Capítulo 2 — O Primeiro Contato e as Capivaras

Leia o Capítulo 2 de ET Bilú em Ratanabá: O Primeiro Contato e as Capivaras. Entre discursos intergalácticos, tucanos vingativos e artefatos misteriosos na A...

Por Sebastião Victor Diniz | Categoria: Ficção Científica, Comédia, Book List
Capítulo 2 — O Primeiro Contato e as Capivaras - ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá
O Primeiro Contato e as Capivaras - ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá

O sol nasceu sobre o igarapé como se nada de extraordinário tivesse caído do céu na noite anterior — o que, para ser justo, é exatamente o tipo de coisa que o sol faz todos os dias, em qualquer canto do universo, com uma indiferença admirável.

Bilú, porém, acordou diferente. Acordou com aquela sensação específica de quem dormiu mal não por desconforto físico, mas por excesso de propósito não cumprido. A rede balançava de leve, o cheiro de café passado no coador de pano subia da cozinha, e ele ficou ali, encarando o teto de palha, remoendo um pensamento que se recusava a ir embora: tinha atravessado bilhões de quilômetros, três aglomerados estelares e uma reentrada atmosférica particularmente rude para, no fim das contas, passar a primeira noite na Terra comendo peixe assado e sendo confundido com um saci defeituoso. Isso, decidiu ainda deitado, não podia ser tudo.

— Bom dia, moço brilhante — cumprimentou Dona Zuleide, servindo café numa caneca com estampa de time de futebol que Bilú não reconheceu, mas aplaudiu educadamente mesmo assim. — Dormiu bem na rede?

— Dormi, sim, minha senhora. Mas acordei com uma urgência.

— Urgência de quê? Banheiro é ali atrás, se precisar.

— Urgência diplomática.

Seu Raimundo, na ponta da mesa, desossava um peixe com a mesma concentração tranquila de quem faz palavras cruzadas.

— Cê quer voltar lá no trem que caiu.

— Preciso, Seu Raimundo. Um verdadeiro emissário galáctico não pode simplesmente desistir da própria missão só porque o único público disponível foi uma família de tucanos enlutados.

— E cê acha que vai achar público melhor voltando pro meio do mato?

— Vou proferir o discurso de qualquer maneira. Se as Nações Unidas não vierem até Bilú da Silva, Bilú da Silva discursará para quem estiver disponível.

Dona Zuleide trocou com o marido aquele olhar específico que trinta e quatro anos de casamento transformam numa língua própria, sem necessidade de palavra nenhuma, e comentou, sem erguer os olhos da panela:

— Já liguei o rádio de pilha hoje cedo e contei pra Dona Almerinda, lá da vila de cima, que apareceu um rapaz brilhante caído do céu aqui em casa. Ela não acreditou. Falou que era história de novela.

— E a senhora insistiu?

— Não. Deixei ela achando que é novela. É mais fácil.

Seu Raimundo suspirou, limpou a faca na calça e se levantou.

— Vamo lá, então. Só não briga se a audiência não bater palma.

— • —

O caminho de volta pareceu mais curto do que Bilú se lembrava — a floresta, à luz do dia, era menos hostil e apenas indiferente, o que já era um progresso considerável. Perpétua continuava exatamente onde tinha caído, fumegando bem menos do que na véspera, decorada agora não só pelos tucanos ainda revoltados, mas por uma quantidade impressionante de capivaras espalhadas ao redor da fuselagem como se aquilo fosse, oficialmente, um balneário.

Eram, ao todo, onze. Bilú contou duas vezes para ter certeza.

— Seu Raimundo, por que tem tantas capivaras aqui?

— Capivara gosta de água morna, lama fresca e sombra boa. Sua nave rachou um cano de refrigeração bem ali, virou poça. Isso, pra capivara, é spa de luxo com serviço de quarto.

Fazia sentido, de um jeito profundamente anticlimático. Bilú tinha atravessado o espaço sideral para pousar, sem querer, no meio de um spa de capivaras.

Ao lado do grupo, empoleirado numa raiz exposta, um bicho pequeno e dourado, com uma juba desproporcional para o tamanho, observava tudo com uma expressão que só se pode descrever como profissionalmente cética. Bilú nunca tinha visto nada parecido em nenhum dos três aglomerados que já visitara.

— E aquele ali?

Seu Raimundo semicerrou os olhos, avaliando o bicho com genuína perplexidade — coisa rara nele.

— Esse é estranho. Mico-leão-dourado não é bicho daqui, não. Isso é bicho do Rio de Janeiro, lá da Mata Atlântica, muitos e muitos quilômetros pra lá. Nunca vi um por essas bandas na minha vida inteira. Nem meu avô viu, e meu avô viu de tudo, inclusive um jacaré jogando dominó, segundo ele.

— Talvez ele também tenha se perdido. Como eu.

— Talvez. — Raimundo não pareceu convencido, mas também não pareceu com paciência para insistir no assunto, e virou as costas para catar lenha. — Vou fazer alguma coisa útil enquanto cê resolve sua vida.

No alto de um cambará próximo, imóvel como uma estátua ofendida, Sebastião o tucano observava a cena com o rancor específico de quem ainda não recebeu indenização.

— • —

Antes de mais nada, porém, a ocasião pedia traje adequado. No fundo do mesmo compartimento, dobrado com um cuidado quase cerimonial, esperava o terno prateado oficial de primeiro contato — aquele reservado, segundo o manual protocolar de Neila Torraca, para "ocasiões de contato formal com espécie desconhecida". Tinha sobrevivido à queda razoavelmente bem, à exceção de uma manga irremediavelmente amassada e de um cheiro perene de fumaça que nenhuma tecnologia cambuquirense parecia disposta a remover. Bilú vestiu-o ali mesmo, equilibrando-se sobre um pedaço torto da asa de estibordo, e emergiu dos destroços minutos depois praticamente impecável — praticamente.

Só então vasculhou o que restava do compartimento de carga de Perpétua até encontrar, intacto por pura sorte cósmica, seu kit diplomático oficial: uma bandeira dobrada de Cambuquira — fundo azul-escuro, estrelas prateadas e, bem no centro, o desenho de um pão riscado por uma linha vermelha, símbolo que fazia todo o sentido em casa e nenhum sentido em lugar nenhum do universo conhecido —, um rolo de couro sintético com o discurso escrito à mão em caligrafia cambuquirense, e uma sacolinha de "presentes protocolares": pedrinhas polidas de um mineral local chamado zulfita que, em Cambuquira, representavam o auge do bom gosto diplomático e, na Terra, seriam indistinguíveis de cascalho de aquário.

Ele fincou a bandeira na lama — que imediatamente tombou de lado, porque lama amazônica não respeita cerimônia nenhuma —, ajeitou a postura, subiu no que sobrara do painel de comando de Perpétua, agora um púlpito improvisado com vista privilegiada para onze capivaras e um mico-leão-dourado cético, pigarreou, e começou.

Na primeira hora, discursou com toda a formalidade que a ocasião, a seu ver, exigia.

— Prezados representantes da Terra — anunciou, a voz ecoando entre as castanheiras sobreviventes —, é com imensa honra que Bilú da Silva, embaixador de Cambuquira, terceira lua do aglomerado galáctico de Neila Torraca, se dirige a vocês nesta manhã histórica, em nome da paz entre os povos e da urgente necessidade de repensarmos nossa relação coletiva com o trigo.

As capivaras mastigaram capim. Uma delas piscou, devagar — o tipo de piscada que dura tempo suficiente para parecer intencional.

Bilú interpretou aquilo como um aceno solene de respeito mútuo entre civilizações, e prosseguiu, agora tratando da fusão de átomos de hidrogênio nas profundezas das estrelas, de como cada respiração terrestre carregava, em algum nível subatômico, resquícios de explosões estelares ocorridas bilhões de anos antes de qualquer capivara, tucano ou pescador existir para testemunhar. As capivaras mastigaram capim. Uma segunda piscou. Bilú, radiante, anotou mentalmente: dois terços da audiência já demonstram sinais de iluminação espiritual avançada.

Divino — porque, a esta altura, o mico-leão-dourado já merecia nome próprio, e esta história, sempre generosa, decidiu chamá-lo assim por pura ironia — assistia a tudo com os bracinhos cruzados sobre o peito dourado, numa pose que, em qualquer primata do mundo, significa exatamente a mesma coisa: "não estou gostando disso, mas também, por algum motivo que me é obscuro, não consigo ir embora".

Por volta da segunda hora, Divino tentou.

Levantou-se, deu alguns passos floresta adentro, decidido a abandonar de vez aquele espetáculo de diplomacia unilateral. Sumiu de vista por, no máximo, quarenta segundos. Voltou. Sentou-se de novo na mesma raiz, com a expressão de quem acabou de perder uma aposta feita consigo mesmo.

Dez minutos depois, levantou-se outra vez — desta vez trazendo companhia: mais dois micos-leões-dourados, igualmente fora de seu habitat natural por razões que ninguém ali estava qualificado a explicar, que se sentaram ao lado dele com a mesma expressão de incredulidade solidária de quem chega correndo porque o amigo jurou que "precisava ver aquilo com os próprios olhos".

O público de Bilú, tecnicamente, tinha crescido. Ele registrou isso, com sincera emoção, como uma vitória diplomática de proporções históricas.

Mais capivaras chegaram também — dezessete, segundo a última contagem de Seu Raimundo, que havia desistido de catar lenha havia muito tempo e se instalado numa pedra próxima com uma cuia de café, observando tudo com a paciência de quem já viu circo pegar fogo antes e sabe, por experiência, que gritar não adianta.

Bilú, no meio de uma frase sobre a paz entre nações, tropeçou na própria bandeira, que escolheu justamente aquele instante para tombar de vez sobre a lama. Ele a recolocou de pé com um gesto tão solene que quase convenceu a si mesmo de que aquilo fazia parte da encenação.

Na terceira hora, já não discursava mais sobre física com pureza científica. O cansaço, a emoção acumulada e um leve princípio de insolação tinham corroído de vez as fronteiras entre astrofísica, autobiografia e desabafo.

— ...e foi por isso — dizia ele, a voz embargada, gesticulando para um bando cada vez mais numeroso de roedores mastigadores — que decidi nunca mais confiar cegamente em glúten, nem em sistemas de navegação sem plano de dados internacional, porque, vejam bem, se há uma lição que a expansão acelerada do universo nos ensina, é que tudo o que se afasta, se afasta para sempre, e talvez seja isso mesmo, talvez a solidão cósmica seja só o preço de sermos feitos de poeira de estrela num universo educadamente indiferente à nossa necessidade de ser compreendidos, e é justamente por isso, prezados representantes, que a paz mundial começa com um gesto tão simples quanto...

Uma capivara arrotou.

Bilú parou, profundamente emocionado, absolutamente convencido de que aquilo era aplauso.

— • —

Foi Seu Raimundo, finalmente, quem encerrou a cerimônia.

— Rapaz — chamou, sem se levantar da pedra, com a voz de quem tira um curativo rápido pra doer menos. — Elas não tão entendendo nada.

Bilú parou no meio da frase, ainda de braço erguido.

— Como assim, "não estão entendendo nada"? Elas piscaram. Concordaram. Uma até vocalizou apreço.

— Capivara pisca porque é bicho de piscar devagar, moço. E o barulho que ela fez foi arroto, não foi discurso de resposta, não. — Raimundo tomou um gole de café, sem pressa nenhuma, deixando a informação assentar antes de continuar. — Capivara é assim com tudo. Ano passado, lá no barranco, uma dessas ficou parada do lado de uma onça-pintada quase uma hora inteira. A onça rondou, rosnou, fez a cara mais feia que onça sabe fazer. Capivara só mastigou capim, devagarinho, olhando pro nada. No fim, a onça foi embora entediada. A capivara nem percebeu que correu perigo. Meu compadre jura que até hoje ela nem sabe.

O silêncio que se seguiu foi diferente do silêncio de quatro segundos depois da queda de Perpétua. Esse aqui doía mais, e durou bem mais que quatro segundos.

Bilú desceu devagar do painel de comando, a bandeira de Cambuquira murchando na lama ao seu lado, e sentou-se sobre os destroços com a expressão de quem acaba de descobrir que passou três horas se declarando, de corpo e alma, para uma plateia que não fugiria nem da própria morte.

— Então eu vim de tão longe — murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer plateia, humana, animal ou cósmica — atravessei a escuridão entre as estrelas, sobrevivi à queda, perdi a nave, ofendi uma família inteira de tucanos... para discursar sobre a grandiosidade do universo para bichos que nem reconheceriam o próprio fim se ele chegasse mastigando capim ao lado deles.

— Olha o lado bom — disse Raimundo, se levantando e batendo a poeira da calça. — Pelo menos ninguém te interrompeu.

— Isso não é o lado bom, Seu Raimundo. Isso é exatamente o problema.

— Pra mim já é um progresso e tanto.

— • —

Foi Divino quem, sem querer, salvou a tarde.

Enquanto Bilú lamentava sua glória diplomática recém-desmoronada, o mico-leão-dourado tinha se aproximado dos destroços de Perpétua — talvez atraído pelo brilho, talvez apenas curioso o suficiente para investigar de perto aquilo que o mantivera ali, contra a própria vontade, por três horas inteiras. Cavou, com as patinhas ágeis, num pedaço de terra revirada pelo impacto, e ergueu entre os dedos um caco irregular de material escuro, quase negro, com uma superfície esquisitamente lisa demais para ser pedra comum e entalhada demais para ser lixo espacial.

— Ô, Bilú — chamou Seu Raimundo, se aproximando devagar, a curiosidade profissional de quem já viu de tudo naquele rio finalmente reacesa. — Vem ver o que o bichinho achou.

Bilú se levantou, ainda arrastando um pouco do orgulho ferido, e se ajoelhou ao lado de Divino, que, pela primeira vez desde que Bilú chegara, não pareceu cético. Pareceu, se é possível dizer isso de um primata pequeno e dourado, genuinamente interessado.

O caco trazia gravado, na superfície, um padrão de linhas geométricas que não se parecia com nada que Bilú tivesse visto em três aglomerados galácticos visitados — e, mais intrigante ainda, o mesmo padrão se repetia, em miniatura, dentro do próprio material, como se tivesse sido impresso em camadas cada vez menores, quase ao infinito.

O comunicador rachado, ainda pendurado no bolso da jaqueta de Bilú, escolheu esse exato instante para reviver por meio segundo, soltando um bipe fraco e uma única linha de texto antes de apagar de novo — como se aquela informação tivesse custado a Perpétua a última gota de energia solar que ainda guardava:

MATERIAL NÃO CATALOGADO. PADRÃO COMPATÍVEL COM ESTRUTURA DETECTADA A 340KM. RECOMENDAÇÃO: NÃO PERDER ISSO DE VISTA.

Seu Raimundo assobiou baixinho, impressionado pela primeira vez em dois dias inteiros.

— Rapaz. Isso não veio da sua nave, veio?

— Não — respondeu Bilú, virando o caco devagar entre os dedos reluzentes, sentindo, pela segunda vez em vinte e quatro horas terrestres, aquela sensação estranha de que talvez o GPS não tivesse falhado por acaso. Talvez tivesse simplesmente parado de mentir sobre onde ele realmente precisava estar. — Isso veio de baixo da terra.

No alto do cambará, Sebastião escolheu esse momento para descer em voo baixo, roubar uma das pedrinhas de zulfita esquecidas ao lado da bandeira caída — vingança pequena, mas suficiente — e sumir de volta entre as folhas, deixando para trás um Bilú boquiaberto e um Seu Raimundo genuinamente achando graça pela primeira vez desde que o café tinha esfriado.

Divino sentou-se sobre as patas traseiras, olhou para os dois humanos — ou, no caso de Bilú, para o que quer que ele tecnicamente fosse —, e, pela primeira vez em toda a tarde, pareceu finalmente impressionado com alguma coisa.

As capivaras, é claro, continuaram mastigando capim.

Algumas coisas, afinal, nenhum contato de primeiro tipo é capaz de mudar.

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