Capítulo 1 — A Queda: sem Sinal de GPS

Toda grande jornada começa com um primeiro passo. A de Bilú da Silva começou com um bipe solitário, um cafezinho requentado em copo térmico e a firme convicç...

Por ET Bilú da Silva | Categoria: Ficção Científica, Comédia, Book List
ET Bilú na Amazônia

Toda grande jornada começa com um primeiro passo. A de Bilú da Silva começou com um bipe solitário, um cafezinho requentado em copo térmico e a firme convicção de que dava, sim, para resolver a paz mundial antes do almoço.

Apesar do nome aparentemente comum aos ouvidos terráqueos, Bilú da Silva era um diplomata por vocação. Ou, como seu supervisor direto costumava resmungar nos corredores da Embaixada Cósmica, "um otimista perigoso com acesso a uma nave classe C".

Naquela manhã de sábado cósmico — que no horário padrão terrestre equivaleria a uma terça-feira chuvosa —, Bilú ajustava o espelho retrovisor de sua nave de reconhecimento, carinhosamente batizada de Curiosa III. Seu plano era simples, elegante e, segundo todos os computadores de bordo consultados, estatisticamente fadado a noventa e quatro vírgula sete por cento de chance de mal-entendido catastrófico.

A missão era oficial: estabelecer contato preliminar com o quadrante Sul-Americano do planeta Terra, catalogar costumes locais, avaliar o nível de consciência coletiva e — se sobrasse tempo — tentar entender por que uma espécie capaz de dividir o átomo ainda insistia em brigar por vaga de estacionamento.

— Sistema de navegação ativado — anunciou a voz sintética do computador de bordo, que Bilú havia programado para soar com a calma irritante de um atendente de telemarketing. — Coordenadas inseridas: Planalto Central, América do Sul. Destino estimado: Ratanabá, setor histórico não catalogado.

— Excelente, Querida — respondeu Bilú, bebericando seu café que, na verdade, era uma infusão de néctar estelar com sabor artificial de avelã. — Hoje a humanidade dá um salto quântico.

O computador de bordo permaneceu em silêncio por três segundos antes de emitir um ruído que lembrava uma tosse educada:

— Atualização de rota disponível, senhor. O mapa estelar baixado na última parada em Alfa Centauri parece ter sido editado por um usuário não verificado chamado "Conhecimento_Livre_1987". Deseja prosseguir com o firmware pirata?

— Mas é claro! Economizamos quatrocentos créditos galácticos e ainda veio com protetor de tela animado. O que poderia dar errado?

ET Bilú na Amazônia

Primeiras impressões da atmosfera amazônica: umidade abundante e pernilongos com propensão a diálogos existenciais.

A reentrada atmosférica ocorreu exatamente como previsto nos primeiros quarenta segundos. As placas térmicas da Curiosa III brilharam num tom cereja respeitável, as nuvens se abriram como cortinas de um teatro antigo e a imensidão verde da Floresta Amazônica estendeu-se até onde a vista alcançava.

Foi no quadragésimo primeiro segundo que o GPS informou com alegria desmedida que o sinal de satélite havia sido perdido, sugerindo uma conversão em "U" na próxima nebulosa.

— Como assim conversão em "U"?! Estamos a Mach 4 sobre uma reserva florestal! — exclamou Bilú, agarrando o manche com os quatro dedos da mão direita e os três da esquerda.

Um estalo seco ecoou pelo painel de instrumentos. A tela principal piscou três vezes, exibiu uma mensagem em aramaico arcaico e apagou completamente. A gravidade artificial falhou por meio segundo — tempo suficiente para o copo térmico de Bilú flutuar, girar no ar e despejar café morno diretamente sobre o teclado de controle de propulsão.

— Manobra evasiva! Manobra evasiva! — gritou Bilú para si mesmo, enquanto a nave descrevia uma curva desajeitada no céu de Rondônia, cortando as copas de três castanheiras centenárias e pousando com um estrondo cinematográfico, espalhando folhas, terra fofa e dignidade por um raio de cinquenta metros.

O silêncio que se seguiu ao pouso foi interrompido apenas pelo estalar metálico da fuselagem esfriando e pelo zumbido característico de centenas de insetos que haviam decidido que a chegada de um ser extraterrestre era, acima de tudo, uma oportunidade gastronômica imperdível.

Bilú respirou fundo, ajustou seu traje diplomático prateado com detalhes dourados e abriu a escotilha principal. O ar da Amazônia atingiu seus pulmões como um abraço quente e úmido.

— Terráqueos! — proclamou Bilú para a clareira deserta, abrindo os braços num gesto largo e fraterno. — Eu venho em missão de paz, portador da luz e do saber acumulado das sete galáxias!

Um pernilongo de tamanho considerável pousou delicadamente na ponta de seu nariz luminoso.

"Buscai conhecimento..." — murmurou o pernilongo diretamente na mente de Bilú, num tom telepático estranhamente grave. — "...e repelente, se possível."

Bilú piscou os olhos, atônito diante de tamanha capacidade cognitiva da fauna local. Pegou seu bloco de notas holográfico e registrou a primeira entrada oficial de sua missão: a nave estava avariada, o café havia acabado, mas Ratanabá seria erguida com boa vontade, cipós amazônicos e o papel alumínio que sobrou da cozinha.

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