Capítulo 3 — A Pedra Fundamental de Ratanabá
Leia o Capítulo 3 de ET Bilú em Ratanabá: A Pedra Fundamental de Ratanabá. Pirâmides de barro fundido, gambiarra cósmica, a certidão em folha de bananeira e...
Naquela noite, Bilú não dormiu.
Ficou deitado na rede emprestada, o caco de pedra escura girando devagar entre os dedos reluzentes, a mente presa numa espiral que começou como pura autocomiseração — três horas, Bilú, três horas inteiras discursando pra bicho que nem foge de onça-pintada — e terminou, lá pelas três da madrugada, num lugar completamente diferente e infinitamente mais perigoso: inspiração.
Porque, pensando bem — e às três da madrugada, longe de casa, iluminado só pelo próprio brilho metálico, dava pra pensar muito bem —, o problema nunca tinha sido a mensagem. O problema era o palco. Capivaras não eram audiência à altura de física quântica e paz mundial. Faltava-lhes, digamos, infraestrutura civilizacional. E se o universo, na sua indiferença educada, não tinha mandado a plateia certa até Bilú da Silva, restava a Bilú da Silva uma única alternativa lógica, elegante e absolutamente nada megalomaníaca: construir, com as próprias mãos, o lugar certo para recebê-la.
Um centro. Um farol. Um ponto no mapa — ou, considerando o estado do GPS, um ponto fora de qualquer mapa — para onde a sabedoria cósmica pudesse finalmente escoar sem ser interrompida por arrotos de roedor.
Às seis da manhã, ainda com o caco de pedra apertado na mão, Bilú bateu na porta do quarto de Seu Raimundo e Dona Zuleide com a solenidade de quem anuncia uma guerra ou um casamento.
— Eu decidi o que vou fazer da minha vida.
Do outro lado da porta, a voz sonolenta de Dona Zuleide respondeu sem hesitar:
— Vai consertar a nave?
— Vou fundar uma civilização.
Houve uma pausa. Depois, o som inconfundível de Seu Raimundo se sentando na cama, resignado.
— Achava que cê ia falar isso um dia.
A notícia se espalhou rápido — o que, numa região onde a internet chega em rajadas e o sinal de celular é mais teoria do que fato, é dizer bastante. Bastou Dona Zuleide repetir no rádio de pilha, para Dona Almerinda, que "o rapaz brilhante ia fazer uma cidade", e em três dias uma canoa desceu o igarapé trazendo Dona Almerinda em pessoa, dois sobrinhos curiosos, um isopor cheio de refrigerante gelado e a firme intenção de não perder aquele espetáculo por nada neste mundo ou em qualquer outro.
— Então é você o tal do bicho de luz — disse Dona Almerinda, avaliando Bilú com o mesmo ceticismo prático de quem avalia manga no pé para ver se já dá para colher. — Achei que era conversa de novela.
— Sou Bilú, embaixador de Cambuquira, futuro fundador de—
— Ele vai fazer uma cidade aqui — interrompeu Seu Raimundo, poupando a todos vinte minutos de introdução protocolar. — Cidade de verdade. Com pirâmide e tudo.
Dona Almerinda olhou para o isopor de refrigerantes, calculou mentalmente a audiência crescente, e decidiu, com a sabedoria comercial que atravessa gerações, montar uma barraquinha ali mesmo, na beira do que restava de Perpétua. Se ia nascer uma civilização, alguém precisava vender água gelada para quem fosse assistir.
Um dos sobrinhos — Ronivon, dezenove anos, que insistia em ser chamado de "Ronny Explorer" desde que descobrira a existência de canais de aventura na internet — passou a documentar tudo obsessivamente com o celular, apesar de o aparelho não ter sinal nenhum havia dias.
— Vai postar aonde, moleque? — perguntou Seu Raimundo, genuinamente curioso.
— Quando o sinal voltar, seu Raimundo. Isso aqui vai bombar. "CONHECI UM ALIENÍGENA DE VERDADE E ELE TÁ FUNDANDO UMA CIDADE, VOCÊS NÃO VÃO ACREDITAR." Já pensei até no título.
— E se o sinal não voltar nunca?
Ronny considerou aquela possibilidade com o mesmo horror existencial que Bilú reservava exclusivamente ao glúten.
— Aí eu não sei se a gente sobrevive, seu Raimundo. Sinceramente.
Bilú, ouvindo a conversa de longe, decidiu que gostava imensamente daquele rapaz, sem entender exatamente por quê — talvez porque reconhecesse, num nível quase espiritual, um colega de profissão: outro ser disposto a gritar suas convicções mais urgentes para uma audiência que, tecnicamente, ainda não existia.
A construção começou no dia seguinte, e é justo dizer que nenhum manual de arquitetura conhecido — terrestre, cambuquirense ou de qualquer outro lugar — teria autorizado o que aconteceu a seguir.
Bilú tinha tecnologia de plasma, capaz de fundir metal, esculpir pedra e, em teoria, desenhar estruturas geometricamente perfeitas com a precisão de um bisturi cósmico. O que ele não tinha era eletricidade estável, um manual de instruções em português, ou qualquer noção de como aquela tecnologia reagiria a cipós, barro amazônico e folha de palmeira. A solução, evidentemente, foi improvisar — e ali, pela primeira vez, Bilú descobriu que tinha talento genuíno para uma habilidade extremamente terrestre e especificamente brasileira: a gambiarra.
Cipós grossos, trançados por Seu Raimundo com uma destreza de quem já consertou motor de rabeta com arame e fé, viraram andaimes. Placas de plasma, calibradas por tentativa e muito erro para não incinerar ninguém, fundiam barro e pedra em blocos sólidos, dourados, com uma textura estranhamente parecida com a do próprio caco que Divino tinha desenterrado — como se o material, de alguma forma que ninguém ali sabia explicar, "reconhecesse" o comando de Bilú com mais facilidade do que qualquer outra rocha da floresta. Folhas de palmeira, trançadas pelos sobrinhos de Dona Almerinda em troca de refrigerante gelado, cobriam os vãos que a tecnologia deixava abertos. Um rolo inteiro de fita isolante — trazido por Seu Raimundo "só por garantia", e usado, ao final da obra, em quantidades industriais — segurava junções que a física, cósmica ou terrestre, preferia fingir que não estava vendo.
Os animais, para surpresa geral, ajudaram. Não por altruísmo — capivara não tem esse tipo de ambição — mas porque Bilú, num lampejo de genialidade diplomática que ele mesmo reconheceu como sua melhor ideia desde a chegada, descobriu que macacos-prego trabalhavam maravilhosamente bem por pedacinhos de fruta cristalizada, um doce cambuquirense que sobrevivera ao naufrágio guardado no fundo do kit protocolar. Em poucos dias, uma pequena equipe simiesca carregava gravetos, folhas e — em pelo menos uma ocasião documentada por Dona Almerinda com o celular sem sinal, mas com câmera funcionando — uma ferramenta inteira que Seu Raimundo jurou nunca mais ter visto depois.
Divino trabalhava diferente. Não por fruta, nem por curiosidade — o mico-leão-dourado parecia genuinamente possuído por um senso de dever que ninguém conseguia explicar, sempre por perto do caco de pedra, como se montasse guarda. Foi ele quem, numa tarde, arrastou Bilú pelo punho reluzente até um ponto específico do terreno, insistindo, com grasnidos e puxões, que a construção principal fosse erguida ali, e não vinte metros à direita, onde Bilú originalmente planejara. Bilú, sem entender por quê, mas confiando — porque, àquela altura, já tinha aprendido a confiar em Divino mais do que em qualquer instrumento de bordo — mudou os planos.
Foi uma decisão que, mais tarde, se revelaria importante. Mas isso é assunto para outro capítulo.
Sebastião, por sua vez, recusou-se a ajudar em qualquer capacidade, e passou a obra inteira empoleirado no alto de uma castanheira sobrevivente, supervisionando tudo com o mesmo rancor de um síndico observando reforma sem alvará.
No sexto dia, quase deu tudo muito errado.
Uma tempestade de verão chegou sem aviso — como tempestades amazônicas costumam fazer, por pura falta de educação — e a primeira coisa que ela derrubou, antes mesmo das folhas soltas que ainda restavam empilhadas, foi a calibração cuidadosamente improvisada dos emissores de plasma. Um raio caiu perto o suficiente para fazer todo mundo sentir o cabelo (ou, no caso de Bilú, as antenazinhas sensoriais da nuca) se arrepiar, e, num efeito cascata que ninguém tinha previsto, um dos blocos de barro fundido da pirâmide menor começou a rachar, soltando fumaça alaranjada e um zumbido agudo que só podia significar coisa ruim.
— DESLIGA ISSO! — berrou Seu Raimundo, correndo com uma lona que segundos antes cobria o isopor de Dona Almerinda.
— NÃO SEI DESLIGAR, SEU RAIMUNDO, O MANUAL TÁ EM CAMBUQUIRENSE!
Foi Dona Almerinda quem, no meio do caos, teve o lampejo de gênio que só quem já sobreviveu a décadas de enchente do igarapé consegue ter: gritou para os sobrinhos buscarem tudo que fosse de borracha — botas, chinelos, uma câmara de pneu de bicicleta furada que ninguém lembrava de ter trazido — e começou a empilhar aquilo ao redor da base rachada, isolando o vazamento de energia com a mesma displicência genial de quem tapa buraco de telhado com saco de lixo até a chuva passar.
Funcionou. Ninguém, nem Bilú, nem os cambuquirenses mais graduados em engenharia de plasma que ele um dia conhecera, saberia explicar exatamente por que aquilo funcionou. Mas funcionou: o bloco parou de rachar, o zumbido cessou, e a chuva, satisfeita por ter causado o estrago que viera causar, foi embora tão de repente quanto tinha chegado.
Bilú, encharcado, ajoelhado na lama ao lado de uma pilha de chinelos improvisada que literalmente acabara de salvar sua civilização nascente, olhou para Dona Almerinda com uma reverência quase religiosa.
— A senhora... a senhora acabou de inventar uma tecnologia de contenção completamente nova.
— Inventei nada, moço. Isso aqui é só sexta-feira normal na beira do rio.
A partir daquele dia, por precaução — e por uma superstição que ninguém admitia em voz alta, mas todo mundo respeitava —, uma câmara de pneu furada ficou pendurada permanentemente perto da pirâmide central, como amuleto e, tecnicamente, como equipamento de segurança oficial.
Levou onze dias.
No décimo primeiro, ao anoitecer, com o céu virando aquele roxo específico que só existe sobre floresta tropical, Bilú ativou pela última vez os emissores de plasma incrustados na base das três construções — porque eram três, exatamente três, erguidas em triângulo perfeito ao redor do que restava de Perpétua, decisão que Bilú tomou por puro instinto estético e que ninguém, a essa altura da história, estava mais disposto a questionar.
As pirâmides — porque, apesar de feitas de barro fundido, cipó, fita isolante e boa vontade, aquilo eram, inegavelmente, pirâmides — começaram a brilhar.
Não foi um brilho elétrico, artificial, do tipo que se vê em anúncio de loja. Foi um brilho dourado, quente, que parecia vir de dentro da própria pedra, pulsando devagar, no mesmo ritmo — Bilú notou, com um arrepio que não soube explicar — em que sua própria pele reluzente pulsava quando ele ficava emocionado. Vagalumes da região, atraídos pela luz ou talvez reconhecendo ali, finalmente, um parente de verdade, começaram a se aglomerar ao redor das estruturas em nuvens densas, piscando em sincronia, até que a fronteira entre pirâmide e enxame de luz ficou impossível de distinguir a olho nu.
Perpétua, cujos sistemas mal tinham energia para os bipes mais básicos havia dias, escolheu justamente aquele instante para emitir um som diferente de tudo que produzira até então: não um bipe de alarme, não um lamento mecânico, mas algo quase parecido com reconhecimento. Um zumbido longo, suave, sincronizado — por um segundo, só um segundo — com o pulsar dourado das pirâmides ao redor.
Bilú correu até ela.
— Perpétua? Você sentiu isso?
A nave não respondeu. Voltou ao silêncio de sempre, como se tivesse se arrependido de ter dito qualquer coisa. Mas o zumbido tinha acontecido, e Bilú, por mais que tentasse, não conseguiu explicar por que aquele instante específico o deixou mais arrepiado do que qualquer leitura geológica catalogada em seu comunicador rachado.
Dona Almerinda parou de vender refrigerante, pela primeira vez em onze dias, só para olhar.
— Rapaz — disse Seu Raimundo, baixinho, o que para ele já era o equivalente a um discurso inteiro de admiração —, isso ficou bonito pra caramba.
Faltava, porém, o toque oficial.
Bilú explicou — de pé sobre o degrau mais baixo da pirâmide central, a postura ereta, o caco de pedra agora embutido solenemente na base da construção como pedra fundamental, literal e simbólica — que nenhuma civilização de verdade nascia sem documentação adequada. Precisava de um nome oficial (Ratanabá, decidiu, tomando emprestado o termo que Seu Raimundo mencionara na primeira noite, porque, segundo a lógica impecável de Bilú, "se a lenda já existe, alguém em algum momento da história precisa criá-la, e por que não eu, agora, aqui?"), de um fundador devidamente identificado, e de uma certidão.
Pigarreou, ajeitou a postura mais uma vez — hábito que, a essa altura, todos ali já reconheciam como o prenúncio infalível de um discurso longo — e começou, a voz ecoando estranhamente bem contra o barro ainda morno das pirâmides:
— Que fique registrado, para os povos futuros que um dia lerem esta certidão: Ratanabá nasce não da conquista, mas do improviso. Não da guerra, mas da gambiarra. Que os que aqui chegarem, movidos por lenda, por curiosidade ou por pura falta do que fazer num domingo, encontrem não pedras frias de um império que oprime, mas barro quente de um povo que ergueu, com cipó e fé, um lugar para pensar grande sobre coisas pequenas e pensar pequeno sobre coisas grandes. Que a fusão do hidrogênio continue explicando as estrelas. Que a expansão do universo continue nos lembrando da nossa insignificância cósmica coletiva. E que ninguém, jamais, sirva pão de glúten dentro dos limites sagrados desta cidade, sob pena de expulsão sumária e, se necessário, intervenção diplomática.
Houve um silêncio respeitoso — o tipo de silêncio que só existe quando ninguém tem certeza se aquilo foi profundo ou ridículo, e decide, coletivamente, tratar como as duas coisas ao mesmo tempo.
— Bonito, moço — disse Seu Raimundo, secando os olhos, desta vez sem fingir que era por causa de cebola nenhuma. — Bonito pra caramba.
— Cê vai fundar uma coisa que já é lenda? — perguntou, coçando a cabeça, já recuperado. — Isso nem faz sentido, moço.
— As lendas verdadeiras sempre existiram antes de acontecerem, Seu Raimundo. É física quântica básica.
— Não é, não.
— É, sim.
Ninguém, incluindo o próprio Bilú, conseguiu explicar por que aquilo soava convincente às nove da noite, à luz de três pirâmides brilhantes cercadas por vagalumes. Mas soou.
Quanto ao fundador: Bilú anunciou, com a mão sobre o peito reluzente, que assinaria o documento como "Bilú da Silva" — nome que, esclareceu ao pequeno público reunido, não era invenção do momento, mas escolha antiga, feita ainda em Cambuquira, ao longo de uma quarentena de três anos assistindo dezessete novelas brasileiras em loop, quando descobriu que praticamente metade da população daquele país fictício-mas-real se chamava "da Silva", e decidira, ali, sozinho, no conforto do próprio sofá interestelar, que um dia usaria esse nome com orgulho, como quem veste uma roupa emprestada até ela, de tanto uso, deixar de ser emprestada.
— Hoje — declarou, a voz embargada de um jeito que pegou até Seu Raimundo de surpresa —, esse nome deixa de ser só um capricho de quarentena. Vira nome de fundador. Vira nome de família. A família que vocês, sem pedir, se tornaram pra mim.
Dona Zuleide, que não era de se emocionar fácil, precisou secar os olhos na barra do vestido, resmungando alguma coisa sobre cebola que ninguém, incluindo ela mesma, acreditou.
A certidão foi escrita numa folha de bananeira silvestre, larga e firme o suficiente para aguentar caligrafia, com tinta feita de jenipapo amassado pelos sobrinhos de Dona Almerinda — que descobriram, tarde demais, que jenipapo mancha a pele por duas semanas, detalhe que os tornou, involuntariamente, as primeiras testemunhas permanentemente carimbadas da fundação de Ratanabá.
O texto, ditado por Bilú e transcrito por Seu Raimundo numa letra caprichada de quem aprendeu a escrever tarde e por isso escreve com reverência, dizia, em resumo, que Bilú da Silva, embaixador de Cambuquira, tomava posse simbólica daquele pedaço de floresta em nome da paz universal, da difusão do conhecimento cósmico e — porque nenhum documento oficial cambuquirense estava completo sem isso — do combate implacável ao glúten em todas as suas formas.
Assinaram, depois dele: Seu Raimundo, com caneta de verdade; Dona Zuleide, com o mesmo capricho de quem assina caderneta de fiado; Dona Almerinda, exigindo antes que constasse por escrito seu direito de manter a barraquinha de bebidas "enquanto a cidade existir"; e, por fim, os representantes não humanos da nova nação — a pata de Divino, pressionada delicadamente contra a folha e deixando uma marquinha impecável, quase cerimonial; e a pata de uma capivara qualquer, escolhida ao acaso entre as dezessete presentes, que se deixou manusear com a mesma indiferença zen de sempre, sem fazer a menor ideia de que, tecnicamente, tinha acabado de virar cidadã fundadora de um império.
Sebastião recusou-se a assinar. Mas aceitou, depois de muita insistência e a promessa formal de um decreto reconhecendo seu domínio aéreo exclusivo sobre um raio de duzentos metros, o título de Ministro da Fiscalização Aérea de Ratanabá — cargo que ele passou a exercer imediatamente, e com um rigor assustador, grasnando ameaças para qualquer urubu que ousasse sobrevoar o território sem autorização prévia.
Foi por volta das dez da noite, no meio da festa que ninguém tinha decidido oficialmente que era uma festa, que Bilú tentou dançar forró pela primeira — e última — vez em solo terrestre.
O resultado, que Dona Almerinda descreveria depois para quem quisesse ouvir como "um guarda-chuva quebrado tentando se equilibrar numa canoa", envolveu articulações se dobrando em ângulos que nenhuma anatomia terrestre reconheceria como legais, um par de pisões acidentais nos pés de Dona Zuleide (perdoados de imediato, em nome da ocasião histórica) e, em determinado momento, um brilho tão intenso vindo da pele reluzente de Bilú, tomado pela emoção da dança, que Sebastião, lá do alto da castanheira, achou por bem grasnar um aviso formal de "farol aeronáutico não autorizado sobrevoando a pista de dança".
Ninguém ligou. A dança continuou até Bilú, ofegante e radiante, desabar sentado nos degraus da pirâmide — o que, efetivamente, marcou o início do fim da festa.
Era quase meia-noite quando a festa — porque virou festa, com o isopor de Dona Almerinda reabastecido duas vezes e uma sanfona que ninguém sabia de onde tinha vindo — finalmente esfriou, e Seu Raimundo se sentou ao lado de Bilú nos degraus da pirâmide central, os dois olhando para as luzes douradas se refletindo no igarapé.
— Cê sabe que ainda não consertou aquele trem, né — disse Raimundo, apontando com a cabeça para os destroços fumegantes de Perpétua, agora comicamente pequenos ao lado das três pirâmides que os cercavam como cortesãos ao redor de um trono caído. — Fundou um país inteiro e esqueceu da nave.
Bilú olhou para Perpétua. Depois para as pirâmides. Depois, de novo, para Perpétua, que escolheu esse exato instante para soltar um bipe fraquíssimo, quase reprovador, como se tivesse escutado a conversa inteira e discordasse profundamente da ordem de prioridades do próprio capitão.
— Amanhã eu conserto.
— Cê falou isso ontem.
— Ontem eu ainda não era chefe de estado, Seu Raimundo. As prioridades mudam.
— E depois de amanhã? — perguntou Raimundo, sem muita esperança.
— Depois de amanhã eu inauguro o sistema de justiça. Um país não se sustenta sem separação de poderes.
— Bilú.
— Sim?
— Cê tá adiando o motor.
— Estou consolidando prioridades civilizacionais.
— É a mesma coisa, só que com nome mais bonito.
Bilú não teve resposta para aquilo — em parte porque Seu Raimundo estava certo, em parte porque, pela primeira vez em dois dias, o cansaço finalmente vencia até sua infinita capacidade de autoconvencimento retórico.
Ao longe, entre os vagalumes e o brilho dourado das pirâmides, Divino observava tudo do alto da pedra fundamental, com uma expressão que, pela primeira vez desde que se conheciam, não era nem ceticismo, nem indiferença, nem espanto — mas algo mais parecido com vigilância. Como se soubesse, antes de qualquer um ali, que aquela pedra escura embutida na base do templo guardava mais história do que uma simples certidão em folha de bananeira jamais conseguiria registrar.
Mas essa, como sempre, é história para o próximo capítulo.