de um jeito esperançoso, quase implorando que ninguém parasse. Bilú suspirou. Nunca soube resistir a um pedido — nem quando vinha de musgo.

— Tudo bem. Deixa tocar. — E, já de costas, lembrando do assunto que andava adiando havia semanas: — Aproveitando, Perpétua, você não poderia consertar o motor?

— Amanhã.

Bilú parou.

— Isso é meu!

— Aprendi com o melhor.

— • —

Nas noites seguintes, o espetáculo se repetiu sem que ninguém — nem Bilú, nem Perpétua, nem Dona Zuleide, que apareceu uma vez, de camisola e chinelo, para mandar o rapaz "botar um pano nessa caixa de som" — conseguisse impedir. E, com o espetáculo, cresceu a plateia.

Seu Raimundo foi, talvez, o caso mais notável de conversão. Nas duas primeiras noites, tratou a música alienígena como poluição sonora. Na terceira, descobriu que os tambaquis do igarapé subiam à superfície no compasso do baixo, e que bastava estender a rede na hora do drop. Dali em diante, passou a tratar a música alienígena como política de Estado.

Bilú percebeu o resto na quarta noite, quando subiu ao alto da pirâmide central para admirar a própria obra e contou, escondidas atrás dos troncos ao redor da clareira, quarenta e sete pessoas. Todas com a discrição de uma escola de samba. Havia gente de canoa, gente de rabeta, gente que tinha caminhado uma hora no escuro só para ver a floresta virar boate e que agora tentava, sem nenhum sucesso, fingir que era árvore. Toda vez que a batida caía, uma cabeça aparecia atrás de um tronco, de queixo caído e olhos brilhando em magenta, para logo sumir, envergonhada.

E do fundo do peito de Bilú subiu uma ideia. Uma dessas ideias que nascem sem pedir licença, no ponto exato onde a solidão, o entusiasmo e a falta de plano B se encontram.

Público.

Público de verdade. Humano. Voluntário. Reunido por conta própria, em pé, no escuro, atrás de árvore, por pura curiosidade — a matéria-prima mais rara e mais preciosa do universo, que ele vinha desperdiçando havia semanas tentando explicar física quântica para capivara.

— Seu Raimundo! — gritou na manhã seguinte, correndo até a casa do amigo com as pantufas batendo na terra. — Eu vou fazer um seminário! O primeiro grande seminário ao ar livre da história de Ratanabá!

— Ratanabá tem três semanas de história, rapaz.

— Por isso mesmo. É o primeiro.

Seu Raimundo, que estava no meio de uma tapioca e de um pensamento, engoliu os dois.

— Cê não ia consertar a nave?

— Amanhã eu conserto.

Seu Raimundo olhou para Dona Zuleide. Dona Zuleide olhou para o teto. Nenhum dos dois disse o que estava pensando, porque, depois de trinta e quatro anos de casamento, não precisavam.

Foi Ronny Explorer quem assumiu a assessoria de imprensa, cargo que ele próprio se atribuiu com a solenidade de um ministro tomando posse.

— Mas tem que ter divulgação, seu Bilú. Cartaz. Chamada. Tem que ter nome bom, data, horário.

Bilú ditou. Ronny anotou. E o resultado, escrito com jenipapo em folhas de bananeira e pregado em cada porto, poste e árvore com tráfego suficiente, dizia:

GRANDE SEMINÁRIO ABERTO

DIFUSÃO DO SABER CÓSMICO

AULA INAUGURAL — SÁBADO, 20H

ENTRADA FRANCA — VAGAS ILIMITADAS

TRAGA CADERNO

— Por que "traga caderno"? — quis saber Bilú. — Eu tinha escrito "traga sua consciência".

— Seu Bilú, ninguém vai trazer consciência. Todo mundo acha que já tem. Caderno é mais concreto.

Bilú, que nunca tivera facilidade com o que era concreto, concordou.

Os cartazes subiram o rio no barco de Seu Tonico, o regatão — vendedor ambulante de rio, que vendia de tudo, de anzol a geladeira usada (procedência duvidosa; caíra do céu, segundo ele) —, em troca de duas tapiocas e da promessa de exclusividade nas vendas. E, como é próprio dos bons vendedores, Seu Tonico resumiu o cartaz durante toda a viagem, de porto em porto, com a eficiência de quem já vendeu geladeira com defeito duas vezes para a mesma pessoa:

— Aula inaugural, de graça, tem vaga, leva caderno.

O que, na cabeça de qualquer brasileiro alfabetizado, só pode significar uma coisa.

E foi assim que o mal-entendido começou a subir o rio, de rabeta, à velocidade de um mal-entendido.

— • —

O sábado amanheceu com cara de dia de festa e cheiro de terno passado.

Bilú ensaiou a manhã inteira. Ensaiou postura, pausa dramática, gesto de braço e três maneiras diferentes de sorrir, tudo diante do reflexo torto que a lataria de Perpétua lhe devolvia. Dona Zuleide, que passara o terno prateado a ferro de carvão, entregou a peça sem uma única dobra e sem nenhum cheiro de fumaça. Foi a primeira vez, em toda a história de Neila Torraca, que o traje oficial de primeiro contato foi derrotado por um amaciante.

A partir das cinco da tarde, começaram a chegar os barcos.

Vieram rabetas, voadeiras, uma canoa a remo com cinco crianças e uma cadeira de plástico. A cadeira de plástico foi o primeiro sinal do que estava por vir. Em qualquer lugar do Brasil, no exato momento em que alguém leva uma cadeira de plástico para um evento, o evento vira, automaticamente, uma aula. Em meia hora, o terreno diante das pirâmides estava organizado em fileiras. Ninguém organizou. As fileiras simplesmente aconteceram, como acontece fila de pão.

Ronny contou quatrocentas e dezessete pessoas — contando as crianças duas vezes, por precaução e por vaidade. Havia também dezessete capivaras, três micos-leões-dourados (dois dos quais ainda fingiam não conhecer o terceiro), um jacaré de intenções indefinidas na beira do igarapé, um papagaio chamado Coronel, que viera no ombro de Dona Almerinda e imitava qualquer coisa que ouvisse, sem o menor juízo, e uma quantidade suspeitamente alta de pernilongos — carapanãs, no dialeto local —, que ninguém achou preocupante naquele momento.

As capivaras ocuparam a primeira fila. Bilú as reconheceu de longe e sentiu uma emoção tão grande que Dona Zuleide, que já tinha alegado cebola na fundação da cidade, dessa vez alegou poeira. A maior delas, a mais velha e a mais parada, que jamais respondera a uma pergunta na vida, ele havia batizado de Sócrates: nunca respondia nada e, justamente por isso, parecia saber de tudo.

No meio da plateia, sentada com a bolsa no colo e os óculos na ponta do nariz, estava a Professora Socorro, da escola da comunidade Bom Jesus, que ensinava do primeiro ao quinto ano numa sala só, com giz emprestado e paciência própria. Tinha o olhar de quem já corrigira prova demais para acreditar em milagre e que, mesmo assim, tinha levado caderno.

Na última fila, de braços cruzados, com o ar de quem veio conferir e não confraternizar, um grupo da aldeia: Dona Adalgisa, uma senhora miúda de olhar afiado, a quem ninguém jamais perguntara a idade, porque ela dava um número diferente por dia, por esporte; sua neta Tainá, dezessete anos, caderno de espiral debaixo do braço e lápis atrás da orelha, do jeito de quem sabe que aula é coisa séria; e dois rapazes que tinham vindo pela festa e ficaram por vergonha de ir embora.

Divino, como sempre, tinha assumido seu posto ao pé da pedra fundamental, com cara de fiscal de prova.

Às oito em ponto — Bilú aprendera pontualidade em novela, onde os personagens sempre chegam no último segundo —, a música baixou até virar um zumbido, e as pirâmides reduziram o brilho ao de uma lâmpada de sala. O silêncio que se seguiu tinha textura. Quatrocentas e dezessete pessoas prenderam a respiração ao mesmo tempo, e três capivaras, por coincidência, também.

Então Bilú apareceu no alto dos degraus, de terno prateado, ajeitou a gola, respirou fundo e começou a descer a escada.

Só que não desceu. Flutuou.

Desde a noite da fundação, Bilú andava notando uma mudança discreta: quando ficava muito emocionado, seus pés perdiam o compromisso com o chão. Primeiro um milímetro. Depois, um dedo. Naquela noite, empolgadíssimo, foram quatro centímetros — descoberta que ele fez ao tentar pisar num degrau que já não estava exatamente embaixo dele. Pelos vinte degraus seguintes, deslizou sem tocar em nenhum, com a dignidade imperturbável de quem finge que aquilo estava no roteiro.

Um murmúrio percorreu a plateia.

— Tem fio — sussurrou alguém.

— Fio nenhum.

— Então é ímã.

— Ímã gruda, Zé, não levita.

— Então é coisa do sobrinho da Almerinda.

— Eu não fiz nada! — gritou Ronny, ofendido, de algum lugar do fundo.

A dúvida científica só foi resolvida quando um menino de dez anos, cuja avó lhe ensinara a duvidar de tudo, tirou o chinelo e o arremessou por baixo de Bilú. O chinelo atravessou do outro lado sem resistência nenhuma. Houve um silêncio respeitoso. A banca examinadora concluiu, por unanimidade: flutua mesmo.

Vale registrar que Bilú era baixinho. Cabia numa canoa com sobra e, mesmo contando as antenazinhas da nuca, não chegava ao queixo de Seu Raimundo. Era reluzente, simpático, e tinha aquele jeito de sorrir com o corpo inteiro que só têm as criaturas que nunca ouviram um "não" de vizinho. A combinação — figura miúda, sorriso largo, flutuando sem pressa a alguns centímetros do chão — provocou na plateia uma reação que nenhum discurso jamais provocaria: simpatia imediata, integral e sem reservas. Ninguém, em lugar nenhum do mundo, consegue sentir medo de uma coisa que flutua e sorri desse jeito. É uma limitação da espécie.

Bilú alcançou a grande pedra, que o musgo, sentindo o peso da ocasião, iluminou num verde-limão solene, e subiu nela, porque discurso sem palanque, dizia ele, é conversa. Ficou ali, com quatro centímetros de ar entre os pés e o néon, o que lhe dava a aparência de estar ao mesmo tempo em cima da pedra e um pouquinho acima dela. Uma metáfora, evidentemente, que ninguém percebeu.

Então, com a pose de quem sabe que a História está tomando nota e provavelmente vai errar a grafia, Bilú da Silva ergueu o braço reluzente, encheu o peito e proferiu aquelas duas palavras que, dali em diante, seriam gravadas em pedra, camiseta e adesivo de para-choque:

— BUSQUEM CONHECIMENTO!

A floresta devolveu o eco, com atraso e sem paciência: mento... mento... mento...

Um silêncio profundo. Um grilo, em algum canto, pediu desculpas.

Do ombro de Dona Almerinda, o papagaio Coronel, que jamais decorara uma piada inteira na vida, gritou, com o sotaque exato de Bilú:

— BUSQUEM CONHECIMENTO!

Foi, provavelmente, o único aluno da noite que decorou a matéria inteira.

Perpétua, que entendera a deixa, devolveu a batida em volume moderado. A plateia aplaudiu de pé. A maioria aplaudia porque a frase soara bonita. Alguns, porque a música tinha voltado. A Professora Socorro aplaudia porque reconhecia um slogan de cursinho quando ouvia um — e aquele era dos bons.

— Meus caros! — prosseguiu Bilú, de braços abertos, com uma pausa dramática que ele ensaiara quarenta e sete vezes diante de uma lataria. — Meus caros terráqueos, minhas caras terráqueas, meus bem-amados! O Universo está aberto para ingresso! Ingressem! Ingressem no Universo!

Ocorre que, no português falado naquele lado do rio, "universo" e "universidade" eram, nos momentos de esperança, quase a mesma palavra — e Bilú, que aprendera a língua com novelas, jamais tivera a chance de ser corrigido nessa distinção.

— As provas estão em toda parte! — continuou. — Nas estrelas! No orvalho! Nas folhas! A aprovação é iminente, meus bem-amados! E o melhor: o conhecimento não cobra mensalidade!

Na terceira fileira, uma senhora levou a mão ao peito e sussurrou "graças a Deus". Foi nesse exato instante, segundo os historiadores de Ratanabá — que naquela época eram a Professora Socorro e um caderno —, que a palavra "cursinho" foi pronunciada pela primeira vez, em voz baixa, por alguém que já não conseguia esconder a esperança.

— • —

E a aula começou.

Bilú foi pelo básico. Com um gesto, fez as pirâmides desenharem no céu, em linhas de plasma dourado, a equação mais famosa do universo conhecido, do desconhecido e da maioria dos bares.

E = mc²

— Essa eu conheço! — gritou alguém no fundo.

— Einstein!

— Essa cai!

— Isso cai na prova? — perguntou um rapaz de boné, o lápis já a postos.

Bilú refletiu com a seriedade de um sábio.

— Tudo cai, meu bem — respondeu, com doçura. — Gravidade.

A plateia inteira anotou: TUDO CAI. A Professora Socorro sublinhou duas vezes.

No meio da segunda hora, um zumbido diferente cortou o ar: agudo, mecânico, terrestre. Era o drone de Ronny, comprado em doze parcelas numa loja da cidade, filmando o evento em "ângulo cinematográfico". O drone durou quatro minutos. Sebastião, de plantão no alto da castanheira, considerou aquilo violação flagrante do Decreto Aéreo nº 1 (o único de Ratanabá), decolou com um grasnido de sirene e interceptou o aparelho com uma manobra que teria feito qualquer piloto de caça chorar de inveja. O drone caiu no igarapé. Houve um plof.

— FALTAVAM NOVE PARCELAS! — gritou Ronny, de joelhos na lama.

Sebastião pousou num galho, limpou o bico com dignidade e olhou para Bilú com a cara de quem apenas cumpre a lei. Divino desceu do pé da pedra, pegou uma hélice que tinha ficado para trás e a guardou como troféu. Ninguém questionou.

Bilú passou então para a física quântica, que, para ele, era a poesia da matéria e, para quatrocentas e dezessete pessoas de chinelo, era mais ou menos o mesmo que grego.

— Vejam bem, meus queridos — explicou, gesticulando —, na escala das partículas, as coisas só assumem uma forma definida quando alguém as observa, viu, meu bem?

— Espera aí — interrompeu Seu Raimundo, da terceira fileira, coçando o queixo. — Tá dizendo que meu peixe só existe se eu olhar?

Bilú levou as duas mãos à boca.

— O senhor entendeu o observador!

— Explica por que ele some quando eu viro de costas.

— EXATAMENTE!

Na plateia, um pescador assentiu para outro, num gesto de respeito profissional. Seu Raimundo cruzou os braços com a satisfação de quem acabara de ter a vida inteira validada pela ciência.

— E tem ainda o emaranhamento — prosseguiu Bilú. — Duas partículas que ficam ligadas, e o que acontece com uma acontece com a outra, não importa a distância.

— Igual rede com anzol — completou Seu Raimundo.

— Isso!

— Não sai nem com reza.

— Isso, Seu Raimundo!

Foi a primeira vez na história que a mecânica quântica foi explicada do ponto de vista de um pescador, e a comunidade científica internacional, se soubesse, teria pedido a apostila.

— E o motor da nave, rapaz? — perguntou Dona Zuleide, lá do fundo, aproveitando que estava todo mundo ali.

— Isso é assunto pro próximo capítulo.

— Que capítulo?

— É uma expressão.

Bilú aprendera aquilo em novela, onde toda pergunta incômoda se resolvia com uma frase dessas, seguida de um corte para o comercial. O narrador desta história, que também adora novela, acha a expressão excelente e pede licença para continuar usando.

Chegou então a hora do tema mais urgente e mais grave da noite: o perigo cósmico do glúten.

Bilú baixou a voz. As pirâmides baixaram o brilho. A música sumiu. Ele contou, sem pressa, a tragédia do Grande Incidente do Pão Amanhecido: a padaria que desabou sobre si mesma, os três primos de segundo grau do prefeito, o cachorro Trombone. Quando chegou no cachorro, a Professora Socorro precisou tirar os óculos.

— E é por isso — concluiu — que eu vim avisar a todos vocês: o glúten é o inimigo!

Fez-se um silêncio educado. E foi então que, do fundo da clareira, uma voz miúda e nítida cortou o ar:

— Moço.

— Pois não?

Era Dona Adalgisa, sem se levantar.

— A gente não come trigo.

Bilú piscou.

— Não?

— Mandioca. Beiju, tapioca, farinha, tucupi, tacacá. Trigo veio depois, e só chega quando o barco chega.

Bilú abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. O brilho da pele oscilou do dourado ao verde-limão, sinal — que Seu Raimundo já aprendera a reconhecer — de que ele estava tendo uma epifania.

— Vocês... — sussurrou — estão há milhares de anos no movimento antiglúten... e ninguém me avisou?

— Toma uma tapioca, moço — ofereceu Dona Almerinda, surgindo do meio da plateia com um prato na mão e a serenidade de quem já vendeu comida em cinquenta eventos.

Bilú deu uma mordida. O silêncio que se seguiu durou onze segundos. A pele dele acendeu, uma a uma, todas as cores que a música ensinara ao musgo.

— Isso é... — disse, com a voz embargada — a comida perfeita.

— É goma de mandioca com um pouco de coco — respondeu Dona Almerinda. — Três reais.

A mandioca, convém registrar, já era cultivada por povos que viviam ali muito antes de qualquer pirâmide de barro e plasma. E Bilú, que atravessara bilhões de quilômetros para alertar o universo sobre o glúten, descobriu que a solução estava, o tempo inteiro, num prato de beiju.

— Mandioca a gente já tinha antes do seu foguete — acrescentou Dona Adalgisa, sem rancor nenhum, com a doçura de quem apenas registra um fato na ata.

— Minha senhora — respondeu Bilú, com uma reverência que quase o derrubou da pedra —, acabo de aprender mais com a senhora do que em três aglomerados galácticos.

Restava a paz mundial.

Bilú respirou fundo e entregou a parte do discurso que mais ensaiara. Falou da guerra e da esperança; falou dos povos que se olham e não se enxergam; falou do trânsito, do vizinho e do abraço; e encerrou, com a voz trêmula, dizendo que, no fim das contas, era só isso: paz.

Ninguém aplaudiu de imediato. Do fundo da clareira, uma mão se ergueu.

Era Tainá, caderno em riste, lápis pousado sobre a página como quem vai assinar uma sentença.

— Professor — disse ela.

Bilú sentiu uma coisa estranha. Era a primeira vez que alguém o chamava de professor, e a palavra encaixou nele como se sempre tivesse tido aquele formato.

— Isso foi o quê? Uma redação?

— Foi... um coração aberto, minha flor.

— Então não vale. Redação tem estrutura. Introdução, desenvolvimento, conclusão. E tem que ter proposta de intervenção: agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. Sem isso, o máximo que eu dou é oitocentos.

— Proposta de... intervenção? — repetiu Bilú, que só conhecia a palavra do vocabulário diplomático.

— Quem vai fazer o quê, como, pra quê e de que jeito exatamente.

— A paz mundial... tem estrutura?

— Toda redação tem.

Bilú fechou os olhos. Aprumou-se, subiu mais dois centímetros — o que o levou a seis — e, com a voz firme de quem sabe que está fazendo história e o coração de quem sabe que vai ser corrigido, declamou:

— A Federação Galáctica — agente — deve promover — ação — seminários gratuitos de difusão do saber — meio — a fim de erradicar a ignorância e o glúten do universo — finalidade —, com início às oito da noite, aos sábados, entrada franca e tapioca disponível na cantina — detalhamento.

Silêncio. Tainá conferiu o caderno, contou alguma coisa nos dedos e ergueu os olhos.

— Novecentos e sessenta.

A plateia explodiu.

— NOTA MIL! — gritou alguém no fundo.

— Não é mil, é novecentos e sessenta — corrigiu Tainá, sem levantar a voz. — O senhor falou "conhecimento" onze vezes. Tem que variar. Saber, aprendizado, sabedoria.

— Mas é o meu lema...

— Lema pode repetir. Redação, não.

Bilú, que jamais na vida recebera uma nota, levou a mão ao peito e ficou olhando para a menina com os olhos brilhando em roxo. Em Cambuquira, a nota máxima era "bom esforço". Ninguém corrigia ninguém. Era muito educado.

— • —

Foi quando a plateia começava a se dispersar em rodinhas, comentando "tudo cai" e "novecentos e sessenta", que Dona Adalgisa se levantou.

Não foi um gesto dramático. Ela se levantou como quem se levanta do sofá para atender a porta, mas a clareira inteira percebeu e, sem que ninguém mandasse, fez silêncio. Vinha devagar, apoiada num cajado que usava mais por estilo do que por necessidade, com a neta dois passos atrás, atravessando as fileiras de cadeiras de plástico. As capivaras abriram passagem, o que já dizia muito.

Bilú desceu da pedra, sempre quatro centímetros acima de qualquer superfície, e parou diante dela. Duas pessoas pequenas, uma flutuando e a outra sem nenhuma necessidade de flutuar.

— Viemos ver se era garimpo — disse Dona Adalgisa, sem preâmbulo.

— Garimpo? — perguntou Bilú. — O que é garimpo?

— Um bicho pior que carapanã.

— Pior que carapanã?! — Bilú coçou a nuca, onde, coincidentemente, uma nuvem de pernilongos fazia ronda com uma regularidade suspeita. — Isso é muito grave.

— É. — Dona Adalgisa olhou para as três pirâmides brilhando. — Isso aí é ouro?

— Barro fundido. Com plasma.

— Ah. Então tá.

O alívio que passou pela última fila foi quase audível. Os dois rapazes descruzaram os braços. Alguém soltou o ar.

— Sei que o senhor não é candidato — continuou ela, avaliando-o de cima a baixo com o olhar de quem já viu muita coisa chegar de fora. — Nem vendedor de enciclopédia. Mas todo mundo que aparece por aqui promete alguma coisa. O senhor é o primeiro que promete só conhecimento. Desconfio, mas gostei do preço.

— A senhora é muito gentil.

— Também soube que o senhor tomou posse desta terra num papel de bananeira.

Bilú engoliu em seco. Ao fundo, Seu Raimundo desviou o olhar para as próprias mãos com um súbito e profundo interesse.

— Foi... simbólica.

— Muito bonito. A gente também tem uns papéis, sabe? Só que os nossos andam devagar. Estão em Brasília, esperando a vez, desde antes de o meu neto mais velho nascer. Ele já tem título de eleitor.

Houve um silêncio. Bilú não entendeu por inteiro o que aquilo queria dizer, mas percebeu, com a sensibilidade que só as criaturas muito ingênuas às vezes desenvolvem, que tinha acabado de ouvir a coisa mais importante da noite, disfarçada de piada.

— Eu... sinto muito — disse, baixinho. — Posso fazer alguma coisa?

— Pode. — Dona Adalgisa apontou com o queixo, porque dedo, segundo ela, era pra coisa importante, a grande pedra coberta de musgo neon. — Essa pedra aí, que o senhor usa de palanque, tem nome. Mas o nome não é meu pra dar de graça a quem chega de música alta.

— Entendo.

— O senhor manda a gente buscar conhecimento. Tá certo. Mas o conhecimento daqui não mora em pirâmide, moço. Mora na cabeça dos mais velhos, do outro lado do rio. E lá o senhor não entra sem pedir licença. De dia. Sem o baixo. E perguntando direito.

Bilú ficou um bom tempo calado. O musgo da pedra, atento, baixou o néon para um verde quase discreto.

— Eu vou aprender a perguntar — disse, por fim.

— Já é meio caminho.

E, virando-se para a neta:

— Vamos, Tainá. A gente já ouviu o suficiente.

— Eu fico, vó. Preciso do simulado.

Dona Adalgisa avaliou a neta por um segundo, com a expressão de quem se reconhece em outra idade.

— Fica. Mas volta antes da meia-noite, que a sua mãe reclama. — E, já se afastando, sem olhar para trás, completou: — Aquele passarinho do senhor tem futuro na fiscalização.

Do alto de um galho, Sebastião inflou o peito. Foi a única vez, na história de Ratanabá, em que se viu um tucano corar.

— • —

Coube à Professora Socorro, que estava com o caderno aberto desde as oito e quinze, dar o passo seguinte.

Ela se levantou, ajeitou os óculos, esperou o silêncio e, com a voz de quem já organizou festa junina com duzentas crianças e uma quadrilha, anunciou:

— Moço, eu quero organizar isso aqui.

— Organizar o quê? — perguntou Bilú.

— O cursinho.

A palavra caiu no meio da clareira como pedra no igarapé.

— O... cursinho?

— Eu ensino do primeiro ao quinto ano numa sala só, com giz emprestado — explicou a Professora, sem rodeios. — Se o senhor está oferecendo aula de graça, eu não pergunto de que planeta. Tenho gente aqui que sonha com faculdade, e o cursinho mais próximo fica a dois dias de barco e custa mais caro que o barco. O ENEM é daqui a cinco semanas. Preciso de turma da manhã, da tarde e da noite. Quem pesca de madrugada vem à tarde.

— Cursinho... — repetiu Bilú, saboreando a palavra. Não sabia o que era, mas soava como um diminutivo carinhoso de "curso", e ele imaginou uma pequena e calorosa civilização de aprendizes, unidos pelo desejo de saber. — Que palavra bonita. Ela abraça.

— É cursinho, sim! — gritou alguém, feliz.

— CURSINHO! — respondeu a plateia inteira, em coro, com o entusiasmo de quem acabou de descobrir que o mal-entendido era uma boa notícia.

— Eu juro — disse Bilú, com a mão no peito, comovido — pela memória de Trombone, que essa turma vai ingressar no Universo.

A Professora Socorro, que não sabia quem era Trombone mas reconhecia um juramento sério quando ouvia um, anotou. E foi assim que Bilú da Silva, que jamais soube o que era vestibular, foi aprovado por aclamação como diretor pedagógico de um cursinho pré-vestibular gratuito no meio da floresta. O detalhe de que ele nunca tivera essa intenção foi discretamente ignorado por todos os envolvidos, inclusive por ele.

Foi então que a plateia, animada, começou a repetir o lema. Primeiro num murmúrio, depois em coro.

— BUSQUEM!

— CONHECIMENTO!

— BUSQUEM!

— CONHECIMENTO!

Ao quinto brado, as três pirâmides responderam. Uma pulsação funda, dourada, subiu pelos degraus, atravessou o musgo e fez a pedra inteira vibrar sob os pés de Bilú — que, por acaso, não estavam encostando nela.

— Bilú — disse a voz de Perpétua, nos alto-falantes.

— Sim, Perpétua?

— Sinal de dados restabelecido.

— Como assim?

— Não sei. Rede aberta: RATANABÁ. Senha: nenhuma. Alcance: seiscentos metros. Estou tão surpresa quanto vocês.

Foi como se trezentas pequenas constelações se acendessem ao mesmo tempo no meio da clareira: trezentos e doze celulares, tirados de trezentos e doze bolsos, iluminando trezentos e doze rostos que, de repente, olhavam todos para baixo.

Um silêncio absoluto, reverente, tomou conta da plateia. Ninguém falava. Ninguém se mexia. Trezentas e doze cabeças curvadas na mesma direção, numa comunhão profunda.

Bilú, de volta ao alto da pedra, levou a mão ao peito, com os olhos cheios de lágrimas.

— Seu Raimundo... — sussurrou. — Eles estão em oração.

— Eles tão no zap, moço.

WI-FI GRÁTIS (MAS A TAPIOCA É PAGA)

— Detecto trezentos e doze dispositivos conectados — informou Perpétua, baixinho, só para Bilú. — Trezentos e nove são celulares. Os outros três estou investigando.

— Investigando como?

— Com preocupação.

Ronny, ainda de joelhos ao lado do que restara do drone (a Professora Socorro chegou a oferecer um minuto de silêncio, e ele aceitou), viu seu vídeo — gravado semanas antes, "CONHECI UM ALIENÍGENA DE VERDADE E ELE TÁ FUNDANDO UMA CIDADE, VOCÊS NÃO VÃO ACREDITAR" — subir de zero a cem por cento, e chorou de novo. Quarenta minutos depois, o balanço: seis visualizações, cinco delas da mãe. O comentário mais curtido dizia: "ficou bom o CGI, mano".

— Ninguém acredita, seu Raimundo — lamentou Ronny, com a dor de um artista incompreendido.

— Ainda bem, rapaz — respondeu Seu Raimundo, sem levantar os olhos da linha de pesca que vinha desembaraçando, um emaranhamento quântico, segundo ele agora, com orgulho nascente. — Por enquanto.

— • —

Foi então que, no bolso do terno prateado, o celular espacial de Bilú — o mesmo aparelho que, semanas antes, fora o pretexto de toda a tragédia — vibrou.

Ele o tirou com os dedos trêmulos. A tela, congelada havia semanas, tinha ganhado vida. A barrinha, coitada, recomeçava a andar: 24%... 25%... 26%...

— Perpétua! O podcast!

— Eu sei.

— Eu vou ouvir o final!

— Eu sei, Bilú. Estou aqui há semanas ouvindo você falar disso.

Foi a barrinha mais longa da história da telecomunicação amazônica. Bilú esperou sentado na pedra, os fones no colo, olhando o número subir — 61%, 78%, 93% — com a devoção de quem acompanha o nascimento de um filho. Ao redor, trezentas e doze pessoas encaravam telas. Ninguém percebeu que o professor, de terno prateado e olhos marejados, também esperava alguma coisa.

100%.

Bilú colocou os fones. Fechou os olhos. Apertou o play num ponto que lembrava vagamente ser perto do fim.

A voz do apresentador, grave, pausada e ligeiramente cansada, encheu os ouvidos dele:

"...e é por isso, meus caros ouvintes, que a angústia da escolha não é um castigo, mas a prova definitiva de que somos livres. Cada decisão nos condena e nos liberta ao mesmo tempo. E, falando em prova: você já garantiu a sua vaga no Cursinho Saber Mais? Aprovação em primeiro lugar! Matrículas abertas!"

O episódio terminou. Bilú tirou os fones, devagar, e ficou um bom tempo olhando para o nada.

Depois olhou para a clareira. Para as trezentas e doze cabeças curvadas sobre as telas e as cem e poucas que não estavam curvadas sobre nada e conversavam com o vizinho de cadeira. Para a Professora Socorro, que já tinha rabiscado no caderno três colunas: manhã, tarde e noite. Para Tainá, com o lápis atrás da orelha. Para Sócrates, que mastigava. Para Divino, de fiscal de prova. Para as três pirâmides pulsando em dourado, como quem também aprovava.

E, pela primeira vez, entendeu. Cursinho não era um abraço coletivo do saber. Cursinho era uma escola. Uma escola de que aquela gente precisava e que não tinha.

— Isso é... uma escola — murmurou.

— É — respondeu Seu Raimundo, sem levantar os olhos da linha. — Desde o começo.

— E por que ninguém me falou?

— Cê tava tão feliz, rapaz.

A pele de Bilú passou do azul ao dourado, do dourado ao rosa-choque e, por fim, se acomodou num tom de âmbar que Seu Raimundo aprendera a reconhecer: emoção.

O universo, pensou Bilú, tinha um senso de humor muito particular. Mas nunca fora desprovido de clareza.

— Está bem — disse, por fim, em voz alta, para ninguém e para todo mundo. — Se o universo insiste em cursinho, cursinho será.

— • —

A matrícula durou até depois da meia-noite.

A Professora Socorro montou uma mesa com três cadeiras de plástico, um caderno de capa dura e a calma de quem já matriculou duzentas crianças numa escola de uma professora só. Nome, comunidade, turno. Quem pesca de madrugada: tarde. Quem trabalha na roça: noite. Quem não sabe: a gente conversa. As dezessete capivaras, depois de alguma meditação, foram registradas como "ouvintes", e Sócrates ganhou a matrícula número um, por antiguidade.

Tainá, que tinha combinado com a avó ficar só até a meia-noite, foi a segunda da fila e a primeira a perguntar pelo simulado.

— Quer ser o quê? — perguntou a Professora, com a caneta pronta.

— Médica. Pela federal. E voltar pra cá pra cuidar da minha gente.

Bilú, que rondava a mesa tentando ajudar sem saber como, subiu mais três centímetros. Foi preciso Dona Zuleide segurá-lo pela barra do terno.

CANTINA DO CURSINHO

Dona Almerinda pendurou uma nova placa ao lado da outra: CANTINA DO CURSINHO. Nunca se vendeu tanta tapioca na história da humanidade.

Seu Tonico, o regatão, que farejara o negócio a quilômetros rio abaixo, já estava com o barco atracado e a mercadoria à mostra: apostilas de Química (edição 2009, "a matéria não envelhece, só o papel"), canetas, cadernos e um rolo de papel alumínio que ele jurava servir para tudo — assar peixe, embrulhar marmita e proteger o cérebro contra onda de rádio, "se dobrar em formato de chapéu".

Bilú olhou para aquele rolo prateado como quem encontra o amor da vida.

— Quanto custa?

— Pro senhor? — Seu Tonico olhou o terno, o brilho, os quatro centímetros de ar embaixo dos pés. — Aceito o que tiver.

Bilú tirou do bolso duas pedrinhas de zulfita, o auge do bom gosto diplomático em Neila Torraca. Seu Tonico examinou uma delas contra a luz do musgo.

— Isso é pra aquário, né?

— É diplomático.

— Fica bonito no aquário.

O negócio foi fechado. Bilú levou dois rolos e a impressão, difícil de explicar, de que aquilo ainda ia render.

— • —

Naquela noite, Bilú dormiu na rede entre as pirâmides, sob um mosquiteiro que Dona Zuleide insistira em instalar "porque aqui pernilongo é sindicalizado" — comentário que ela fizera sem malícia nenhuma e que, dali a poucos dias, ganharia sentido literal e jurídico. Do lado de fora da rede, com a paciência de quem tem todo o tempo do mundo, uma nuvem de carapanãs zumbia num tom organizado demais para ser coincidência.

— Bilú — chamou Perpétua, no escuro, em voz baixinha.

— Hm?

— O motor.

— Amanhã...

— Eu sabia.

Às quatro e vinte da manhã, do alto de uma castanheira, o papagaio Coronel acordou a floresta inteira:

— BUSQUEM CONHECIMENTO!

De algum ponto da escuridão, outro papagaio — de origem desconhecida e matrícula não confirmada — respondeu:

— CAI NA PROVA?

No alto de outra árvore, Sebastião abriu um olho e anotou os dois nomes numa lista mental que ele chamava, com um carinho perigoso, de pendências.

Bilú, dormindo, sorriu.

— Tudo cai — murmurou. — Gravidade.

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