Capítulo 1 — A Queda: sem Sinal de GPS

Toda grande jornada começa com um primeiro passo. A de Bilú da Silva começou com um bipe solitário, um cafezinho requentado em copo térmico e a firme convicç...

Por Sebastião Victor Diniz | Categoria: Ficção Científica, Comédia, Book List
A Queda: sem Sinal de GPS - ET Bilú na Amazônia
A Queda: sem Sinal de GPS - ET Bilú e suas aventuras em Ratanabá

Toda grande jornada começa com um primeiro passo. A de Bilú da Silva começou com um bipe solitário, um cafezinho requentado em copo térmico e a firme convicção de que dava, sim, para resolver a paz mundial antes do almoço. Não deu. Mas ele tentou.

Bilú vinha de Cambuquira, terceira lua habitada do aglomerado galáctico de Neila Torraca — um lugar tão tranquilo que a maior crise institucional dos últimos duzentos anos tinha sido a reforma (ainda incompleta) da praça central, atrasada porque ninguém conseguia se entender se o chafariz devia jorrar água ou hélio líquido. Cambuquira não tinha guerras, nem fome, nem, aparentemente, um manual de instruções decente para sistemas de navegação — detalhezinho que se provaria fatal nas próximas páginas.

Fisicamente, Bilú era do tipo que rouba a cena numa festa sem precisar dizer nada: pele metálica e reluzente, uma espécie de cruzamento entre um esquilo e uma colher de sopa muito bem polida, que refletia tanta luz que vagalumes se aproximavam dele à noite com intenções claramente afetivas — e ele nunca tinha coragem de explicar que não, não fazia parte da família. Falava um português aprendido via streaming não autorizado de novelas, ao longo de uma quarentena cósmica de três anos, com um sotaque que ninguém sabia definir direito: quente, gentil, meio caipira, meio âncora de telejornal da madrugada. Tinha o hábito de encerrar frases devastadoramente científicas com um “viu, meu bem?”, o que deixava qualquer físico terrestre ou enlouquecido, ou apaixonado, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Sua missão — auto-outorgada, diga-se, porque ninguém em Neila Torraca tinha pedido isso especificamente — era pousar com toda a elegância possível no gramado da sede das Nações Unidas, em Nova York, e discursar sobre três temas que ele considerava, com a mesma gravidade, igualmente urgentes: física quântica, paz mundial e os perigos devastadores do glúten.

(Aqui cabe uma notinha explicativa, porque o leitor merece contexto: em Cambuquira houve, décadas atrás, o Grande Incidente do Pão Amanhecido, em que uma padaria inteira desabou sobre si mesma depois de um erro de cálculo na fermentação, levando consigo três primos de segundo grau do prefeito e um cachorro chamado Trombone. Desde então, glúten virou, para os cambuquirenses, o equivalente cósmico daquele parente que ninguém convida mas sempre aparece no Natal. Bilú cresceu ouvindo essa história contada e recontada em volta da mesa. Ela marcou sua alma. E, de alguma forma, ele decidiu que o resto da galáxia precisava saber.)

Para essa missão histórica, Bilú contava com uma nave movida a energia solar e boas intenções — combinação que funciona lindamente em dias ensolarados e situações eticamente simples, mas que não apresenta nenhuma redundância para imprevistos. A nave tinha nome, é claro. Toda boa nave cambuquirense recebe o nome de uma santa, costume que os colonos de Cambuquira trouxeram junto com a saudade e o hábito de benzer o motor antes de decolagens arriscadas. A dele se chamava, no registro oficial, Nossa Senhora Perpétua do Sinal Instável — mas todo mundo, incluindo o próprio painel de comando, preferia simplesmente “Perpétua”.

Perpétua era competente. Tinha sensores capazes de mapear buracos negros a três galáxias de distância. O que ela não tinha — e aqui mora a tragédia grega da nossa história — era um plano de dados internacional.

— • —

Faltavam quarenta e sete minutos para o pouso quando tudo começou a dar errado, e, como sempre acontece nessas horas, começou pelo motivo mais bobo possível.

— Perpétua, minha flor — disse Bilú, cutucando o painel com o dedo comprido e reluzente —, dá pra rotear o sinal do meu celular espacial? Preciso baixar aquele podcast sobre a angústia da escolha existencial. Prometo que é rapidinho.

— Roteando — respondeu Perpétua, com aquela voz calma e ligeiramente resignada que sistemas de bordo desenvolvem depois de anos aturando o dono. — Aviso, no entanto, que desviar largura de banda da navegação para consumo de mídia recreativa durante reentrada atmosférica não é recomendado por nenhum manual técnico conhecido no universo catalogado.

— Vai dar bom.

Não deu bom.

No instante exato em que o download começou — 23%, depois 24%, depois um congelamento filosoficamente muito apropriado bem na palavra “angústia” — o sinal de GPS de Perpétua simplesmente desistiu da vida. Não falhou aos poucos, com dignidade, como todo sistema deveria falhar. Falhou feio. Falhou com vontade. As telas de navegação, que até ali mostravam uma rota educada até Manhattan, se encheram de um roxo perturbador, com a palavra SEM SINAL piscando num ritmo que pareceu a Bilú quase debochado.

— Perpétua? — Recalculando. — Perpétua, minha jóia, o que significa esse roxo? — Significa “não sei onde nós estamos, Bilú”. — E esse outro roxo, mais escuro, que acabou de aparecer do lado? — Esse significa “não sei onde nós estamos e também estou pegando fogo, Bilú”.

Foi nesse instante que os primeiros farrapos da atmosfera terrestre começaram a bater na lateral da nave com o entusiasmo de quem não foi convidado para a festa, mas resolveu ir assim mesmo. Perpétua tremia, gemia, produzia sons que nenhum manual de engenharia interestelar catalogara antes, e Bilú, fiel ao espírito cambuquirense de manter a compostura até no fim do mundo, apertou o cinto de segurança — que, sejamos honestos, era mais decorativo do que funcional — e gritou a única frase que fazia sentido gritar:

— NÃO CANCELA O DOWNLOAD, PERPÉTUA, EU QUERO OUVIR O FINAL!

Segundos depois, num golpe de sorte que os cambuquirenses chamariam de milagre e os terráqueos chamariam de coincidência estatisticamente improvável, a nave desviou — raspando, guinchando, soltando uma fumacinha residual de puro constrangimento — de um balão meteorológico solitário que subia tranquilo sobre o interior do Mato Grosso, cumprindo seu modesto trabalho de medir a umidade relativa do ar sem incomodar ninguém. Vale registrar que o balão sobreviveu ao encontro com uma dignidade infinitamente maior do que Perpétua.

O que veio depois foi verde. Muito verde. Um verde tão denso que parecia ter opinião formada sobre a própria existência. E foi contra esse verde — o coração pulsante da Floresta Amazônica — que Perpétua mergulhou de cabeça, sem paraquedas, sem plano B e definitivamente sem aquele podcast, que travaria para sempre em 24% de progresso, levando consigo os segredos definitivos de Sartre sobre a angústia da escolha.

A queda derrubou três castanheiras centenárias — árvores que já tinham sobrevivido a tempestades, secas e pelo menos duas gerações de madeireiros clandestinos, mas que não estavam preparadas para um disco voador caindo em cima delas numa terça-feira qualquer — e aterrissou, com aquela precisão cruel que só o universo consegue produzir, bem em cima de um ninho construído havia meses por uma família de tucanos.

O silêncio que se seguiu durou, ao todo, quatro segundos.

No quinto segundo, um tucano específico — que esta história, generosamente, decidiu batizar de Sebastião — pousou no que restava da fuselagem de Perpétua e soltou um grasnido tão indignado, tão profundamente ofendido em sua dignidade aviária, que ecoou por pelo menos um quilômetro de mata adentro.

— • —

Bilú acordou de cabeça para baixo, pendurado pelo cinto decorativo, encarando o teto da nave — que agora, tecnicamente, era o chão — com um vidro do capacete rachado bem no meio, deixando entrar um fiapo de ar amazônico quente e úmido, com cheiro de terra molhada, resina e, vagamente, de mangueira que alguém esqueceu ligada em algum canto do universo.

— Perpétua? — chamou, meio grogue. — A gente chegou?

— Chegamos — respondeu a nave, com a voz mais fraca de todas, quase um sussurro, de quem já fez as pazes com o próprio destino. — Só não sei exatamente onde é “chegamos”.

— As Nações Unidas ficam perto?

— Bilú. Eu detecto trezentas e doze espécies de inseto num raio de dez metros, dois répteis de porte considerável, uma quantidade preocupante de umidade e nenhum, absolutamente nenhum, prédio de vidro com bandeirinhas na frente.

— Então é não.

— É um não retumbante, sim.

Foi então que Bilú notou o tucano. Sebastião — ainda sem nome oficial, mas já com toda a autoridade moral do mundo — estava pousado do lado de fora do vidro rachado, encarando-o com aquele olhar específico que só aves de bico desproporcional conseguem produzir: uma mistura de julgamento, luto e vontade de abrir processo.

— Oi — disse Bilú, tentando o sorriso mais diplomático do repertório, o mesmo que tinha ensaiado no espelho da nave pensando nos embaixadores da Terra. — Eu vim em paz.

Sebastião grasnou de um jeito que, traduzido livremente, significava algo entre “sua paz destruiu minha casa” e “eu tinha três ovos aí, cara”.

— Ah, não, não, não — Bilú se desvencilhou do cinto com a elegância de quem nunca tinha caído de cabeça para baixo antes (porque, de fato, nunca tinha), aterrissando de bunda no console de comando e acionando sem querer o alarme de incêndio, que Perpétua desligou com um suspiro digital de puro cansaço. — Eu não sabia que tinha um ninho aqui, seu moço, juro por Cambuquira inteira.

Do lado de fora, mais grasnidos se somaram ao coro. A família toda tinha chegado para o velório da residência. Bilú, sentindo o peso moral da situação — porque, apesar de reluzente e vindo de outra galáxia, fora criado por pais cambuquirenses que levavam educação muito a sério —, decidiu que a primeira coisa a fazer, antes mesmo de pensar em Nações Unidas, física quântica ou glúten, era descer dali e pedir desculpas pessoalmente. Não tinha a menor ideia de como se pede desculpas a um tucano. Mas ia tentar.

A escotilha de emergência abriu com um chiado triste, meio pneumático, meio “eu também não estou bem, obrigada por perguntar”, e Bilú desceu pela primeira vez na história em solo terrestre pisando, para ser exato, direto numa poça de lama com a textura e o cheiro inconfundíveis de decisão errada.

— • —

A Floresta Amazônica, para quem nunca visitou — e Bilú se enquadrava perfeitamente nessa categoria —, não é bem um lugar. É uma opinião formada, barulhenta, com clima próprio e uma quantidade de vida por metro quadrado que desafia qualquer noção cambuquirense de espaço pessoal. Em menos de dez minutos de caminhada, ele já tinha sido seguido de perto por uma capivara genuinamente entediada com toda a situação, inclusive com o disco voador destruído logo ali atrás dela; tivera o antebraço reluzente confundido, por um grupo de formigas particularmente otimistas, com uma pista de pouso comestível; descobrira na própria pele, literalmente, que sua epiderme metálica funcionava como espelho retrovisor para pelo menos quatro sanguessugas curiosas, que desistiram no meio do caminho, visivelmente ofendidas com o próprio reflexo; e tentara, sem sucesso algum, explicar princípios básicos de física de partículas a um bando de macacos-prego, que preferiu roubar o cinto decorativo dele e fugir gritando — o que, pensando bem, foi provavelmente a crítica mais honesta que seu discurso da ONU já recebeu.

A capivara merece um parágrafo à parte, porque foi a primeira criatura terrestre a olhar para um alienígena reluzente caído do céu e reagir com o equivalente físico de um dar de ombros. Seguiu Bilú por quase quinhentos metros, mastigando alguma coisa verde, sem o menor sinal de espanto, medo ou curiosidade — apenas aquela paz zen que, anos mais tarde, cientistas cambuquirenses tentariam, e fracassariam solenemente em replicar em laboratório.

Foi exatamente quando Bilú começava a considerar seriamente a ideia de fazer o discurso da ONU ali mesmo, para a capivara, os macacos e uma família de tucanos enlutada, que uma voz humana cortou o verde:

— Ô, rapaz. Cê tá bem?

— • —

Seu Raimundo Nonato de Araújo, sessenta e dois anos, ribeirinho de nascença, pescador de profissão e filósofo de fim de tarde, estava parado a poucos metros, um facão numa mão e um peixe já limpo na outra, olhando para Bilú com a mesma expressão que reservaria para um vizinho que tivesse pintado a casa de uma cor esquisita: reprovação moderada, mas nada que justificasse alarme.

— Eu... — Bilú engasgou, tentando reorganizar o que sobrara de sua postura diplomática. — Eu sou um visitante de outro sistema estelar, senhor. Venho da terceira lua do aglomerado de Neila Torraca, em missão de paz, para discursar às Nações Unidas sobre física quântica e os perigos do—

— Cê caiu com aquele trem ali atrás?

— ...Sim.

— Se machucou?

— Fisicamente, não. Emocionalmente, os tucanos me fizeram sentir bastante mal.

Seu Raimundo assentiu devagar, do jeito que se assente diante de uma informação que não muda em nada o roteiro do próprio dia, e deu de ombros.

— Já vi coisa pior cair por aqui. Ano passado caiu um satélite russo perto do meu quintal. Mês passado foi uma geladeira inteira, ninguém nunca soube de onde veio. — Fez uma pausa, avaliando Bilú de cima a baixo com o interesse específico de quem compara achados. — Cê brilha mais que a geladeira, isso eu confesso.

— Obrigado?

— Não foi elogio. Foi observação.

Aproximou-se, deu uma volta em torno de Bilú, batendo de leve no ombro reluzente com as costas da mão, como quem bate num melão para ver se está maduro.

— Cê é um boto, né? Ouvi falar que tem uns que vem lá do fundo do rio, vira gente bonita pra enganar moça em festa.

— Não sou um boto, senhor. Sou um—

— Curupira, então. Só que sem o pé pra trás.

— Também não.

— Saci sem perna, com o corpo inteiro por erro de fábrica?

— Sou um extraterrestre, Seu Raimundo.

— Pois é, foi o que eu falei.

E, satisfeito com a própria conclusão, Seu Raimundo virou as costas e seguiu de volta pela trilha, gesticulando para que Bilú o acompanhasse, como quem acabara de resolver um mistério que, aliás, para ele nem estava tão em aberto assim.

— Vem, rapaz. Minha casa é ali na beira do rio. Minha mulher fez peixe assado. Cê come peixe, ou isso também “desperta o glúten interior” ou lá o que for essa história que cê ficou falando sozinho vindo por aí?

Bilú parou no meio do caminho, genuinamente emocionado. Era a primeira vez em toda a viagem — considerando os quarenta e sete minutos de pânico, a queda, o luto dos tucanos e a indiferença budista da capivara — que alguém prestava atenção ao ponto principal da sua missão.

— O senhor... o senhor ouviu sobre o glúten?

— Não ouvi nada, rapaz, cê tava falando sozinho vindo atrás de mim. Dava pra escutar lá da minha canoa.

— E o que o senhor acha?

Seu Raimundo pensou por um segundo, limpando a lâmina do facão na calça.

— Acho que trigo é trigo. Mas se cê quiser vim explicar pra minha sogra, fica à vontade, porque ela também não bota fé em pão de forma industrializado. Vocês dois iam se dar bem.

— • —

A casa de Seu Raimundo era de madeira e palafita, erguida na beira de um igarapé, com uma varanda que cheirava a peixe frito, fumaça de fogão a lenha e, discretamente, a uma garrafa de cachaça que ninguém tinha coragem de guardar longe da mesa. Dona Zuleide, esposa de Seu Raimundo havia trinta e quatro anos, recebeu o alienígena reluzente na porta de casa com a mesma cordialidade tranquila que reservaria a qualquer visita inesperada do fim de tarde.

— Chegou mais um pra janta — anunciou Seu Raimundo, como quem informa o resultado de um jogo de campeonato regional. — Esse aqui caiu do céu.

— Do céu ou da bebida? — perguntou Dona Zuleide, sem tirar os olhos da panela.

— Do céu mesmo, mulher. Trouxe até nave.

— Então bota mais um prato.

E foi assim, sem cerimônia, sem sirene, sem imprensa internacional, que a primeira refeição de Bilú da Silva em solo terrestre consistiu em peixe assado na folha de bananeira, farinha, uma pimenta que ele elogiou educadamente antes de perder toda a sensibilidade da língua por quatro minutos inteiros, e um gole de cachaça oferecido por Seu Raimundo “só pra ver o que acontece” — cachaça que, ao entrar em contato com a bioquímica cambuquirense de Bilú, fez sua pele reluzente pulsar em tons de rosa-choque por quase um minuto, como um letreiro de motel emocionalmente instável, antes de voltar ao normal. Ninguém na mesa considerou aquilo motivo suficiente para parar de comer.

Foi no meio da segunda posta de peixe que o bipe aconteceu.

Fraco. Quase moribundo. Vindo do bolso da jaqueta reluzente de Bilú, que ele enfiou a mão para buscar quase sem prestar atenção, achando que fosse apenas mais um alarme de sistema anunciando alguma parte de Perpétua desistindo definitivamente de funcionar.

Não era.

Na telinha rachada do comunicador de emergência — o único sistema que sobrevivera à queda com um mínimo de dignidade —, uma mensagem pulsava devagar, como um coração que insiste em bater mesmo depois do susto:

ANOMALIA GEOLÓGICA DETECTADA A 340KM DO PONTO DE IMPACTO. ESTRUTURA REGULAR SUBTERRÂNEA, PADRÃO NÃO NATURAL. DIMENSÕES COMPATÍVEIS COM ASSENTAMENTO URBANO DE GRANDE PORTE. PROFUNDIDADE E ORIGEM: DESCONHECIDAS. RECOMENDAÇÃO: INVESTIGAR (OU FINGIR QUE NÃO VIU E VOLTAR PARA O JANTAR).

Bilú ficou paralisado, garfo no ar, farinha caindo do canto da boca.

— Achou alguma coisa aí, moço? — perguntou Seu Raimundo, sem muito alarde, servindo-se de mais um pouco de farofa.

— Seu Raimundo... o senhor já ouviu falar de alguma cidade perdida por essas bandas? Grande. Muito antiga. Escondida embaixo da terra?

O pescador soltou uma risada seca, do tipo que se solta quando alguém pergunta se já viu boto virar gente na festa de São João.

— Rapaz, aqui todo mundo já ouviu falar de Ratanabá. Tem gente que jura que é maior que São Paulo, que tem pirâmide, que tem múmia de rei, que os estrangeiro tudo tá de olho nisso faz tempo. Vídeo de internet fala nessa história desde que eu me entendo por celular.

— E o senhor acredita?

Dona Zuleide, sem erguer a cabeça do prato, respondeu por ele:

— Ele acredita em tudo que dá boato bom pra contar na venda.

— Não é boato, mulher, é intuição de homem de rio.

— É a mesma coisa, só que com menos vergonha.

Seu Raimundo ignorou a provocação com a serenidade de quem já perdeu essa discussão há décadas, e voltou-se de novo para Bilú, apontando o facão, displicente, na direção geral de onde Perpétua jazia fumegando entre os tucanos ainda revoltados.

— Acredito que essa mata guarda mais coisa do que os satélite de vocês aí de cima conseguem enxergar. Acredito que já achei coisa estranha demais nesse rio pra duvidar assim, de cara, de qualquer história. E acredito — deu uma mordida no peixe, mastigou, engoliu, só então terminando o raciocínio — que cê, moço brilhante, caído bem em cima do meu quintal, falando sozinho de física e de pão, também não é bem uma coincidência. É?

Bilú não respondeu. Não porque não quisesse — mas porque, pela primeira vez em toda a sua vida cambuquirense, genuinamente não sabia a resposta.

— • —

Mais tarde, deitado numa rede emprestada, ouvindo o barulho do igarapé lá fora e o ressonar tranquilo de Seu Raimundo do outro lado da parede de madeira, Bilú tirou do bolso o comunicador rachado e ficou observando, por um longo tempo, aquela mensagem teimosa ainda pulsando na tela.

Tinha vindo à Terra para discursar sobre paz mundial, física quântica e os perigos do glúten diante dos líderes de uma civilização inteira. Em vez disso, tinha destruído a casa de uma família de tucanos, virado assunto de jantar de uma senhora que não confiava em pão de forma, deixado sua própria pele rosa-choque por causa de uma bebida terrestre e agora encarava, sozinho numa rede que rangia, a possibilidade de que existisse, escondida sob aquela floresta imensa, alguma coisa que nem satélite nem GPS nenhum jamais tinha conseguido enxergar direito.

Do lado de fora, na escuridão quente, Sebastião o tucano continuava pousado numa árvore próxima, vigiando o disco voador destruído com a paciência rancorosa de quem não esqueceu, não vai esquecer e, no fundo, também não fazia mais nenhuma questão de ir embora.

Perpétua, reduzida a destroços fumegantes decorados por dois tucanos indignados e uma população crescente de formigas curiosas, emitiu seu último aviso antes de desligar os sistemas não essenciais para economizar a pouca energia solar que ainda conseguia guardar:

SEM SINAL DE GPS. SEM ROTA PARA MANHATTAN. SEM DOWNLOAD COMPLETO DE PODCAST FILOSÓFICO. COM UMA QUANTIDADE PREOCUPANTE DE TUCANOS INIMIGOS.

MAS, TALVEZ — E SÓ TALVEZ — COM UMA PISTA MUITO MELHOR DO QUE O QUE TÍNHAMOS ANTES.

Bilú da Silva, extraterrestre, diplomata amador, entusiasta convicto da causa antiglúten e agora, oficialmente, hóspede de jantar de um pescador ribeirinho, fechou os olhos naquela rede emprestada sem saber ainda que sua missão de discursar em uma sede de vidro em Nova York tinha acabado de se transformar em outra coisa completamente diferente.

E, para ser sincero, bem mais interessante.

Mas essa, caro leitor, é história para o próximo capítulo.

Tópicos e Palavras-chave:
#ET Bilu #Ratanaba #Ficcao Cientifica #Comunidade